Diversidade

A coragem e gargalhada de minha mãe me trazem saudades

Estendo minha homenagem às mães Yanomami – e não só elas – que neste momento choram a perda de uma filha ou um filho brutalmente violentada e violentado.

Camila Silva e sua mãe, Marlene Ferreira da Silva.
Camila Silva e sua mãe, Marlene Ferreira da Silva.
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Outro dia eu estava na dúvida sobre tomar um determinado banho de folhas com uma erva de Oxalá. Do outro lado da linha me veio uma recomendação de um amigo. “Olha, talvez fosse melhor você não tomar, vai te acalmar até demais. Esse banho é bom para quem é muito agitado. E você definitivamente não é agitada, né, Camila?”.

Aquilo me soou tão estranho e tão distante do que eu realmente sou. Não porque a pessoa estivesse errada. Mas porque ela conhece uma parcela crua, fake demais, criada por mim para o mundo que transparece isso. 

A Camila que eu conheço não dorme porque tem pensamentos a mil, ela gosta de pular sem parar na sala, na calçada, no mercado. Livre. Pula estrelinhas na praia. Fala pelos cotovelos, aos montes e alto. Atropela. Brinca. De calma não tem nada. Ou pelo menos não tinha…

Essa mesma Camila que se permite falar de si na terceira pessoa anda estranha…

É porque estou contida. 

E essa agitação por dentro contida mata.

Mata a minha verdade.

Tudo começou quando eu era bem pequenininha e falava muito alto. Todo mundo falava alto na família – tirando meu pai – mas a culpada do barulho era sempre eu. E comecei a falar baixinho.

Minha mãe, Marlene Ferreira da Silva, era uma das poucas que não me polia, embora não soubesse bem como me defender quando eu atingia um decibéis mais altos em meio a conversa dos adultos. Ela me entendia… 

Ela tinha uma gargalhada ao mesmo tempo encantadora e assustadora. Era sua marca registrada. Um misto de pombagira com outra pombagira que gargalhava mais alto ainda.

Aquele riso era o que a identificava, o que era esperado dela, que nos aproximava. E era também a característica da qual sentíamos mais vergonha, só perdia para quando ela brigava ou falava mil palavrões. 

Como pode aquela característica da qual mais nos orgulhávamos nela porque era seu momento em êxtase, ser motivo de vergonha, espaço para incorporamos Judas, ou melhor, João e darmos as costas para o nosso DNA?

Marlene Ferreira da Silva, mãe de Camila Silva.

Pois bem, crescemos e as heranças foram aparecendo e aquilo que mais chamava a atenção nela em inúmeros momentos vi em mim. Não era mais uma pombagira mas uma cantora de ópera que gostava de chamar atenção para a sua felicidade. E eu lembro muito desses momentos porque a memória da felicidade não se esquece e faz falta. Embora nos apeguemos à memória que a tristeza traz. Talvez, por isso, eu lembre ainda mais dos momentos em que essa felicidade virou motivo de graça, de chacota e de poda.

Talvez, se eu tivesse aprendido que falar baixinho era pra tudo… 

Tem uma técnica que muita gente usa pra mudar padrões de comportamento principalmente econômicos e alimentícios. Consiste em andar com um elástico no pulso e ao menor sinal de vontade de comprar impulsivamente você se dispara o elástico como um estilingue e associa a vontade de comprar a dor. Ao menor sinal de gula, o mesmo: você se “estilinga”, se machuca, se pune.

E foi justamente isso que o mundo começou a fazer comigo.

Ao menor sinal de expansão, alegria, gargalhada ou celebração vinha uma reação negativa diferente. Até mesmo aquele riso provocado pela minha risada do meu jeito de celebrar a vida, de pensar comigo, de estar, de ocupar os espaços, passava a ser uma ação que me tolia. 

Na época, obviamente eu senti, mas não nomeei e não nomear fez com que eu demorasse tempo demais pra entender que a minha mãe foi uma mulher muito mais livre que eu ou por muito muito mais tempo. Ou, quem sabe, ela passou por tudo isso que eu to passando agora e se libertou antes que a nossa vergonha dela – que vinha de um lugar que não era nosso, a oprimisse.

Há muitas formas da gente se cuidar nessa vida. E eu gostaria que ela estivesse presente nesse momento de autocuidado meu pra eu entender o que foi cura ou, até mesmo, proteção pra ela.

A minha cura nesse mundo louco que faz com que crianças se envergonhem dos sinais de felicidade de sua própria mãe… Esse mundo que pinta que mulher de verdade e respeitada tem que seguir um padrão europeu de pele clara, recatada e do lar é olhar pra dentro, me ouvir, estranhar o que não é bom, não encarar amadurecimento como embrutecimento e me apegar a tudo o que se manifesta como uma presença dessa mulher forte em minha vida.

Hoje, aposto na conexão com os orixás, me fio no arquétipo psicológico de divindades revolucionárias como minhas mães, pra vento, pra rio, pra entender que os rompantes de felicidade, raiva ou tristeza são características de quem vive e é humano. Também entoo alguns mantras. Ao acordar, por exemplo, chamo pela criança que sou para caminhar e pular comigo.

Que sejamos sempre crianças que – sem aprender que apenas ser é errado – sigamos apenas sendo, sem tirar nem por. 

E que eu nunca esqueça a coragem, a fibra e a gargalhada da minha mãe. Ela vive em mim.

Camila Silva

Camila Silva
negra, ativista, filha de Oxum e Oyá, jornalista, escritora e cineasta cujo foco principal é a inovação e a equidade nos meios de comunicação e mídias digitais. Escrevo sempre movida por um certo amor e um certo ódio.

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