A cristologia cristofascista de Jair Bolsonaro

Vem ocorrendo no governo mais uma forma de profanação política de Jesus Cristo em prol do status quo neoliberal governista

Fernando Frazão/Agência Brasil

Fernando Frazão/Agência Brasil

Opinião

Cristo, o Ser:

eis o embate do Reicht

(Dotrothee Sölle)

 

O inferno é, assim, (produzido ou não) o lugar onde

o governo do mundo sobrevive para sempre,

ainda que de forma puramente penitenciária

(Giorgio Agamben)

Desde as manifestações de 15 de março, os setores bolsonaristas e o próprio Bolsonaro vêm forçando a associação da figura do presidente com qualidades que o associam à figura do Cristo, apresentando-o como messias, ungido e eleito da nação. Esse novo jogo promovido pelas lideranças religiosas e da base política do governo é mais um apelo a fim de reagrupar as forças com a intenção de legitimar as medidas ultraliberais e amortecer sua impopularidade. A apresentação de Bolsonaro com características cristológicas (de Cristo) dá um novo fôlego ao cristofascismo à Brasileira, sendo uma forma mais refinada de sensibilizar setores religiosos, que mesmo em tão pouco tempo vinham já se descolando do governo.

Características cristológicas na figura de Bolsonaro pós-15M

Impressiona como a luta política no Brasil vem ganhando outros enredos e espíritos. Atenta-se que tão logo que ocorriam as manifestações de 15 de março as propagandas em prol do governo se intensificaram na arena em que demonstra mais força: as redes sociais. Em primeiro lugar no Whatsapp. Na chuva de publicações, comumente chamadas de memes, divulgadas pelo aplicativo, selecionei duas peças para exemplificar o esforço em associar a imagem de Bolsonaro a um caráter messiânico. Na primeira figura, o apelo não poderia ser mais explícito: “Ele encarou a Globo, a Folha de São Paulo, Reitores Esquerdistas, a Classe Artística privilegiada. Ele encarou o sistema e não ficara sozinho”.

Na segunda peça, vemos a sugestiva imagem de um cavaleiro templário segurando a bandeira brasileira. Os dizeres são igualmente diretos: “Vamos salvar o Brasil. Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”.

As duas figuras passam a ideia de um Bolsonaro que bravamente luta pela nação contra seus inimigos textualmente enumerados: a classe artística, a Globo e os universitários. A ideia de salvação abre a segunda montagem, na qual o cavaleiro medieval reforça o caráter caricatural. Em conjunto, os memes representam um caso típico de messianismo político travestido de linguagem religiosa-salvacionista.

Além dos memes, nas redes sociais o próprio presidente (ou sua assessoria) postou, publicado no dia posterior às manifestações de 15 de março, o vídeo do pastor Steven Kunda (congolês radicado na França). No vídeo, o pastor confirma Bolsonaro como enviado divino escolhido para guiar o Brasil: “Aceitando ou não, você, seja de esquerda ou de direita, o senhor Jair Bolsonaro é o Ciro do Brasil. Deus o escolheu para um novo tempo, para uma nova temporada no Brasil”, profere o congolês. Para quem não entendeu a referência, o pastor compara Bolsonaro a Ciro, importante rei persa usado por Deus retirar o povo de Deus do exílio, segundo os textos bíblicos. É interessante, pois, os manuais de teologia clássica apontam que Ciro foi “ungido” por Deus. Teologicamente, unção recebe a conotação de “escolha”, alguém “separado para algo”. Destaco que o termo dado a Ciro, como “ungido por Deus”, no Novo Testamento se traduz como “Cristo”, logo outra aproximação messiânica e ligada a Cristo de Bolsonaro.

As ações de Bolsonaro para construir a imagem salvacionista não se limitaram às redes sociais. No domingo dia 26, dez dias após as primeiras manifestações, o presidente esteve no Rio de janeiro, para participar do culto da Igreja Batista Atitude na Barra da Tijuca. Na ocasião, o pastor Josué Valandro chamou (novamente) Bolsonaro para subir ao púlpito com sua mulher. Após a oração, cedeu o microfone. Suas palavras foram emblemáticas: “é bom estar no meio de gente que tem Deus no coração”, afirmou no início do discurso. Contou as dificuldades em colocar em prática o que prometera na campanha, indicando sua “via dolorosa”. Assim, ao indicar tais dificuldades, um martírio que vem passando se liga a imagem do próprio Jesus torturado, injustiçado, reforçando ideia de sacrifício e sofrimento, que, aliás, é algo que já vem desenvolvendo desde o atentado à faca. Nesse sentido, seu discurso avança aos presentes na igreja. Diz na sequência: “que eu não agradeça a Deus pela minha vida. Nos momentos mais difíceis, por mais que eu ame a minha esposa, eu não queria deixar minha filha órfã. Se estou aqui é porque eu acredito nessa nação, se os Senhores estão aqui é porque acreditam em Deus. Juntos e somente com a força de vocês, nós poderemos governar”.

