A importância da Sociologia no Ensino Médio

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Opinião

Por Cristiano das Neves Bodart

É sabido que dois grandes objetivos da educação destacados na LDB (1996) são formar cidadãos conscientes e preparar os estudantes para o mercado de trabalho. Em outros termos, a educação deve ser importante para o cotidiano extraescolar, seja para as relações cotidianas, seja para a vida profissional (inclusão e manutenção no mercado de trabalho).

A partir do bom senso, podemos inferir que para que uma disciplina figure no currículo do Ensino Médio ela deva colaborar para atingir os objetivos traçados na LDB. A Sociologia pode colaborar para alcançar esses dois objetivos?

A resposta pode ser encontrada nos apontamentos de pesquisadores da Educação e do Ensino de Sociologia, assim como em pesquisas que demonstram a percepção dos alunos.

Pesquisa (1) que coordenei entre maio e junho de 2018 em Maceió-AL, com uma população de 640 alunos do 3º ano do Ensino Médio de escolas públicas e privadas, demonstrou que os alunos consideram a Sociologia importante para os dois objetivos destacados pela LDB. A coleta dos dados junto aos alunos deu-se de forma amostral (2) com desvio padrão de 5% e com erro probabilístico de 90%. A esses foi aplicado um questionário com o intuito de identificar a importância atribuída às disciplinas obrigatórias do Ensino Médio, dentre elas a Sociologia.

Na opinião dos alunos que participaram da pesquisa, a Sociologia seria uma das disciplinas mais importantes para a vida cotidiana, ficando atrás apenas de Português, Matemática e História.

(1) Ainda não publicada. Pesquisadores envolvidos: Cristiano das Neves Bodart e Caio dos Santos Tavares.
(2) Cálculo realizado por escola a partir do número total de alunos que cursistas do 3º ano do Ensino Médio.

Em se tratando de preparo para o mercado de trabalho, a Sociologia foi apontada, na mesma pesquisa, como a 5ª disciplina mais importante, sendo mais valorizada pelos alunos que a Filosofia, Biologia, Geografia, Química, Física, Educação Física e Artes.

O que a pesquisa indica é que os alunos, em contato com a Sociologia, passam a perceber sua importância. Não que esse reconhecimento esteja vinculado ao não reconhecimento das demais, apenas que frente a uma possível necessidade de ranquear as disciplinas, a Sociologia foi priorizada. Vale destacar que a pesquisa foi realizada em um estado onde apenas 11% dos professores possuem formação adequada na área, o que indica que essa valorização por parte dos alunos poderia ser ainda maior caso nossos gestores públicos investissem mais em formação dos professores de Sociologia; o que ampliaria a qualidade das aulas.

Ressaltamos ainda que por ter sido reintroduzida no currículo do Ensino Médio apenas há 10 anos, poucos são – comparativamente a outras disciplinas – os recursos didáticos produzidos exclusivamente para o ensino de Sociologia. Se por um lado isso é um problema a ser enfrentado, por outro evidencia que, mesmo com essa situação, os resultados do ensino de Sociologia no Ensino Médio são muito bons.

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Segundo especialistas, o acesso à Sociologia escolar promove condições para que os alunos ampliem sua capacidade de leitura do mundo social, colaborando para dois grandes objetivos da educação brasileira destacados pela LDB (1996): formar cidadãos e preparar para o mundo do trabalho.

Além do mais, a Sociologia promove o olhar desnaturalizado dos fenômenos sociais, enxergando-os sob uma perspectiva histórica, relacional e dialética, o que fomenta uma postura crítica diante do mundo, possibilitando aos alunos inserção consciente nos diversos espaços da sociedade.

Assim, por um lado especialistas vêm destacando a importância do ensino da Sociologia, por outro, os alunos vêm reconhecendo e percebendo o seu valor. Na contramão, políticos ameaçam retirar a Sociologia do Ensino Médio. Há justificativas plausíveis para retirar a Sociologia no Ensino Médio?

A quem interessa sua exclusão ou redução de seu espaço na escola? Aos objetivos traçados na LDB não é.

Cristiano das Neves Bodart é Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), docente do Centro de Educação da Ufal e integrante do Comissão de Comunicação da Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais (ABECS)

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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