

Colunas
À flor da pele
O período pré-Copa costuma ser decisivo, extenuante e, acima de tudo, seletivo. Cada detalhe conta. Cada semana pode mudar destinos
A motivação anda a todo vapor, não só para quem sonha figurar na próxima lista de convocados, a ser divulgada no dia 18 de maio, mas para aqueles já considerados garantidos, que precisam manter-se em dia.
O período pré-Copa costuma ser decisivo, extenuante e, acima de tudo, seletivo. Cada detalhe conta. Cada semana pode mudar destinos
Há muitos jogadores rendendo no limite por seus clubes, enchendo os olhos da torcida.
Ao mesmo tempo, existem atletas cotados cuja forma oscila porque os clubes não atravessam boa fase – situação ingrata para quem precisa mostrar consistência.
Nomes como Gerson, Danilo, Lucas Paquetá, André Gomes, Kaio Jorge, Vítor Reis, Bruno Guimarães, os dois Igor (Jesus e Thiago), os dois Pedro (João e o do Flamengo), Rayan, Endrick e outros aparecem com frequência nas discussões.
Meias criativos e artilheiros têm vantagem pela carência atual de nossas equipes; brilham em seus clubes e reforçam a ideia de que futebol é, acima de tudo, momento.
Ainda cabe a possibilidade de uma revelação de última hora. Treinadores experientes sabem que surpresas acontecem.
Num prazo tão curto para a Copa, é preciso colocar a bola no chão e livrar dois dos nossos maiores talentos – Vinícius Júnior e Neymar – desse fogo cruzado extracampo.
Ambos têm sido consumidos por um desgaste midiático estéril. É hora de acompanhar, proteger e preservá-los. Interesses mercadológicos e celeumas públicas roubam energia do trabalho diário e podem custar caro quando a competição começar.
Perder força no meio do caminho por questões secundárias é um luxo que não podemos permitir.
Parte do êxito do poderoso Real Madrid vem dessa gestão objetiva: dirigentes que não titubeiam ao tomar decisões públicas para resguardar atleta e elenco.
Florentino Pérez, ao declarar que cuidaria da situação envolvendo Vinícius Júnior, cortou o mal pela raiz e deu clareza ao ambiente. Ao mesmo tempo admitiu erros e buscou ajustes técnicos.
No Brasil, iniciativas parecidas surgem em clubes que apostam em gente do futebol para funções técnicas, como foi o caso da promoção de Filipe Luís no Flamengo – valorizando a intimidade com o elenco e a cultura do clube.
Nem sempre a aposta dá certo, mas é um caminho que tenta equilibrar identidade, conhecimento humano e resultados. O risco faz parte do jogo e, às vezes, a continuidade do trabalho exige coragem para mudar.
Por aqui, a Copa do Brasil começa a esquentar e continua sendo uma das competições que mais motivam os apaixonados.
Suas chaves guardam rivalidades, superação e histórias que renovam o amor pelo futebol. Paralelamente, surgem iniciativas que mostram o esporte em sua vocação de transformação social e cultural.
De Maricá (RJ) vem uma notícia inspiradora: a participação na terceira divisão do campeonato carioca de uma equipe formada exclusivamente por indígenas – o E.C. Originários.
Idealizado pelo presidente Tupã Nunes, o clube reúne atletas indígenas de várias regiões do País e valoriza a cultura por meio do “caminho da arte e do esporte”.
É um projeto criterioso e planejado que busca mostrar a vivência indígena no campo e fora dele, promovendo identidade, respeito e inclusão.
Outra leitura importante veio do blog da jornalista Jéssica Cescon. Suas análises, com lucidez, destrincharam vários problemas do futebol brasileiro contemporâneo.
Ela falou em “futebol padronizado”, “jogadores domesticados”, “jogo tedioso”, além de abordar confusões de arbitragem e o uso do VAR. Concordo que tem faltado liberdade criativa aos atletas.
Repercussões internacionais mostram sinais dos tempos: houve críticas às manifestações festivas de Endrick, por exemplo, e reações que interpretaram certas celebrações como sintomas de uma padronização que pode sufocar a criatividade.
A crítica de Jéssica encontra eco além-fronteiras: precisamos resgatar a autenticidade do nosso jogo, sem medo de inventar jogadas, coragens e culturas.
Para encerrar com boas notícias, Gabriel Araújo, nosso Gabrielzinho, recebeu o prêmio Laureus de melhor atleta com deficiência. É um reconhecimento merecido para o espetacular nadador mineiro, motivo de orgulho e inspiração para o esporte brasileiro.
Essas conquistas mostram que o esporte é também espaço de superação e exemplo. •
Publicado na edição n° 1410 de CartaCapital, em 29 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘À flor da pele’
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.


