10 coisas que o coronavírus pode (e deve) ensinar a todos nós

É preciso desconfiar dos “cientistas” neoliberais, ou melhor, dos economistas contrários à ciência

Foto: Carolina Antunes/PR

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Opinião

A “coronacrise” está ensinando 10 coisas à maioria da humanidade que não acredita que a terra é plana e confia na ciência. Vou tentar sintetizar aqui:

1) É preciso ouvir os cientistas. Se o governo da província de Hubei (China) prestasse atenção no médico que alertou para a explosão de uma doença desconhecida, ao invés de mandar a polícia intimidá-lo, a contenção da doença seria mais rápida.
Se os demais governos tivessem percebido a gravidade da epidemia e imitado logo as ações de isolamento social e expansão do sistema de saúde tomadas pela China, a doença não se transformaria em uma pandemia global.

2) Não se pode confiar em Donald Trump, Jair Bolsonaro e outros especialistas em fake news, principalmente quando afirmam que a pandemia já está controlada e que os trabalhadores podem pegar no batente porque uma crise econômica vai gerar mais mortes do que a pandemia. O primeiro ministro britânico Boris Johnson também defendia “imunizar” a população no dia-a-dia, o que tinha a vantagem política de transferir a culpa pelo descontrole da epidemia para o cidadão que não lava bem as mãos ou para os prefeitos. Agora foi obrigado a recolher-se de quarentena com a Covid-19.

3) É preciso desconfiar dos “cientistas” neoliberais, ou melhor, dos economistas que repetem o credo contra todas as evidências científicas. Depois de justificarem por anos a austeridade com a alegação de que “não há dinheiro”, se rendem aos fatos: os Estados podem, sim, ter déficits, e muitas vezes devem ter.
Parece que os neoliberais querem mesmo é reduzir o déficit público com o corte de gastos para quem precisa de serviço público, ao invés de aumentar impostos de quem tem muita capacidade de pagar. E exigir juros mais elevados para financiar os déficits, vocalizando o interesse de quem tem riqueza de sobra para emprestar ao Estado, mas nunca para pagar impostos.

4) A austeridade mata. No meio da pandemia, é evidente que economizar na compra de máscaras ou respiradores pelo SUS vai matar gente. Só que isso ocorre sempre. Depois de aprovar a reforma da Previdência que ferrou os idosos pobres, Bolsonaro e Paulo Guedes cortaram em dezembro 27 mil cargos, sendo 22 mil na Saúde e 10.661 cargos de Agente de Saúde Pública, responsáveis pelo controle de epidemias. E principalmente depois da Lei do Teto de Gastos, o orçamento do SUS não acompanha o crescimento da demanda e nem mesmo a inflação da saúde. Talvez isto ajude a explicar o aumento recente da taxa de mortalidade de adultos e crianças.

5) A oposição entre investimento em saúde pública e crescimento econômico é falsa. Em condições normais, uma população saudável é mais feliz e mais produtiva. No meio de uma pandemia, sair para trabalhar não vai trazer a volta do crescimento, mas agravar a crise de saúde pública, forçar uma quarentena mais longa e provocar uma depressão econômica.

6) Não podemos esperar que empresários e empresas privadas resolvam crises econômicas sozinhos. O empresário que defende que o Estado não pode aumentar gastos, e que para salvar as empresas os trabalhadores devem perder o emprego e o salário, confunde a parte e o todo. O problema é que o consumidor não vai fazer encomendas como se estivesse empregado. Sem que o poder público regule o mercado, defenda o emprego e tenha déficits, uma crise econômica mata empresas e derruba a própria arrecadação tributária, gerando o déficit fiscal que se queria evitar.

7) Uma renda básica universal (RBU) bancada pelo Estado é possível e desejável. Se damos valor à vida, a única maneira de sustentar as pessoas que são proibidas de trabalhar por razões de saúde pública é transferir dinheiro diretamente para elas. E no futuro? Quando uma nova crise financeira ou a robotização eliminarem empregos mesmo para quem se desespere procurando vagas, o que vamos fazer? Jogar no crime? Deixar morrer aos poucos? A RBU é uma melhor opção.

8) Ninguém é uma ilha. O individualismo desigual elogiado por décadas de neoliberalismo agrava a crise de saúde pública. O garoto entrevistado na praia em Miami dizendo que “se eu pegar a Corona, eu peguei” não entendia que, mesmo que se safe, contribui para matar avós e avôs. Sem que o poder público regule o individualismo, a crise de saúde pública se aprofunda e escala até uma crise social. Precisamos combater a desigualdade e recriar uma cultura da solidariedade.

9) Nenhum país é uma ilha. A Covid-19 não respeita fronteiras nem muros. Ninguém pode prever o que pode acontecer se a pandemia se alastrar sem controle na África, na América Central ou outros regiões com péssima infraestrutura de saúde, para não falar dos campos de refugiados sírios ou em Gaza. Como cobrar ajuda da China, da Europa e dos EUA, os principais focos da pandemia e também da ameaça futura de colapso ambiental? E se vários países pobres não conseguirem honrar débitos externos, a crise econômica vai ficar isolada? É bem provável que a pandemia coloque a reforma da ONU e da ordem internacional no centro da agenda global.

10) A mais importante e difícil lição: priorizar lucros a curto prazo pode levar a crises sem precedentes e destruir a civilização como conhecemos. Se a prioridade cega no ganho de curtíssimo prazo leva muitos empresários e governantes a defender abreviar o isolamento social e arriscar danos ainda maiores à saúde pública e à economia em breve, como convencê-los a arcar os custos associados à redução da emissão de gases do efeito-estufa por muitos anos? Se a Coronacrise já provoca um pandemônio, paremos para imaginar o que o colapso ambiental pode gerar no futuro. O problema, acreditem, é que este colapso vai nos levar a ter saudades da Coronacrise, sobretudo quando milhões e milhões de pessoas precisarem migrar por falta de água e comida ou por excesso de água e enchentes. Lembremos: ninguém é uma ilha.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Professor da Unicamp. Foi professor visitante na UC Berkeley (EUA).

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