Letícia Cesarino

Antropóloga, professora e pesquisadora na Universidade Federal de Santa Catarina. Autora de 'O Mundo do Avesso: Verdade e Política na Era Digital'

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A eleição de 2026 pode ser definida em tempo real

Já não basta governar bem durante quatro anos; é preciso fazer com que os efeitos do governo sejam percebidos no momento certo

A eleição de 2026 pode ser definida em tempo real
A eleição de 2026 pode ser definida em tempo real
Testes da urna eletrônica para as Eleições de 2026. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
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Eleições 2026

Num artigo pioneiro publicado em 2011, a pesquisadora de novas mídias Wendy Chun previu que, na medida em que nosso acesso aos fatos passasse a ser cada vez mais mediado pelos algoritmos das redes sociais e demais plataformas, a própria forma com que compreendemos a realidade mudaria.

Nesse novo mundo digitalizado, cravou ela, o real passa a ser “aquilo que acontece em tempo real”. E eis que, uma década e meia depois, nos vemos em meio a uma eleição presidencial que, ao que tudo indica, pode ser, de fato, decidida em tempo real.

O pleito de 2022 já havia demonstrado essa tendência. Foi como se o destino da democracia brasileira dependesse do desenlace de atos realizados no dia da eleição (como a ameaça de prisão do ministro Alexandre de Moraes ao comandante da Polícia Rodoviária Federal Silvinei Vasques) ou da decisão de uma pessoa (o “sim” de um segundo comandante das Forças Armadas ao plano golpista do bolsonarismo). Acompanhamos a política da mesma forma como assistimos a um filme ou série envolvente, à beira de um “plot twist” a qualquer momento.

Bolsonaro também tentou explorar eleitoralmente essa lógica do instante. Na reta final de seu governo, apostou numa sucessão de medidas de efeito imediato e custo futuro — como a redução do ICMS sobre combustíveis e o aumento do Auxílio Brasil — para produzir uma espécie de “tempestade perfeita” de otimismo econômico exatamente quando os eleitores fossem às urnas.

A estratégia fracassou. Mas deixou uma lição que nenhum candidato à reeleição pode ignorar: já não basta governar bem durante quatro anos; é preciso fazer com que os efeitos do governo sejam percebidos no momento certo. Esse é também um problema de memória. Os eleitores estão esquecendo muito rápido o que passou, pois suas mentes estão algoritmicamente sincronizadas com o tempo real.

É esse dilema que Lula enfrenta em 2026. Seu governo conseguiu implementar medidas pontuais e reformas estruturais importantes, da reforma tributária à isenção do Imposto de Renda para quem recebe até 5 mil reais por mês. Nada garante, contudo, que isso estará na mente do leitor quando ele for às urnas em 4 de outubro. E há uma diferença importante em relação a 2022. Já não se trata apenas de sincronizar ações de governo com o calendário eleitoral. Numa eleição que se anuncia acirrada, praticamente qualquer acontecimento de grande repercussão envolvendo seus principais personagens pode deslocar alguns pontos do eleitorado — e, com eles, mudar o destino do País.

A extrema-direita, que considero uma força política “nativa digital”, foi pioneira nessa gestão do clima político, manipulando os afetos privilegiados pela economia da atenção digital: medo, apreensão, indignação, sensacionalismo, fatalismo. Hoje, essa disposição de alerta permanente parece ter se espalhado pela esfera pública como um todo, fazendo com que o que deveria ser um debate eleitoral se resuma, por exemplo, à guerra de vazamentos em torno das investigações do Banco Master e outras, ainda em andamento.

A base técnica dessa tendência é a redução do intervalo de atenção das pessoas promovida pela hiperaceleração algorítmica, que bloqueia nossa capacidade para pensamento reflexivo e para a projeção de futuros de médio prazo. Como resultado, ficamos presos numa oscilação maníaca entre o eterno imediatismo do tempo real e o seu extremo oposto: um horizonte longínquo e semiopaco que se bifurca entre o apocalipse (o “Brasil destruído pelo PT e pela corrupção”) ou salvação messiânica (o “Brasil libertado pela direita”). Obviamente, nenhuma dessas posições extremas condiz com a realidade — o que nos leva à triste conclusão de que eleições estão sendo decididas, no mundo inteiro, com base em fantasias e simulações de realidade algoritmicamente mediadas.

Uma das consequências dessa aceleração artificial do tempo é a “névoa mental” sobre a qual escrevi em uma coluna anterior: nossa dificuldade crescente de acompanhar os acontecimentos com a profundidade necessária para compreendê-los, relacioná-los entre si e tomar decisões minimamente embasadas.

Nesse sentido, a verdadeira ameaça de longo prazo à democracia é menos essa ou aquela força política do que a deformação que as plataformas projetam no modo como compreendemos a realidade. É uma irônica redundância afirmar que não teremos tempo suficiente para mudar isso antes do dia 4 de outubro. Mas, conquistado um novo mandato para o centro democrático junto com o presidente Lula, esta será uma reforma que precisamos empreender. Antes que seja, aí sim, tarde demais.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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