Como se vê em sua mensagem, a todo o momento apela à fé, à força da família, à defesa do projeto em nome da nação. Amplifica seu discurso divino, fabrica sua particular “guerra dos deuses”, terminando da seguinte forma o discurso na igreja: “Meus Irmãos da Igreja Atitude, Brasileiros de todos os rincões dessa nação maravilhosa, vamos juntos, tendo Deus no coração, colocar o Brasil no local de destaque que ele merece.”

Malafaia

Além do próprio Bolsonaro, a imagem messiânica do governo foi reforçada por apoiadores religiosos. O pastor Silas Malafaia gravou um vídeo, dizendo que a eleição do Bolsonaro foi um milagre e ele é um “ungido de Deus para essa nação, e preparando o povo para um ‘momento drástico’ para que a ‘igreja triunfe’. No vídeo, o pastor indica que Bolsonaro governa por interferência de Deus, e quem está contra está condenado ao inferno. Chega ao ponto de argumentar que viriam de Satanás todas as críticas e contestação ao seu “escolhido”. É mais uma imagem que remonta a Cristo, o ungido, nesse caso, Bolsonaro o presidente “ungido” que vem sendo injustiçado por todos, pelo diabo.

Cristofascismo à Brasileira

Esse conjunto de imagens cristológicas sobre a figura política de Bolsonaro, que ora se identifica com messias político religioso, ora com um servo sofredor que governa no calvário, reforça seu projeto cristofascista brasileiro. Seu cristofascismo promove-se por meio de uma teologia política que se pauta supostamente na democracia, mas que, ao mesmo tempo, baseia-se no ódio democrático e com clara disposição autoritária, na qual, uma das técnicas de sua governança é promover o terror no caldeirão de posturas de discriminação, ódio, preconceito, racismo ante aos setores “heterodoxos”. Nessa equação, são utilizados discursos que aludem ao cristianismo numa investida contra seus inimigos: professores, militantes de esquerda, indígenas e LGBTQI.

É verdade que o cristofascismo não é um termo novo. Foi utilizado pela teóloga alemã Dotrothee Sölle, em 1970. Com ele, Sölle indica o projeto cristofascista seria “traição aos pobres, uma arma milagrosa a serviço dos poderosos (…) a serviço das famílias tradicionais do centro-europa preocupadas com a paz sem a paz incômoda Cristo (…). Quando projetam politicas truculentas de ódio e discriminação em nome de uma pretensa igreja cristã”. Analisando as relações de integrantes do partido nazi com as igrejas cristãs no desenvolvimento do estado de exceção alemão, Sölle percebeu que o governo nazista se utilizou das relações e até das terminologias cristãs para sua composição, assim como se reconhece tal mecanismo relacional no governo Bolsonaro.

Além disso, ao destacar conceitualmente o cristofascismo é preciso indicar o que se está chamando de fascismo. Fixo o conceito a partir do filósofo Walter Benjamin, o qual entende que a barbárie fascista não é um estágio de regressão civilizacional, mas está contida nas próprias condições de reprodução da civilização burguesa se beneficiando “da circunstância de que seus adversários o enfrentam em nome do progresso, da moral, da família considerado como uma norma histórica”, transformando todo nacional em um “estado de exceção efetivo”. Assim, em seu projeto autoritário, o governo Bolsonaro se projeta a partir da defesa de uma concepção conservadora da família, da moral e da eliminação de seus adversários a partir do estado de exceção continuo.

Cristologia cristofascista contorcida em meio à guerra dos deuses…

Nesse sentido, nesse novo jogo promovido pelas lideranças religiosas e da base politica do governo se a faz opção de blindar o presidente cristofascista Bolsonaro por meio de uma cristologia profana apresentando-o como messias, ungido e eleito da nação. É mais um apelo a fim de reagrupar as forças para manter a duras chicoteadas a implementação de medidas ultraliberais recheadas com ódio, discriminação e racismo. Assim, a apresentação com características cristológicas dá um novo folego ao cristofascismo à brasileira, sendo uma forma mais refinada de sensibilizar setores religiosos, que mesmo em tão pouco tempo vinham já se descolando do governo, bem como também, afinar-se na direção das massas que nunca foram tão próximas no apoio.

Finalmente, não gostaria de esquecer o conceito de Michael Löwy quando indica que a estilização do poder no interior da vida política passa pela “guerra dos deuses”. Ou seja, a política possibilita também um conjunto conflitos logo a produção especializada de teologias. Portanto, um marco temporal é fundamental: a partir do dia 15 de março os setores bolsonaristas, e o próprio Bolsonaro, vêm forçando novamente uma série de aproximações e de plataformas para atrair novamente sua base eleitoral. O que se está vendo é uma nova modulação da “guerra dos deuses” que vem pintado a figura de Bolsonaro pública/política com características que passam por Jesus Cristo, martirizado e morto pelo império Romano. Portanto, afirma-se que vem ocorrendo no governo Bolsonaro mais uma forma de profanação política de Jesus Cristo em prol do status quo neoliberal governista.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É doutor em teologia pela PUC-RIO e professor do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF.

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