A importância de Bacurau ao narrar a vitória de esquecidos e invisíves

Obra aninha-se assim na mesma família de filmes apologéticos dos oprimidos, como 'Pale Rider' e 'Aquarius'

Cena de Bacurau (Foto: Divulgação)

Cena de Bacurau (Foto: Divulgação)

Cultura,Opinião

Há muito debate e divergências sobre Bacurau. No entanto, alguns pontos de avaliação sobre o filme parecem gozar de algum consenso.

Primeiramente, salvo um ou outro colunista da grande imprensa que faz profissão da detratação de tudo o que tenha qualquer cheiro de povo, não se encontra em quase tudo o que se publicou sobre o filme a avaliação de que ele seja simplista ou maniqueísta.

Em segundo lugar os críticos, até mesmo os favoráveis à ordem dominante, concordam que Bacurau é uma obra marcante, de impacto, além de mobilizar um contingente de mais de quinhentos mil espectadores.

Por fim, é preciso demarcar que muito se escreveu sobre os méritos estéticos da obra, desde a qualidade da produção, fotografia, roteiro, cenografia, direção dos atores, etc.

Neste texto, sem debater com nenhuma crítica em particular, temos a intenção de mostrar um outro ângulo, ou olhar, que parece ainda não explorado.

Nos referimos às oposições internas que o filme apresenta, e que têm papel estrutural na sua narrativa: locais contra turistas; mestiços de índios, negros, e brancos contra descendentes de raça branca pura; operadores de tecnologias rudimentares contra portadores de armas e tecnologias muito avançadas; e, principalmente, membros de uma comunidade nativa e isolada contra cidadãos globalizados.

Nesse último aspecto me parece residir aquilo que poderíamos chamar de alicerce teórico narrativo de Kleber Mendonça e Juliano Dorneles, ou seja, o jogo explicativo assentado na contraposição entre a comunidade, autossuficiente te e isolada, e a sociedade capitalista dominante e envolvente, que se expande vorazmente por meio da assimilação daquilo que é diferente dela, fragmentos de diversidade que, uma vez assimilados, tornam-se partes de um enorme e homogêneo corpo social.

Esse tipo de oposição não é algo novo na literatura ou no cinema.

Para ficar apenas em alguns poucos exemplos que nos ocorrem de imediato, citamos, Cavaleiro Solitário (Pale Rider) e Aquarius.

O primeiro, um faroeste de 1985, no qual Clint Eastwood encarna um pistoleiro com a cabeça a prêmio, que se alia a uma pequena e muito explorada vila de mineiros, em luta contra as poderosas empresas. A despeito da ingerência de um personagem que é marginal, seja em relação à sociedade abrangente e o padrão de capitalismo que ela projeta, seja em face ao próprio grupo social ao qual ele se alia e ao qual empresta sua força física, coragem e astúcia, o antagonismo que se coloca é entre os habitantes de um vilarejo miserável, no qual se observa tanto a homogeneidade quanto a coesão social, ambas garantidas por um destino comum – que embora não explicitado na trama, se anuncia nas falas e práticas – e os tubarões ascendentes da ferrovia e da mineração.

Temos, pois, os trabalhadores agregados, posseiros de uma terra inóspita, proprietários apenas de sua força braçal e de seus instrumentos de trabalho, que, sem declará-lo ou refletir sobre isso, projetam um capitalismo incorporador dos humildes. Em oposição a essa proposta singela, apresenta-se a prática clássica dos chamados “barões ladrões” norte americanos, cuja acumulação de riqueza em boa parte se assentou na usurpação, ou seja, na apropriação não contratual dos ganhos e produtos do trabalho.

Eastwood, como bom justiceiro de ficção – os reais são outra coisa, bem o sabemos – define a contenda a favor dos trabalhadores, preservando a liberdade, a solidariedade e o modo de vida da vila mineira.

Na mesma linha, o próprio Kleber Mendonça, em Aquarius, apresenta o conflito entre a escritora Clara e a Construtora Bonfim, causado pela insistência da personagem em não vender seu velho e aconchegante apartamento para que a empresa erga uma torre moderna, e, é claro, altamente rentável.

De um lado, a mulher interpela seu passado, gravado na memória, no corpo, e nas fotografias e LPs que lotam sua casa. Esse tempo passado é repleto de emoções, cicatrizes, amores que já morreram e outros ainda vivos, um móvel de quarto que testemunhou a libido de ao menos duas gerações, e o desgaste do tempo, presente nos objetos e também no semblante das pessoas. No canto oposto, se apruma a empresa, impessoal, sem história pregressa declarada, encarnada em tipos sem qualquer empatia, cujo movimento é ditado exclusivamente pela busca do lucro, com “fogo nos olhos”, como diz seu jovem proprietário.

