Milton Rondó

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da ONU e representante, alterno, do Itamaraty no extinto Consea

Opinião

A importância da noção de soberania após a pandemia e a guerra na Ucrânia

O falso paradigma neoliberal de que bastava dinheiro para se obter o que quer que fosse parece definitivamente ultrapassado

Foto: iStock
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“Os rios e os mares são os senhores dos vales onde correm. Isso acontece porque eles ficam abaixo dos vales. De igual modo, quem quer ficar mais alto do que os outros deveria ficar abaixo deles; se quiser guiar os outros, precisa colocar-se abaixo deles.”
Lao-Tzu.

O desafio de servir está colocado para os seres humanos, todo o tempo.

O próprio Cristo dissera aos discípulos: “Aquele que quiser ser o primeiro seja o último.” Referia-se ao serviço que deveriam prestar, sendo os mais serviçais possíveis, a todos socorrendo, todo o tempo.

Sob essa métrica, como enxergar o atual desgoverno? Como aferir o papel dos países ricos na cena internacional?

Vemos que uns e outro visam aos seus interesses particulares e da cleptocracia que os mantêm, às custas do sangue dos povos ao Sul do planeta.

Em “O método Brecht” (editora Vozes), Frederic Jameson cita Bertold Brecht: “Certos pensamentos, da espécie ordenadora, pensamentos que instauram a ordem entre vários outros pensamentos, podem ser comparados a burocratas em sua conduta e função. Originalmente criados como servos da generalidade, eles logo se tornam senhores desta. Eles teriam que possibilitar a produção, e, ao invés disso, eles a dificultam…”.

Quem já conviveu com consultorias jurídicas sabe como esses órgãos facilmente tornam-se obstáculos aos objetivos finais, funcionando mais em função da forma do que dos resultados.

Nesse sentido, na referida obra, Jameson cita outra reflexão instigadora de Brecht: “Pode-se almejar ou lutar por uma transformação mais durável da própria consciência através da modificação do nosso próprio eu social. Pode-se ajudar a tornar as instituições do estado mais contraditórias e portanto mais capazes de evolução.”

Para isso, cabe buscar o diálogo entre elas, de forma horizontal. Mas como obtê-lo dentro de uma estrutura de corte piramidal, como são os estados atuais (o pouco que sobrou dele, no caso brasileiro)?

O partilhar retoma o posto como condição necessária à vida em sociedade; sem isso, temos o indivíduo e a multidão, sem mediação de trocas que os unam.

Com efeito, no citado volume, Jameson recorda: “Nos anos 60 muita gente compreendeu que em uma experiência coletiva verdadeiramente revolucionária o que passa a existir não é uma multidão ou massa sem nome e sem rosto mas, ao invés disso, um novo nível de existência que Deleuze, seguindo Eisenstein, chama de Dividual.”

Mas quão difícil é termos visão dos processos históricos coletivos enquanto eles se dão!

Erguer a cabeça e contemplar o conjunto, ver a floresta e não a lenha, como já dissera Leon Tolstoi.

Mais difícil ainda é ter visão “pós-histórica”, em que se compreende o momento e se projeta o futuro, o caminho do bem, da terra sem males – e como a ela aceder.

Neste sentido, uma das certezas que emergem da pandemia e da guerra na Ucrânia é a importância da noção de soberania: agrícola, alimentar, energética, financeira etc.

O falso paradigma neoliberal de que bastava dinheiro para se obter o que quer que fosse parece definitivamente ultrapassado.

Nos 200 anos da Independência brasileira, isso deveria fazer todo o sentido, não estivéssemos nós mais uma vez reduzidos à condição de colônia.

Pior, com forças armadas, que essas soberanias deveriam defender, à mercê do colonizador e da oligarquia local que lhe é vassala e tributária.

Em “Che Guevara – a vida em vermelho” (editora Companhia das Letras), de Jorge Castañeda, temos a seguinte visão pós-histórica do líder revolucionário: “Até quando perdura essa ordem de coisas baseada em um absurdo sentimento de casta é algo a que não posso responder, mas é hora de os governantes dedicarem menos tempo à propaganda das virtudes de seus regimes e mais dinheiro, muitíssimo mais dinheiro, às obras de utilidade social.”

Ao entender a origem da dominação que depusera, em um golpe de estado, o presidente democraticamente eleito da Guatemala, Jacobo Arbentz, em 1954, o jovem Guevara, nas palavras de Castañeda, extrapolaria aquele dramático fato histórico para avançar ainda mais na compreensão da pós-história latino-americana: “O grande ensinamento que o jovem revolucionário argentino extraiu foi a oposição a priori e implacável dos Estados Unidos a qualquer tentativa de reforma econômica e social na América Latina. Convinha então preparar-se para combater a interferência norte-americana e não buscar formas de evitá-la ou neutralizá-la.”

Sempre evoluindo, o Che logo atingirá os limites da luta anti-imperialista, como se verifica em outra citação de Guevara, feita por Castañeda naquele volume, ao concluir diatribe, de forma esclarecedora e atual: “Portanto, você é um dos que acreditam que podemos fazer uma revolução pelas costas dos americanos! Que borra-botas! Temos que fazer a revolução em luta de morte com o imperialismo, desde o primeiro momento. Não se pode disfarçar uma revolução de verdade.”

Dona Leopoldina e Dom Pedro I também chegaram a essa conclusão.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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