Paulo Nogueira Batista Jr.

paulonogueira@cartacapital.com.br

Economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, e diretor-executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países

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A China não improvisa

Ela segue estratégias consistentes e sabe jogar parada, quando convém, aproveitando os erros dos adversários

A China não improvisa
A China não improvisa
A China produz a maioria dos paineis solares do mundo atualmente – foto: CN-STR/AFP
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“Subjugar o inimigo sem lutar é o acme da habilidade” (Sun Tzu, em A Arte da Guerra)

Tomo a visita de dez dias que fiz a Shanghai como ponto de partida para este artigo. Acabei de chegar e ainda luto com o fuso horário (a viagem de volta foi de 39 horas porta a porta). Assim, o artigo será talvez ainda mais incoerente do que de costume. Mas, enfim, vamos lá.

A China está em pleno processo de redefinição das suas relações com o resto do mundo, com o Ocidente em particular. Nas primeiras três ou quatro décadas do período de reforma e abertura econômica iniciado por Deng Xiaoping em 1979, a China buscava uma “ascensão pacífica” no interior do quadro internacional estabelecido sob a égide dos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial. E foi, inicialmente, muito bem-sucedida nesse propósito. Evitava sistematicamente confrontações com os Estados Unidos e outros países, posicionando-se com prudência e paciência estratégicas. Deng adotava como lema uma máxima chinesa clássica: “Esconda a força, espere a hora”.

Não obstante, os Estados Unidos preferiram partir para uma política de contenção e confrontação, sobretudo no primeiro mandato de Donald Trump, de 2017 a 2020, continuando com Joe ­Biden, de 2021 a 2024, e se intensificando de modo dramático no segundo mandato de Trump, desde o ano passado. Formou-se um sólido consenso bipartidário de que a China precisa ser freada. Os Estados Unidos passaram a ver o país como rival e principal ameaça, adotando de caso pensado uma série de medidas desenhadas para solapar a China nas áreas comercial, tecnológica, militar e diplomática,

Desde o primeiro governo Trump pelo menos, e provavelmente antes disso, a China reconheceu que a estratégia de “esconder a força e esperar a hora” não era mais viável. A China tornara-se grande demais, chegando a ultrapassar os Estados Unidos em termos econômicos e comerciais. O rápido desenvolvimento despertou invejas e suspeitas. O país passou a ser alvo de intrigas, manobras diplomáticas e agressões.

Mas a China não abandonou a sua cautela estratégica. Continuou evitando conflitos sempre que possível. Prevalece o cuidado com as palavras e ações, mesmo quando o país está sob ataque ou enfrenta hostilidade sistemática. Em meio às turbulências, os chineses mantêm o seu estilo tradicional de lidar com desafios estratégicos que Henry Kissinger, em seu célebre livro Sobre a China, descreveu como uma combinação de análise minuciosa, preparação detalhada e atenção a fatores psicológicos e políticos.

Assim, como logo ficaria evidente, a China estava bem posicionada para enfrentar a tempestade desencadeada pelo governo Trump no seu segundo mandato. Trump veio com tudo, recorrendo de maneira mais radical aos instrumentos já usados contra Pequim no seu primeiro mandato. Encontrou, contudo, um adversário mais disposto a brigar e mais capaz de enfrentar embates internacionais. Sob Xi Jinping, a China aparece como um adversário que sabe se defender com grande eficácia e, mais que isso, conhece as vulnerabilidades da superpotência e dos seus aliados e satélites. Não só conhece, como está disposta a explorá-las toda vez que sofre alguma investida dos Estados Unidos ou de outros países.

A ninguém escapa que a China vem levando a melhor nessa confrontação com os Estados Unidos. E isso não apenas pelas suas qualidades e pontos fortes, mas por causa dos erros do adversário. Os EUA, superestimando a própria força, abriram ao mesmo tempo frentes de conflito com a Rússia, a China e o Irã. Promoveram assim o estreitamento da aliança entre os três países. E, pior, estão perdendo nas três frentes.

A China não só segue estratégias consistentes, como sabe manobrar taticamente. Joga parada, quando conveniente, aproveitando os erros dos adversários. Os chineses seguem a máxima atribuída a Napoleão Bonaparte: “Nunca interrompa um adversário quando ele estiver cometendo um erro”. Não existe, ao que parece, evidência confiável de que Napoleão realmente disse ou escreveu isso, mas essa máxima ocidental, apócrifa, é inteiramente consistente com o pensamento militar clássico chinês, tal como expresso notadamente por Sun Tzu em A Arte da Guerra, inclusive, por exemplo, na frase que aparece em epígrafe.

A China muda, evolui, se adapta aos desafios que vão aparecendo, mas preserva ao mesmo tempo suas tradições filosóficas e sua cultura milenar. Não descarta Confúcio nem Mao Tsé-Tung. Não se apega irrefletidamente ao passado, mas também não abandona suas raízes.

A sua ascensão, não mais pacífica, crescentemente conflitiva, deve continuar sem interrupção. •

Publicado na edição n° 1419 de CartaCapital, em 30 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A China não improvisa’

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