Bacurau, em alguma medida, reproduz essa estrutura de narração. No entanto, nele, Mendonça e Dorneles radicalizam um elemento que contribui para tornar seu filme ainda mais marcante, e que remete – não sabemos se deliberadamente ou não, mas isso não importa – às reflexões sobre a comunidade presentes no pensamento alemão do século passado, de forte inspiração romântica. Essa perspectiva projeta a sociabilidade comunitária, marcada por elos de solidariedade e tradição, como o oposto daquela presente na sociedade capitalista dominante, na qual o motor da competição impele a expansão da modernidade.

Nesse ângulo de observação a comunidade não remonta a uma data precisa, nem tampouco se localiza numa coordenada espacial definida. Ela se materializa muito mais como um sentimento de pertença de seus membros, e como a percepção difusa de um passado e de destino comuns, que abraçam a todos.

Há em Bacurau ao menos duas citações diretas a essa indefinição do tempo e do espaço. De uma parte, a recorrente referência ao fato de Bacurau não aparecer nos mapas que os personagens consultam. Claro que esta menção pode ter mais do que uma leitura. Tanto pode significar que a comunidade vive num espaço que é delimitado apenas pela memória e pela tradição, ou, de outro modo, pode remeter a um local tão remoto e tão pouco significativo para o Estado e para a sociedade, que nem mesmo cartografado está. Seja como for, ambas as possibilidades estão a indicar que a localidade só tem significado e serve de referência para as poucas almas que lá vivem.

De outro lado, embora haja indicações de que a ação se desenrole num tempo próximo de nosso presente – talvez num futuro não distante, como está a indicar a tecnologia de comunicação dos visitantes – o tempo em Bacurau parece mover-se numa escala não linear, na qual o presente histórico enfrenta a resistência de um passado idealizado, essencial à sobrevivência dos locais.

O passado que se quer preservar luta contra a emergência de um futuro que se anuncia, mas que ainda não veio à luz.

O singelo, mas muito expressivo, MBH – Museu Histórico de Bacurau é um marco desse passado, uma espécie de templo onde reside e se cultua a memória material e simbólica daquela comunidade, que confronta o descaso social e a indiferença cultural dos visitantes. É também o principal ponto do território, a partir do qual se estrutura a resistência aos invasores, detentores do direito de vida ou morte sobre os cidadãos que dispensam o gentílico, com a mesma simplicidade que dispensam o governo local.

Em complemento, a escola, onde o professor Plínio transmite a tradição às crianças, também se torna outro ponto de abrigo dos resistentes. E nela que se alojam os resistentes comunitários quando do ataque dos forasteiros, que, vale lembrar são norte-americanos, auxiliados por brasileiros subalternizados e submissos aos intentos assassinos de seus mandantes estrangeiros.

E será nessa resistência que os personagens do passado -vivos ou mortos- virão à luz. Seja pela intervenção de Lunga, cangaceiro andrógino, violento, porém justo; seja pela aparição viva e aterradora da simpática Carmelita, a defunta, mulher síntese de uma história local, que tem como contraparte e complemento Domingas, a médica que enfrenta a doença e a morte na pequena localidade.

Na narrativa de Mendonça e Dorneles, Bacurau vence indivíduos que são frutos e instrumento de expansão de um capitalismo predatório de vidas; a tradição gregária se impõe à modernização dissolutora; o bacamarte suplanta a submetralhadora; o grito ‘tá chegando gente” supera a comunicação digital; o sertão derrota o asfalto; e “a gente” bate os representantes e agentes do imperialismo. Há quem veja nesse desfecho traços de um anti-imperialismo esquemático, um épico descolonial, que ao redimir os dominados, mas insubmissos, mantem o eixo do destino no solo nativo.

Bacurau aninha-se assim na mesma família de filmes apologéticos dos oprimidos, como Pale Rider e Aquarius.

Esse parentesco levam alguns a qualificar Bacurau como uma fábula esquerdista, na qual “a gente” vence. Pode ser, quem sabe haja fundamento nessa avaliação. Pode ser também que por narrar uma vitória dos de baixo, dos esquecidos e invisíveis, o filme seja tão necessário. Por que não?

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Sociólogo e presidente da FESPSP.

É documentarista.

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