Camilo Aggio

Professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas

Opinião

A Espiral do Silêncio da Caserna ou O Golpe do Off

Quando o militar que defende a democracia tem de se esconder no anonimato é porque o constrangimento imposto à sua opinião no ambiente militar é alto

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Vocês já devem ter percebido a existência de um fenômeno atual que orbita o golpe bolsonarista e se manifesta no jornalismo político. Falo especificamente de como, por um lado, os militares alinhados à empreitada golpista do presidente da República mostram a cara, a desvergonha e a patente ao darem entrevistas e declarações a jornalistas e de como, por outro lado, os militares que refutam as investidas contra o sistema eleitoral em favor da democracia só se manifestam em off, ou seja, como fantasminhas camaradas do bem. Invisíveis para todos os efeitos.

Os exemplos são muitos, mas resgatarei dois dos mais recentes. Segundo uma série de veículos, Almir Garnier Santos, nada menos que o atual comandante da Marinha, manifestou apoio às falas de Jair Bolsonaro sobre a auditoria privada das urnas. Em outras palavras, Santos manifestou, de peito aberto e carteira de identidade militar colada no rosto, apoio à contestação prévia e certa da única autoridade competente de nosso Estado de Direito para referendar e chancelar os resultados das urnas: o Tribunal Superior Eleitoral.

Nenhuma novidade nisso. O golpe bolsonarista, desde 2018, sempre se sustentou nos conspiracionismo da fraude das urnas. Escrevi a respeito há mais de um ano nesta mesma coluna.

O outro exemplo, na contramão da transparência do golpismo militar bolsonarista, vem da jornalista do G1 Andréia Sadi. Em seu blog, no último dia 6, estampou a seguinte linha de apoio: “Assessores ouvidos pelo blog dizem que generais da ativa afirmam que não apoiarão ‘loucuras’ do presidente e que os militares alinhados a ele não têm força para provocar ruptura institucional”. Os assessores em questão são assessores de Lula que foram aos militares lhe darem ainda mais munição para se comportarem como tutores da política nacional.

Um escárnio, mas, escárnios à parte, fiquemos com os fatos: a matéria não nos traz nomes. Até tomamos conhecimento de que são generais da ativa, mas, diante de tanta penumbra e tanta fumaça, como confiar verdadeiramente nessas informações? Como atribuir sinceridade e realidade às declarações desses reais ou supostos generais? De qualquer modo, vamos dar um voto de confiança em nome do ceticismo científico.

Há quem aposte que os militares do golpismo bolsonarista são uma minoria desprovida de força para uma empreitada bem-sucedida de subversão do que ainda resta de democracia no País. Podem estar certos, ainda que desconfie de que estejam errados. Os dois exemplos que cito balizam minha desconfiança.

Quando o militar que (supostamente) defende a democracia precisa se esconder no anonimato do jornalismo declaratório é porque os constrangimentos impostos à sua opinião em seus ambientes militares de convívio são altos. Em outras palavras, tudo indica que os custos de exposição de sua posição na caserna são muito mais elevados do que os custos arcados por parte dos golpistas que fazem questão de não esconder a cara nem as intenções.

Mais uma vez esta coluna traz a Teoria da Espiral do Silêncio para explicar fenômenos da nossa política nacional. Se os militares antigolpistas só aceitam dar declarações sob a condição do anonimato é porque temem o isolamento e as sanções decorrentes da manifestação explícita dessas posições. Se os golpistas não fazem questão de sequer disfarçar, temos duas explicações à luz da teoria de Elisabeth Noelle-Neumann:

  • a) essa posição é, sim, majoritária entre os militares e, por isso, as opiniões são manifestadas sem quaisquer constrangimentos de expô-las;
  • (b) pode não ser majoritária, mas seus defensores pensam que sim e, por isso, têm muito mais condições de fazê-la majoritária por meio do engajamento e da mobilização de seus pares e impô-la como soberana sobre uma hipotética maioria antigolpista que não se enxerga como tal.

O problema do golpe não é o seu anúncio com data e hora marcadas. Neste momento sequer consigo elencar a própria subestimação social das forças de Jair Bolsonaro e de seus militares, ao menos desde 2018, por parte da grande imprensa e de outros setores civis e sociais – afinal, vejam onde esse cara conseguiu chegar com todo seu poder de destruição que lhe foi negado por quase toda a inteligência brasileira.

Sinalizo apenas para o seguinte: a transparência de que precisamos para minar essa empreitada diante de uma vitória de Lula não é expressa por medidas ingênuas e estúpidas tal como a do TSE ao convidar militares para dar palpite em matéria de eleições.

A transparência de que precisamos é a de declarações claras, sonoras, diretas, assinadas e carimbadas de defesa de todo e qualquer resultado referendado pelo TSE. Esses militares anônimos, portanto, são parte de um universo muito maior de indivíduos, grupos, movimentos e entidades que dão sinais ainda mais claros não de subestimação das ameaças de golpe, mas de dúvidas sobre de que lado estar e o que defender frente ao que já sabemos que será a vida politica nacional pós-outubro.

Jair Bolsonaro e seus militares estão longe de estarem sozinhos nessa.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Camilo Aggio

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