A enfermeira Mônica Calazans e um novo olhar sobre as mulheres negras

O punho cerrado de Mônica após receber a vacina é um passo fundamental para a construção de novos olhares a respeito das afrodescendentes

Mônica Calazans, a primeira brasileira a ser vacinada contra a Covid-19 (Foto: NELSON ALMEIDA / AFP)

Mônica Calazans, a primeira brasileira a ser vacinada contra a Covid-19 (Foto: NELSON ALMEIDA / AFP)

Opinião

Na última segunda-feira, completei mais um ano de vida. Conforme o momento exige, não teve festa. Numa fase em que os níveis de contaminação e de mortes decorrentes da Covid-19 batem recordes, todo cuidado é pouco. Contudo, não lamentei a ausência de comemorações. O maior presente que eu poderia receber chegou na véspera: a vacina, aplicada na enfermeira Mônica Calazans no dia 17, às 15h, no Hospital das Clínicas de São Paulo.

 

 

Negra, Mônica entra para a história do país ao ser a primeira mulher a receber a vacina que representa a esperança de pôr fim à pandemia que colocou a vida em suspenso, trouxe angústia, desemparo e, até agora, vitimou mais de 210 mil pessoas no Brasil.

A escolha do governador de São Paulo, João Doria, não poderia ter sido mais acertada. A despeito de todas as críticas que tenho em relação a ele e à política neoliberal e higienista de seu governo, é inegável que suas ações trouxeram ar para um país sufocado pelo despreparo, pelo descaso e pela omissão do Governo Federal. A vacina recebida por Mônica, transmitida ao vivo para todo o Brasil, representa a vitória da Ciência sobre o negacionismo e o reconhecimento da importância do SUS, maior sistema de saúde pública do mundo.

Além disso, Mônica é reflexo de um tempo de luta, em que está cada vez mais evidente a necessidade de políticas de ações afirmativas em benefício da população negra.

Na linha de frente do combate à Covid no Hospital Emílio Ribas, Mônica conquistou o diploma de enfermeira aos 46 anos, o que revela o impacto positivo na vida dos negros das políticas públicas de expansão do ensino superior adotadas no Brasil a partir de 2003. Moradora de Itaquera, Zona Leste da capital paulista, a enfermeira sorridente e de fala firme é viúva e mãe de um filho.

Mônica é uma sobrevivente, uma vez que entre os mortos pelo novo coronavírus, 55% eram pretos. Mônica é sobrevivente de uma sociedade que nega às afro-brasileiras o acesso à saúde, à educação e à Justiça. Mônica é sobrevivente de um país cuja violência de gênero tem como alvo preferencial pessoas como ela: em 2020, 73% das vítimas de feminicídio eram negras.

Mais do que isso: a imagem, o punho cerrado de Mônica logo após receber a vacina é um passo fundamental para a construção de novos olhares a respeito das afrodescendentes. Em razão do racismo que estrutura o país e molda a maneira de agir e de pensar dos brasileiros, não é a condição de protagonista que se espera de mulheres como essa torcedora apaixonada pelo Corinthians, muito pelo contrário. A expectativa é de que pessoas como a Mônica permaneçam no lugar do silêncio, da invisibilidade, da subalternidade, da pobreza e da miséria. Prova disso são os ataques racistas e ameaças que ela vem recebendo nas redes sociais desde domingo.

Quando saiu a notícia de que Jaqueline Goes de Jesus foi uma das responsáveis pela codificação do genoma da Covid-19, escrevi um texto dizendo que meu sonho era ver o rosto da biomédica negra e baiana estampado em todas as escolas para que crianças, jovens e adultos reconhecessem e valorizassem a importância das mulheres negras para o Brasil. Agora esse sonho se amplia: logo que as aulas presenciais retomarem, desejo ver o rosto e a biografia de Mônica Calazans em cada instituição de ensino desse país, pois a educação é um espaço privilegiado para a desconstrução dos estereótipos racistas que oprimem e roubam oportunidades das afro-brasileiras.

Em 2008, a ex-ministra Matilde Ribeiro escreveu: “As mulheres negras em seu processo político entenderam que não nasceram para perpetuar a imagem da “mãe preta”, fizeram desaforos. Entenderam que desigualdades são construídas historicamente, a partir de diferentes padrões de hierarquização constituídos pelas relações de gênero e raça, que, mediadas pela classe social, produzem profundas exclusões.” Desaforada e vacinada, Mônica lança luz a um tempo marcado pelo obscurantismo, traz alívio em meio a tanta angústia, ilumina a própria vida e impõe novas perspectivas a respeito das negras, mostrando que não estamos nesse mundo apenas para servir e limpar a sujeira dos outros.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. Atualmente tem se dedicado à Formação Inicial e Continuada de Professores. É autora do livro Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula, lançado em 2018 pela Mazza Edições.

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