Vozes da diáspora na Alemanha 30 anos após a queda do muro

Histórias gloriosas sobre a queda do muro escondem o processo de apagamento de trabalhadoras e trabalhadores imigrantes sem direitos

Homem branco na Alemanha segura máscara de Anastácia, em protesto contra o uso de máscaras pelo coronavírus. Foto: SEBASTIEN BOZON / AFP

Homem branco na Alemanha segura máscara de Anastácia, em protesto contra o uso de máscaras pelo coronavírus. Foto: SEBASTIEN BOZON / AFP

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Hoje, dia três de outubro deste ano de pandemia, quando escrevo essa crônica, a Alemanha comemora os seus trinta anos de reunificação.

Essa chamada revolução não foi tão pacífica quanto é dito, é também o fruto de um processo brutal e sangrento para muitos seres humanos nascidos neste país, tanto na parte que era chamada de Alemanha Ocidental, quanto na parte que era chamada de Alemanha Oriental, mas também para os que estiveram aqui trabalhando e construindo este país sem terem sido vistas/os, ou melhor, sendo negados.

Esse processo brutal deixou muitos rastros na África e em outros países como, por exemplo, Vietnam.

As vozes dos trabalhadores que vinham de países como Namíbia, Angola, Moçambique, Vietnam e outros países que eram aliados da União Soviética nunca foi ouvida e tão pouco comentada.

As vidas destes seres que foram quase que “alugados” para trabalhar, para produzir o chamado socialismo estabelecido aqui na Alemanha, através de contratos entres os governos, através de contratos entre as potências; sobre esses seres sabemos muito pouco. Mas sabemos que pessoas, de uma hora para a outro perderam seus contratos de trabalhos, sabemos que de repente perderam suas “utilidades” para os sistemas BDR (Alemanha Ocidental) x DDR (Alemanha Oriental). Sistemas patriarcais, capitalistas, comunistas, imperialistas… sistemas que utilizam seres assim também como eles decidiram utilizar e destruir a terra.

Em suas diversidades filosóficas houve, entretanto, algo em comum no que se referiu a explorar “mãos de obras” pra produzir sonhos de consumo e de estabilidades forjadas. A Alemanha Ocidental não teria conseguido sobreviver se não tivesse cooperado com sistemas antidemocráticos e discriminatórios como USA ou África do Sul, não esquecendo de citar o Brasil.

A tão festejada reunificação da Alemanha, mesmo depois de trinta anos não conseguiu sarar as cicatrizes das vítimas da ditadura, assim também como não conseguiu dizimar os comportamentos racistas de exclusão que já haviam aqui antes da divisão do país pelos aliados, e que sobreviveram durante o período do muro, dentro e fora dele, e se intensificaram depois da reunificação em 1989.

Hoje eu gostaria de, neste dia de celebração, não precisar falar sobre discriminação em um país europeu e sim dos objetivos e promessas de uma sociedade democrática; hoje eu gostaria muito de não precisar falar sobre os maltratos e agressões que vêm aumentando nas redes sociais, nos projetos desumanos de exclusão, liderados por pessoas privilegiadas pelo colonialismo que querem ver outros como “estranhos” por conta de alguma qualidade estético/social. Na verdade este país deveria mostrar uma eterna gratidão por seres que vêm pra esta terra, apesar da sua história, por quererem participar de direitos democráticos, direitos humanos como está descrito na Carta Magna dos direitos universais assinados por países europeus no ano de 1948.

Muro de Berlim (Foto: Wikimedia Commons)

As insalubridades verbais que vêm assolando este país nos últimos trinta anos e que se condensaram nos últimos cinco através de vozes, de falas agressivas de alguns políticos que, com o dinheiro do povo, ganham o seu dinheiro simplesmente através de discursos populistas e eugenistas nos parlamentos, que gastam o dinheiro dos impostos e imundiçam a terra com propagandas que se assemelham às da década de 1930.

