A derrota de Bolsonaro em 2022 será o dia mais feliz das nossas vidas

As escolhas que se colocarão para a população brasileira nas próximas eleições são profundas

O presidente da República, Jair Bolsonaro. Foto: Evaristo Sá/AFP

O presidente da República, Jair Bolsonaro. Foto: Evaristo Sá/AFP

Opinião

“A terra, o ar e o sol pertencem a todos nós; e eles não podem ser tornados objetos de propriedade.”
Leon Tolstoi.

As escolhas que se colocarão para a população brasileira nas próximas eleições são profundas. Queremos uma sociedade que reconheça a humanidade de todas e todos? Que lhes protejam, promovam e provejam os direitos mais básicos, como o direito à alimentação, ao trabalho, à saúde e à educação?

Vale notar que uma sociedade assim é geradora não apenas de emprego, mas também de renda, na medida em que aumentando o poder aquisitivo, crescem a comercialização, a produção e a renda dos trabalhadores e das trabalhadoras – e até dos patrões e patroas.

Fácil não será. Basta ver que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) decidiu que a estratégia de ponta será a ideológica: tentar ganhar corações e mentes para o capital imperialista. Para uma organização militar tão poderosa, não é pouco render-se à evidência de que as ideias são mais potentes do que as armas – inclusive as nucleares; pode não ser ainda a vitória da vida sobre a morte, mas é prova de que as disputas geopolíticas são culturais, políticas em primeiro lugar.

 

 

Os perdedores reagem: no Brasil, com ataques ao Papa, à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e ao Bispo do Santuário Nacional de Aparecida, Dom Orlando Brandes, dentre outros alvos democráticos.

Na Noruega, atentado à população civil; assim como no Reino Unido, contra um parlamentar; na Itália, na invasão da principal central sindical do país – a CGIL, por fascistas. Aliás, a história italiana ensina que, ameaçada, a extrema-direita reage com atentados, a maioria deles, mortais.

Em O que é revolução?, Florestan Fernandes nos recorda: “A época das revoluções burguesas já passou; os países capitalistas da periferia assistem a uma falsa repetição da história: as revoluções burguesas em atraso constituem processos estritamente estruturais, alimentados pela energia dos países capitalistas centrais e pelo egoísmo autodefensivo das burguesias periféricas…O que se configurava como um processo que iria dos países centrais para a periferia de fato caminhará da periferia para o centro! Por isso, as burguesias dos países centrais se organizam como verdadeiras bastilhas e promovem seu ‘pluralismo democrático’ ou seu ‘socialismo democrático’ como se fossem equivalentes políticos do socialismo revolucionário e do comunismo.”

Em A caminhada da Igreja do Evangelho, artigo de Sebastião Donizete de Carvalho, em Dom Tomás Balduino, mestre solitário da vida (Editora Paulinas), somos recordados da bela citação de Clarice Lispector: ” Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade.”

A conscientização é o que importa. Sabermos quem somos, quem nos aprisiona, o que é a liberdade e como consegui-la.

No mesmo volume, Nancy Cardoso Pereira, no artigo Os pobres possuirão a terra, confirmou Dom Tomás!, lembra-nos: “Entre 1872 e 1876, no Rio Grande do Sul, um grupo de colonos descendentes de alemães, insatisfeitos com o crescente processo de concentração da propriedade da terra e a espoliação dos comerciantes da região, liderados por Jacobina Mentez Maurer…e inspirados na Bíblia, forma uma comunidade fechada em Sapiranga…”. A autora cita Janaína Amado, em Conflito Social no Brasil: a revolta dos Mucker: “…a rebeldia e até seu revolucionarismo deveram-se às modificações estruturais, econômicas e sociais por que passavam as colônias alemãs depois do término da Guerra do Paraguai, quando transitaram de uma comunidade igualitária para outra assentada na diferenciação de classes.”

Ou seja, a Guerra do Paraguai, travada por Brasil, Argentina e Uruguai, a mando dos interesses imperialistas ingleses, contra o Paraguai, não apenas esmagou o processo de industrialização paraguaio – e ocasionou o maior genocídio das Américas – mas também determinou a sociedade de classes às colônias do Sul do Brasil.

Com efeito, observou Nancy Pereira: “Os mucker aboliram a propriedade privada, implantando a autogestão econômica. Não circulava dinheiro entre eles e o trabalho era realizado de forma associativa, com refeições em comum. Redefiniram as regras do convívio social. Os casamentos foram desfeitos e re-feitos sob a benção de Jacobina, tendo ela mesma trocado de marido, sendo acusada, na época, de defensora do amor-livre e contra a família.”

Para os impérios, sempre, o amor deve ser cativo, amarrado, privado, como a propriedade – privada.

Nos Cadernos do Cárcere, de número 27, Antonio Gramsci reflete: “É verdade que existe uma ‘moral do povo’, entendida como um conjunto determinado (no tempo e no espaço) de máximas para a conduta prática e de costumes que deles derivam ou geraram, moral que está estreitamente ligada, como a superstição, às crenças reais religiosas: existem imperativos que são muito mais fortes, tenazes e efetivos do que os da ‘moral’ oficial”.

Mais uma vez, como não concordar com Clarice Lispector, em Aprendendo a viver: “Ah, o que desconheço me ultrapassa. A verdade ultrapassa-me com tanta paciência e doçura.”

Que a verdade se adiante e nos permita prelibar o que, provavelmente, será o dia mais feliz de nossas vidas: a derrota da morte, do genocídio, da fome, da extrema-direita e do cativeiro, nas eleições de 2022.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

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