A democracia vencerá a oligarquia

Foto: Sergio Lima / AFP

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Opinião

“As pessoas acreditam erradamente que a virtude reside no conhecimento de muitas coisas. O importante não é a quantidade mas a qualidade do conhecimento.”
Leon Tolstoi.

A agência de notícias do Vaticano, Vatican News, noticiou, no boletim dela, do dia 12 de junho, que a Caritas, agência de cooperação da Igreja Católica, solicitou ao G-7, o grupo das sete maiores economias do mundo, o perdão da dívida dos países africanos.

Para embasar o pedido, exemplificou que Zâmbia, atualmente, devota 45% do orçamento anual para o pagamento da dívida com instituições privadas. No total da África, o valor dos desembolsos anuais, de 23,4 bilhões, supera, em três vezes, os recursos necessários para a compra de vacinas contra a Covid, para todos os habitantes do continente.

Na Ásia, segue o drama em Mianmar: em apenas duas semanas, seis templos católicos foram alvo dos militares golpistas, com saldo de mortos e feridos – inclusive mulheres e crianças, os quais buscavam refúgio contra as investidas dos militares em suas comunidades.

Por outro lado, basta ver as fotos da recente reunião do G-7, no Reino Unido, para entender que a tensão mais importante no âmbito internacional – e nacional, há pelo menos cinco séculos, continua sendo entre oligarquia (governo de poucas pessoas) e democracia (governo do povo).

A queda do Brasil nas mãos da oligarquia internacional e nacional, em 2016, em muito contribuiu para a “restauração” do desgoverno das oligarquias, em ambos os âmbitos.

Nesse sentido, os dramas africanos e asiático antes citados não são alheios à rendição brasileira, cuja política externa anterior ao golpe tinha sentido multipolar, sendo mais visível na atuação dos BRICS, mas que, por meio de vários mecanismos políticos e de cooperação, também incentivava a unidade dos países do Sul, na busca de sua emancipação política, socioeconômica e ambiental descentralizada.

Recentemente, o principal candidato à presidência, o ex-presidente Lula, reforçou a importância de se compreender, difundir e popularizar o conceito de soberania, para que o país possa reencontrar seu lugar e missão no mundo.

Em Paulo Freire – Vida e Obra, volume organizado por Ana Inês Souza, editado pela Expressão Popular, encontramos a seguinte definição do centenário educador, que disseca a principal forma de manipulação dos oligarcas para atingir o objetivo de dominação da minoria sobre a maioria: “A invasão cultural, que implica no desrespeito às visões de mundo do povo, é massificadora, alienadora, nela, os invasores colocam-se como sujeitos e os invadidos como objetos. A invasão cultural tem uma dupla face: De um lado, é já dominação; de outro, é tática de dominação.”

Com efeito, a manipulação cultural – e religiosa – representa a principal arma de domínio político, tanto em âmbito nacional, quanto internacional.

Não é à toa que os seguidores do genocida, nos momentos de maior delírio, chamam-no: mito. Segundo o Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, de Antônio Geraldo da Cunha, o termo origina-se de mythus, do baixo latim, que, por sua vez, deriva do grego mythos, indicativo de “fábula”.

O falso ídolo é equiparado, dessa maneira, ao sobre-humano e seus seguidores, a membros de uma seita, o que de fato são, mesmo em face de um genocídio consumado.

Na verdade, o “mito”, do assassino, deriva de “palmito”, pois originário do Vale do Ribeira, região produtora de excelentes palmitos e de bons, mas também alguns péssimos políticos, como é o caso em apreço.

No âmbito internacional, a perda do aliado israelense, igualmente genocida, Bibi Netanyahu, destituído do poder após uma década e meia de assassinatos em massa de árabes, trará mais um enfraquecimento para o homem das canelas finas, o “palmito”, que em muito manipulara aquela aliança, apresentando-se como um novo messias, onomástico, também enganoso, que traz no próprio nome.

A reflexão estimulada por Lula sobre o significado e a importância de “soberania” podem levar à independência nacional de uma mentalidade colonizada. A propósito, recorda Paulo Freire naquela obra: “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.”

Naquele mesmo volume, Giselle Moura Schnorr, ao analisar o livro Pedagogia do Oprimido, aduz: “Não há conhecimento, nem cultura verdadeira, desprovidos de significação; a compreensão da realidade não é uma relação mecânica entre signo-coisa. É a interação sujeito-realidade-sujeito que estabelece significados para e no mundo, para e na existência humana, em sua dimensão concreta: política, cultural, econômica.”

A referida pedagoga recorda ainda: “A ação dialógica é ação-reflexão, ou seja, é práxis libertadora.” Só o diálogo liberta, diz também o Papa Francisco.

Com efeito, esse refletir junto deverá ser o objetivo a ser atingido para a emancipação popular, no Brasil e no mundo, para uma nova ordem democrática, pois como recorda o patrono da educação: “A existência humana não pode ser muda, silenciosa, nem tampouco pode nutrir-se de falsas palavras, mas de palavras verdadeiras, com que os homens transformam o mundo. Existir, humanamente, é pronunciar o mundo, é modifica-lo. O mundo pronunciado, por sua vez, se volta problematizado aos sujeitos pronunciantes, a exigir deles novo pronunciar. Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, na ação-reflexão.”

Desta sorte, vencerá a democracia sobre a oligarquia, no Brasil e no mundo.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

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