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Quando a busca por performance faz o corpo entrar em sobrecarga

O coração é um músculo. E, assim como outros músculos do corpo, ele também pode hipertrofiar diante de uma sobrecarga crônica

Quando a busca por performance faz o corpo entrar em sobrecarga
Quando a busca por performance faz o corpo entrar em sobrecarga
O fisiculturista e influenciador digital Gabriel Ganley, morto aos 22 anos. Foto: Reprodução/Redes Sociais
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Nos últimos dias, discussões sobre performance física, excesso e saúde voltaram a ocupar espaço nas redes sociais. Normalmente, esse debate surge depois de situações que geram impacto e repercussão e, pouco tempo depois, perde força. Mas existe uma questão maior por trás disso: a construção silenciosa da ideia de que saúde significa sempre fazer mais.

Durante muito tempo, a saúde esteve associada a pilares relativamente simples: alimentação equilibrada, atividade física, sono adequado e acompanhamento médico. Hoje, parece existir outra lógica. Não basta treinar; é preciso ultrapassar limites. Não basta ter disciplina; é preciso otimizar tudo. Não basta cuidar do corpo; ele precisa estar em constante evolução.

As redes sociais ampliam essa percepção. Todos os dias vemos corpos, rotinas e desempenhos apresentados como referência de sucesso e autocuidado. E a questão não está em incentivar atividade física ou compartilhar informações sobre saúde. O ponto de atenção aparece quando o cuidado começa a se confundir com desempenho contínuo e o corpo deixa de ser entendido como organismo para virar projeto.

Existe também um aspecto biológico importante nessa conversa: o corpo responde aos estímulos que recebe. Se um músculo sofre sobrecarga, ele se adapta. Isso acontece com bíceps, pernas e também com o coração.

O coração é um músculo. E, assim como outros músculos do corpo, ele também pode hipertrofiar diante de uma sobrecarga crônica. Isso acontece, por exemplo, em pessoas que convivem por muitos anos com hipertensão arterial, quando o coração precisa bombear sangue continuamente contra uma resistência maior.

Mas um coração maior não significa, necessariamente, um coração mais saudável. Em alguns casos, esse músculo pode se tornar mais espesso e perder eficiência para relaxar e se encher adequadamente. Com o tempo, isso pode aumentar o risco de insuficiência cardíaca, arritmias, infarto, AVC e outras complicações cardiovasculares.

Existe ainda uma parte dessa conversa que costuma receber menos atenção: a pressão estética e a busca por resultados rápidos podem levar algumas pessoas a ultrapassar limites fisiológicos importantes. Uso abusivo de anabolizantes, estimulantes, hormônios em doses elevadas e outras práticas relacionadas à performance podem acelerar alterações cardiovasculares relevantes.

Isso não significa que treinar faz mal. Pelo contrário: a atividade física continua sendo uma das ferramentas mais importantes para proteção cardiovascular e aumento da expectativa de vida.

A questão surge quando a saúde deixa de estar associada ao cuidado e passa a ser medida apenas por desempenho, estética e excesso.

Talvez um dos maiores equívocos da nossa geração seja confundir capacidade de suportar com ausência de dano. O corpo humano tem uma capacidade impressionante de adaptação. Ele compensa, tolera e continua funcionando mesmo diante de desequilíbrios importantes. Mas adaptação fisiológica não significa ausência de consequência.

E talvez seja exatamente isso que torne essa discussão tão difícil: muitas alterações relevantes acontecem enquanto, do lado de fora, tudo ainda parece normal.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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