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A grande lacuna da eleição
A política ambiental precisa deixar de ser tratada como um capítulo isolado dos programas de governo
As mudanças climáticas estão atingindo em cheio vários países. O Brasil, em particular, está enfrentando crises climáticas frequentes, com impactos significativos na produção agropecuária, na geração de hidroeletricidade e em perdas econômicas. A degradação ambiental torna a vida em nossas cidades cada vez mais difícil, com ondas de calor, tornados, enchentes e outros impactos que acarretam grandes prejuízos à população e à economia. Não há dúvida de que a crise climática se tornou um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento econômico brasileiro.
Entretanto, a agenda ambiental e climática aparece de forma tímida, fragmentada e secundária nas discussões eleitorais. Isso vale tanto nas eleições para a Câmara e para o Senado quanto na eleição presidencial. Secas prolongadas, ondas de calor, chuvas extremas, enchentes, incêndios florestais e perdas na produção agropecuária já deixaram de ser eventos excepcionais. Tornaram-se parte de uma realidade que afeta a economia, a saúde pública, a segurança alimentar, a infraestrutura e a vida cotidiana de milhões de brasileiros.
A ausência desse tema nas eleições não significa que as questões ambientais e climáticas tenham perdido importância. A produção de alimentos depende cada vez mais da disponibilidade de água e de condições climáticas favoráveis; cidades enfrentam custos crescentes com enchentes e deslizamentos; sistemas de energia e de transporte tornam-se vulneráveis a eventos extremos; e o setor de seguros começa a lidar com enormes perdas que podem comprometer a própria capacidade de cobertura. Ignorar esses temas em uma campanha eleitoral significa deixar de discutir questões que determinarão o futuro econômico e social do País.
Há ainda várias dimensões estratégicas. O Brasil possui uma das maiores biodiversidades do planeta, vastos estoques de carbono, enorme potencial de geração de energia renovável e condições privilegiadas para liderar a transição para uma economia de baixo carbono. Nossos ecossistemas não são apenas patrimônios naturais. São componentes essenciais da economia, do bem-estar da população, do regime de chuvas, da segurança hídrica, da agricultura e da estabilidade climática. A conservação desses biomas deveria ser tratada como política de desenvolvimento, não como uma agenda restrita a órgãos ambientais.
Quando surge, o debate eleitoral frequentemente reduz a questão ambiental a conflitos pontuais: desmatamento, licenciamento, fiscalização ou criação de unidades de conservação. Esses temas são importantes, mas insuficientes. O eleitor deveria conhecer as propostas dos candidatos para a adaptação às mudanças climáticas, a prevenção de desastres, a segurança hídrica, a agricultura resiliente, a proteção das florestas, a redução das emissões de gases de efeito estufa, a transição energética e o financiamento da agenda ambiental. Mas raramente se observam esses temas nestas eleições.
Todos sabemos que a extrema-direita privilegia o status quo atual, que lhe é favorável, em detrimento dos interesses da população. Os chamados “políticos conservadores” não querem mudanças em um regime econômico que os favorece. Entretanto, é necessário discutir quanto isso vai custar e quem pagará a conta pela falta de ações. Qual será o impacto nas contas públicas se a prevenção e a adaptação continuarem sendo substituídas por respostas emergenciais caras depois que os desastres acontecem? A prevenção é muito mais barata. Aumentar a resiliência de um Brasil vulnerável às mudanças climáticas deve ser, urgentemente, um programa de Estado.
A política ambiental precisa deixar de ser tratada como um capítulo isolado dos programas de governo. Ela deve atravessar as políticas econômicas, agrícolas, energéticas, urbanas, industriais, de infraestrutura e de saúde. Estas eleições poderiam oferecer uma oportunidade para que os candidatos em todos os níveis apresentem propostas para enfrentar a crise climática.
O eleitor precisa saber como cada candidatura pretende preparar o Brasil para um clima mais extremo, proteger seus recursos naturais e, ao mesmo tempo, aproveitar as oportunidades econômicas da transição para uma sociedade de baixo carbono. A ausência desse debate nas eleições constitui uma lacuna no projeto do País. Em um Brasil cada vez mais vulnerável às mudanças climáticas, discutir preservação do meio ambiente não deveria ser escolha política secundária. Deveria ser uma das condições fundamentais para definir o futuro que os brasileiros querem construir. •
Publicado na edição n° 1427 de CartaCapital, em 26 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A grande lacuna da eleição’
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