Gustavo Freire Barbosa

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Advogado, mestre em direito constitucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Coautor de “Por que ler Marx hoje? Reflexões sobre trabalho e revolução”.

Opinião

A ‘Folha’ de sempre

Editorial do maior jornal impresso do Sudeste segue a panfletagem por adoção políticas neoliberais

O ministro da Economia, Paulo Guedes. Foto: Evaristo Sá/AFP
O ministro da Economia, Paulo Guedes. Foto: Evaristo Sá/AFP
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Muito se ouve que o PT deveria fazer uma autocrítica. A expectativa nada inocente de quem defende isso costuma ser a de que o partido se autoflagele publicamente, facilitando a vida dos seus adversários.

Esse clamor pela autocrítica, evidentemente, não envolve os equivocados recuos à direita nos meses finais do governo Dilma. Tampouco a conta da crise recai sobre essas concessões, ainda que, desde que Temer resolveu torná-las política de governo, a piora do país só tenha acelerado. A passagem de Joaquim Levy no Ministério da Fazenda, embora tenha aprofundado a recessão ao invés de resolvê-la, sequer merece um rodapé na cartilha liberal/conservadora antipetista.

Mesmo que o neoliberalismo de Temer/Bolsonaro tenha deixado nossa economia de muletas e produzido alarmantes índices de desemprego e miséria, alguns acham que o galope neoliberal deve ser redobrado.

É essa a posição da Folha de S. Paulo, expressa no editorial “O PT de sempre” publicado no último dia 07. Nele, o jornal critica o documento da campanha de Lula que reforça o papel do Estado na economia e a revogação do teto de gastos e da reforma trabalhista, além de defender o fortalecimento de entidades sindicais.

“Repetição de teses estatistas e corporativistas”, “descrédito” e “temor nos meios políticos e econômicos” são algumas das expressões utilizadas pelo jornal, que parece torcer para que um eventual governo Lula deixe de lado “ideologias em favor do bom senso”. Manter a militância ativa seria o propósito não declarado do documento, segundo os editorialistas.

É certo que o governo Lula, com a saída de Palocci do Ministério da Fazenda no início de 2006, não seguiu o manual da ortodoxia professada pela Folha, que tenta a todo custo justificar que os cânones liberais do século XVII não estão datados, chegando a desresponsabilizar o ex-presidente pelos bons índices de sua gestão: “na maior parte de seus dois mandatos, o líder petista contou com cenário internacional e condições orçamentárias mais favoráveis, o que lhe permitiu ampliar a despesa pública sem fazer dívida, adiar reformas difíceis e satisfazer suas bases sindicais”.

O editorial também defende que, apesar do atual cenário de profunda miséria e desalento, não haveria mais margem para a adoção de políticas anticíclicas e de investimentos sociais. Nessa linha, por ser um instrumento necessário para “eliminar o déficit orçamentário legado pelo governo Dilma”, a revisão do teto de gastos estaria fora da realidade.

Para manter seus dogmas, Folha, chicago boys, farialimers e assemelhados precisam mistificar a realidade. O primeiro exemplo disso está na esparrela da “gastança petista”, quando o que houve foi a diminuição da receita em função da crise internacional. O que seria um remédio amargo – as concessões neoliberais – utilizado para conter os abutres do golpismo só trouxe desgraças desde que deixou de ser um remédio e passou a ser servido no café da manhã, almoço e jantar dos brasileiros – ao menos dos que têm a sorte de não estar entre os 125 milhões que hoje não têm comida garantida.

Se quase 60% da população passando fome não é suficiente para sensibilizar liberais e suas sandices ideológicas, tampouco surte efeito a ideia de colocar empresas públicas a serviço do povo ao invés de acionistas privados minoritários. Nesse ponto a Folha manifesta-se a favor da privatização da Petrobras, uma vez que nela houve “esquemas bilionários de corrupção”, além do “prejuízo insustentável produzido pela política de segurar preços na tentativa inútil de mascarar a inflação”.

Defender privatizações com base na corrupção é querer matar a vaca junto com os carrapatos, pressupondo, ainda, que o mundo da iniciativa privada é o dos panfletos das Testemunhas de Jeová.

Nesse reino de unicórnios, não há espaço para a esfera pública, sendo um desatino que se dedique a algo mais que à defesa da propriedade privada e à proliferação concomitante de bilionários e miseráveis.

Ao que se sabe, a corrupção denunciada pela Folha tem sua origem em predatórios interesses privados que viram nos fundos públicos um manancial de lucros. O desmonte do Estado tem essa mesma gênese. Por isso não há surpresa na defesa indireta da atual política de preços da Petrobras, a mesma que, vinculando os preços à variação do dólar e do barril de petróleo no mercado internacional, enche os bolsos de acionistas minoritários às custas do sofrimento de quem tem que recorrer ao carvão e à lenha por não conseguir pagar R$ 100 em um botijão de gás – sem falar no preço da gasolina e seus reflexos na cadeia produtiva, aumentando o custo de vida de uma população cuja maioria inicia o dia sem saber se irá comer.

Como, segundo o Barão de Itararé, tudo seria fácil se não fossem as dificuldades, o editorial conclui que “ao que se prenuncia, para sair vencedor Lula terá de esconder, além de Dilma, o próprio PT”.

Os unicórnios, diferente da nossa população, continuam bem alimentados.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Gustavo Freire Barbosa

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