2016 é logo aqui

Incensar Michel Temer como um agente de moderação diz muito sobre como chegamos até aqui

O ex-presidente Michel Temer. Foto: AFP

O ex-presidente Michel Temer. Foto: AFP

Opinião,Política

Para quem achava que estávamos em 2021, eis que 2016 resolve ressurgir aos gritos e no bojo da ressaca do 7 de Setembro bolsonarista, mostrando que nunca nos abandonou. E para quem ainda tinha dúvidas, tivemos a demonstração cabal de que o passado se faz presente ou, simplesmente, que não faz sentido pensar em passado, presente e futuro, como observava Albert Einstein. Mas, certamente, o físico alemão nunca imaginaria que pudesse encontrar na política brasileira a maior evidência de seu pressuposto. 2016 é aqui.

Eu creio que foi Octavio Guedes quem deu a melhor pista para a constatação desse fenômeno físico-político. O jornalista nos lembrou de um episódio curioso que faço questão de resgatar, ainda que de forma sumária.

Em 1999, Jair Bolsonaro deu uma entrevista na qual defendia as mesmas atrocidades que o fizeram se tornar presidente em 2018. Pregava o fechamento do Congresso, a sonegação de impostos e mortes, muitas mortes, porque só assim consertaríamos o Brasil. Nesse paredão imaginário e desejado, encontrava-se Fernando Henrique Cardoso, então presidente em segundo mandato graças a tudo que se sabe sobre a Emenda Constitucional da reeleição. Como lembra Guedes, o crime cometido pelo então deputado foi tema de discussão no Congresso.

Antônio Carlos Magalhães, então senador, defendeu que o mandato de Bolsonaro fosse cassado por uma razão um tanto óbvia: atentava contra a Constituição, atentava contra as instituições da República brasileira. Defendia o fechamento do Congresso. Pregava um golpe. Em 1999. Soa familiar? Não. Ele nunca foi outro. Nunca escondeu quem era, o que pensava e o que sempre defendeu. Nos governa hoje por conta dessa sua única virtude: a transparência.

Antônio Carlos Magalhães construiu uma sólida hegemonia política na Bahia após a promulgação da Constituição. Mas a razão disso remonta a um passado desgraçado da política nacional: ACM construiu sua carreira não graças ao jogo democrático, mas por ter marchado lado a lado com os militares que tocaram o golpe de 1964 e tudo que esse país viveu por mais de vinte anos em consequência disso. Foi governador biônico por duas vezes e prefeito indicado por militares. Construiu, nesse percurso, um dos mais poderaoa impérios de comunicação regional do Brasil.


Foi esse cidadão que defendeu um princípio liberal básico e tradicional nesse episódio de 1999: a tolerância, como valor, deve sempre pressupor não tolerar a intolerância. Um princípio que se torna fundamental nas experiência de democracia moderna. A essa altura, vocês devem imaginar como o “cabeça branca” estaria decepcionado com seu neto, o diminuto Antônio Carlos Magalhães Neto – por quem dizem que nunca teve lá muito apreço – com seu apoio pouco discreto à situação política do momento.

Resgatemos a célebre frase do maestro Antônio Carlos Jobim: o Brasil não é para principiantes. Antônio Carlos Magalhães, que tinha todas as razões para defender o golpista saudosista da ditadura militar brasileira, foi quem defendeu a Constituição e a democracia – mas que acabou sendo derrotado na ocasião por um cidadão que foi deputado constituinte, vejam só. Um cara que ajudou a confeccionar a Constituição Federal de 1988 defendeu  um inimigo da Carta contra um membro ativo da Ditadura Militar que defendia sua cassação.

Foi Michel Temer, então deputado, quem salvou o mandato de Bolsonaro. Pergunto: numa escala ACM de convicção democrática, em que nível se encontra Michel Temer?

Como já estamos cansados de saber, o vice-presidente de Dilma foi convidado e se prontificou a participar de mais uma edição do golpe simbólico bolsonarista popularmente conhecido como o “falso recuo”. Redigiu a carta cínica de apaziguamento dos ânimos entre os Poderes contando, obviamente, com a já conhecida boa vontade e conivência de setores influentes e poderosos da sociedade.

O presidente sabe que pode contar com essas pessoas para avançar aos pouquinhos, contanto que entregue a parte relevante do contrato assinado em 2018 com nossas “elites”. O mesmo assinado por Michel Temer em 2016.

Michel Temer foi protagonista de um golpe que detonou as bases já frágeis de um projeto de democracia que nunca saiu de um estado cambaleante. Sem o menor pudor. Sem a menor vergonha. E foi apoiado por amplos setores. Não coincidentemente, transformaram – e mantêm – Jair Bolsonaro em realidade política possível. Basta simular um recuo vez ou outra e está tudo certo.

Se formos comparar o serviço prestado por Michel Temer à democracia brasileira com todo o serviço que presta e ainda prestará Jair Bolsonaro, temos uma clara diferença entre um adulto de uma criança. Quem sabe fazer direito e quem ainda está aprendendo. E o fato de Michel Temer ser incensado por tantos como um agente de moderação, um apaziguador ou um bombeiro não apenas diz muito sobre como chegamos até aqui, como sugere a desgraçada constatação de que parece que, realmente, merecemos tudo isso. 2016 nunca esteve tão vivo, ao ponto de termos como salvador da democracia o cara que decidiu detoná-la, abrindo caminho para o sujeito que salvara 17 anos antes no Congresso.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, membro do Grupos de Pesquisa em Democracia e Justiça (Margem) e pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).

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