A culpa pelas 300 mil mortes deve ser dividida equitativamente

'Das confusões criadas pelo governo inepto surgem as razões do fracasso no combate à Covid. Mas há outras', escreve Mino Carta

O presidente Jair Bolsonaro ergue uma embalagem de cloroquina a apoiadores, no Rio Grande do Sul. Foto: Reprodução/Facebook

O presidente Jair Bolsonaro ergue uma embalagem de cloroquina a apoiadores, no Rio Grande do Sul. Foto: Reprodução/Facebook

Opinião

Tenho observado, de um mês para cá, que os jornais do vídeo de várias emissoras estrangeiras abrem seus noticiários com as últimas informações sobre o número de mortos ceifados pela pandemia no Brasil. Trata-se do contristador registro em relação ao primado brasileiro neste doloroso item. Há culpas em cartório facilmente detectáveis, devidas ao clima de incerteza gerado por um governo desvairado e incompetente.

 

A ignorância do povo tem seu papel neste cenário, bem como o fato de que a saúde, assim como a educação, é da alçada praticamente única da minoria rica

 

Não se trata de buscar afanosamente um culpado ou mais de um. Esta culpa há de ser dividida equitativamente. O Brasil de Bolsonaro e do bolsonarismo não é um fenômeno isolado e de alguma forma surpreendente. É, infelizmente, um resumo de tudo que aconteceu neste país desde o advento da Lava Jato. Nestes dias, encerra-se um longo capítulo consagrado à mudança pela decisão do Supremo Tribunal Federal ao reconhecer a inocência de Lula e condenar sumariamente o verdadeiro deus ex machina dos eventos desta derradeira quadra da nossa história.

 

 

Aí está, contudo, o nó deste enredo. É desses tempos já idos uma quantidade de erros e equívocos sem conta e o resultado chama-se Jair Bolsonaro. Trata-se, transparentemente, para quem goza de vista e de cabeça boas, da desgraça representada pela eleição de um facínora à beira da demência. E dos efeitos das confusões criadas pelo governo inepto surgem as razões do fracasso no combate à Covid. Mas há outras. Devem-se às próprias condições de um dos países mais desiguais do mundo.

A ignorância do povo tem seu papel neste cenário, bem como o fato de que a saúde, assim como a educação, é da alçada praticamente única da minoria rica. Sem contar o tamanho do país-continente e toda a dificuldade de levantamentos capilares e corretos. Nada garante que os falecidos no dia a dia sejam realmente 300 mil. São muitos, em demasia, como os nossos quilômetros quadrados.

 

 

 

Somos o que somos no país da casa-grande e da senzala, ainda de pé e inexoravelmente medievais. Pagamos pelos nossos próprios enganos, quando não pela natural tibieza de um povo incapaz de entender os vexames sofridos, a injustiça reinante, a desigualdade feroz. Um povo que não se dá conta da sua miserável condição, não menos do que se expõe ao risco de trafegar pelas calçadas de mochila às costas. Trezentos mil é um número imponente, mas desde já cabe a dúvida de quem supõe algo ainda maior.

 

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