A gente sabe da violência contra os trans. Mas existe a resistência

JuPat lança 2º álbum e conta que entrou em crise em 2018 com eleição de Bolsonaro

Créditos: Tamy Tectoniza/Divulgação

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Opinião

A mulher transexual JuPat apresenta seu segundo álbum, já disponível nas plataformas de música na internet. A cantora e compositora paulista lança o trabalho autoral Nadando com Peixes que VoamEm 2018, JuPat tinha feito Toda Mulher Nasce Chovendo, autobiográfico e de resistência. O segundo tem o afeto como predomínio.

“O primeiro disco veio num momento marcante da minha vida, pois estava no início de transição do processo que eu me colocava como mulher perante o mundo. Eu agarrei naquele momento ao rap porque tive sempre contato com ele, sabia fazer. O rap carrega vozes das coisas que nunca foram ouvidas”, diz. 

Agora, ela vai além, apresentando outras musicalidades, extraídas da MPB, do reggae. “De lá para cá muita coisa mudou. Encerrou o ciclo afirmação. Senti a necessidade de explorar outras camadas, tanto em termos de musicalidade como de letra”.

A artista vê que a representatividade não passa apenas defender a existência da pessoa trans, mas também abordar sobre desejos e inspirações.  “O disco é um mergulho em novas águas. Não precisa ser mais essa coisa agressiva do rap. Explorar oceanos mais tranquilos, mais leves”. 

O título do álbum Nadando com Peixes que Voam, segundo JuPat, é uma metáfora sobre as belezas da “surrealidade” e o encontro com a poesia. “O corpo trans pode também estar sujeito ao amor”.  A produção do trabalho com Nikolas Chacon permitiu buscar outras musicalidades para o álbum, diz JuPat. Aliás, JuPat vem de seu nome Julia Paterniani.

 

Alvo

A cantora transexual lembra que nas últimas eleições, o temor tomou conta. “A gente sempre foi alvo. Nunca foi fácil. No período das eleições, entrei em crise. A gente estava prestes a eleger um fascista e a ia ser cada vez mais alvo”. 

JuPat, que naquele ano havia lançado seu primeiro álbum, relata crise forte: “Quanto vale a pena se expor, me colocar em risco, na frente, me colocar de alvo”. Mas resolveu continuar: “A gente sabe dos riscos, da violência contra as pessoas trans. A resistência tem que ser proporcional. Se por um lado tem essa onda conservadora, que dá um medo até onde isso vai chegar nos ataques que a gente sofre, do outro tem o lado da resistência”. 

Ela ressalta que as pessoas trans têm ocupado áreas que antes não estavam, e cita Erica Malunguinho, primeira mulher transexual eleita para a Assembleia Legislativa de São Paulo. “É continuar brigando, ocupando espaço”, finaliza.

 

Nadando com Peixes que Voam tem 11 faixas e conta com participação de Tamy Tectoniza, Dandy Poeta, Denise Mokreys, Raphael Warlock, Allure Dayo e Zara Dobura. Todas as músicas foram compostas por JuPat, sendo seis faixas em parceria com cinco nomes anteriormente citados. O trabalho é sútil, num ritmo delicado, transcendente, com revelações amorosas de um universo humano.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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