Paulo Gala

Professor de Economia da FGV-SP, foi economista, gestor de fundos e CEO em instituições do mercado financeiro. É autor, entre outros, de Brasil, uma Economia que Não Aprende

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A Arábia Saudita do H2V?

O hidrogênio verde só cumprirá sua promessa transformadora se o Nordeste subir a escada de valor em vez de estacionar no primeiro degrau

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O Nordeste vive um momento raro de convergência entre geografia, capital e política pública. Os ventos alísios que varrem o litoral do Rio Grande do Norte ao Piauí, somados à irradiação solar do semiárido, dão à região o menor custo de eletricidade renovável do planeta, a matéria-prima do hidrogênio verde. Não à toa, a Bloomberg projeta o Brasil, e o Ceará em particular, como potencial de ser a “Arábia Saudita do H2V”. A comparação é sedutora, mas, para quem estuda complexidade econômica, ela carrega um aviso.

Comecemos pelos números que dão musculatura à aposta. O Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) chega a 2026 com orçamento recorde de 52,6 bilhões de reais, alta de 11,1% sobre 2025 e o maior da história do fundo, com a Bahia liderando a distribuição (11,09 bilhões), seguida por ­Ceará (7,01 bilhões) e Pernambuco (6,27 bilhões). Mais relevante do que o volume é a direção. Em maio, o ­Condel/Sudene­ incluiu as dutovias no FNE Proinfra,­ abrindo uma linha de 6,2 bilhões de reais, 12% do total, para gasodutos e redes de hidrogênio, com carência de quatro a oito anos e prazos de até 34 anos. Pela primeira vez, o Banco do Nordeste passa a financiar o escoamento físico da nova energia, exatamente o gargalo apontado como decisivo. Segundo a Bloomberg, para distâncias acima de 100 quilômetros, o duto é a única solução economicamente viável de escoamento.

O timing não é coincidência. Sete projetos industriais somando cerca de 63 bilhões de reais miram sua decisão final de investimento (FID) em 2026, os primeiros FIDs brasileiros de eletrólise em escala industrial. O epicentro é o Complexo do Pecém, no Ceará, onde sete gigantes acumulam 66 bilhões de reais em intenções. A Casa dos Ventos, hoje com a ­TotalEnergies como sócia, larga na frente: 1,2 gigawatt de eletrólise, até 900 mil toneladas anuais de amônia verde, 5 bilhões de dólares e comprador já contratado na Europa – o detalhe que separa um projeto real de uma carta de intenções. Suape, com o metanol verde da European Energy destinado à navegação, e o porto do Açu completam o arco de hubs concebidos, sobretudo, para a exportação.

Aqui entra a leitura de complexidade. A metáfora da “Arábia Saudita” é reveladora justamente pelo que esconde. O reino é o arquétipo da economia rentista de baixa complexidade: exporta um recurso bruto de imenso valor e, ainda assim, ocupa posição modesta no ranking de sofisticação produtiva, refém do preço internacional de uma única ­commodity. Repetir esse modelo, trocar barris de petróleo por navios de amônia verde, seria vencer a batalha da energia e perder a guerra do desenvolvimento.

O hidrogênio verde só cumprirá sua promessa transformadora se o Nordeste subir a escada de valor em vez de estacionar no primeiro degrau. Exportar amônia é o degrau baixo. Os degraus altos estão na fabricação de eletrolisadores, na engenharia de plantas, nos fertilizantes verdes, no aço e no combustível de navegação descarbonizados, atividades que exigem capacidades produtivas conectadas, geram encadeamentos e adensam o tecido industrial. É a diferença entre vender vento embalado em molécula e construir uma indústria que aprende. Foi assim que Coreia e Taiwan escaparam da estagnação latino-americana: não pela dádiva de recursos, mas pela decisão deliberada de acumular capacidades produtivas cada vez mais sofisticadas.

O desenho institucional atual ainda pende para o modelo exportador. A ZPE do Pecém, as isenções de ICMS até 2032 e o próprio FNE Proinfra foram calibrados para viabilizar o escoamento, não necessariamente o adensamento. E falta o empurrão de Brasília: o marco legal do hidrogênio de baixo carbono foi sancionado em 2024, mas o decreto dos créditos fiscais, previstos para 2028–2032, segue pendente, e sem previsibilidade o investidor hesita.

O Nordeste tem, portanto, a chance histórica de fazer diferente do que fez o Golfo. Dispõe do insumo mais barato do mundo, de um fundo regional robusto e recém-orientado para a infraestrutura certa, e de uma janela de demanda europeia que se fecha à medida que Austrália, Chile e Oriente Médio avançam. O que definirá se seremos uma nova potência industrial ou apenas mais um exportador de commodity limpa não é o vento — é a política. Ser a Arábia Saudita das renováveis pode ser um elogio ou uma sentença. A diferença está em decidir, agora, se queremos exportar a molécula ou tentar dominar a cadeia produtiva. •

Publicado na edição n° 1422 de CartaCapital, em 22 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A Arábia Saudita do H2V?’

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