Eu mulher negra, nascida na terra de Mãe Menininha do Gantois, creio na importância de trazer a público o valor das mãos não brancas que suaram nesta terra, vejo a necessidade de lembrar das calosidades das mãos e das lágrimas derramadas por pessoas que largaram suas famílias para vir aqui trabalhar e produzir na esperança de que também venham ter uma chance, ou de que pelo menos seus filhos, e os filhos e filhas destes não tenham que vir a passar pelas humilhações que eles passaram, que não venham a passar pela coerção que eles passaram durante anos na Alemanha.

Entre as muitas sequelas dos poderes desumanos na reconstrução do país, vejo a negação da mão de obra estrangeira neste processo. Há o mito de que esta restauração é a prova de que a nazismo foi vencido e que todos aprenderam suas lições. É necessário desmistificar para que a sociedade se torne igualitária e para que a história trágica não se repita. Espero que não precisemos de mais trinta anos para mudarmos desta ótica eurocêntrica, uma ótica partida de sistemas feudais, patriarcais; sistemas que dizimam almas assim como dizimam a natureza com monoculturas e a hiperprodução em todas as partes do mundo. Só poderemos aprender sobre respeito quando aceitarmos que o mundo é uma bola e não há em cima nem embaixo e que só há um mundo e todos nós somos parte; que podemos nos complementar e nos fortalecer, e que há suficiente para todos quando não investirmos tanto dinheiro em armas, mas sim em tecnologias sustentáveis.

A reunificação da Alemanha ainda não está completa, ainda não é a vitória da democracia contra a ditadura, ainda é um caminho que precisa ser trilhado e que só será mesmo funcional quando souber admitir os valores de todas as mãos que lutaram de todos os lados durante anos nesta terra, sem terem tido os mesmos direitos e nem sequer serem citados como valorosos.

A exploração de países colonializados é a base do aqui chamado milagre econômico dos anos 70 e 80 onde se foi possível consumir e viajar. “Wohlstand” à custa da força de trabalhadoras e trabalhadores, às custas dos chamados “Gastarbeiter”, isto é, “trabalhadores convidados”. A Alemanha convidou trabalhadores, alugou forças de trabalho, mas esqueceu que vieram seres humanos, com necessidade e em busca de direitos, direitos prometidos, direito de trabalhar e alimentar suas famílias e dar a seus filhos uma chance.

Esses “trabalhadores convidados” não tinham o direito de ir e vir nem de morar onde quisessem, principalmente na DDR. Suas vidas se passavam morando em quartos minúsculos sem infraestrutura entre as fábricas para produzir produtos a ser consumidos na BDR. Não houve nenhum governo europeu que não soubesse desse sistema.

Relações amorosas entre alemães e “Gastarbeiter” era proibido, tendo pena de perca de seus contratos de trabalhos.

Neste meio tempo houve também as escolas para as crianças vindas da Namíbia e Angola etc. Também a eles eram proibidos de terem contatos com a população alemã. Neste estado de segregação a economia da chamada Alemanha Oriental ficou dependente do poder de compra da Alemanha Ocidental. O preço pago pelas famílias nunca foi contabilizado.

Em conversa com um companheiro de Moçambique que mora aqui há muitos anos e que conseguiu voltar para a Alemanha mesmo depois da queda do muro, ele conta de como era arriscado ir a lugares fora das “Zonas” prescritas nos contratos de trabalho. Trata-se de uma pessoa ativa na luta pelos direitos dos emigrantes. Se acontecesse alguma coisa não iria poder contar com o direito de cidadania, não teria nenhum órgão que os protegesse e perderia automaticamente seu contrato de trabalho sem nenhum direito social. Essa foi a sua experiência de socialismo. Um simples passeio fora do horário de trabalho poderia ser o último e ninguém iria ficar sabendo. Talvez seu companheiro quarto também estaria proibido de falar, ou a família do outro lado do mundo que não mais iria receber o pequeno salário.

Amadeu Antonio Kiowa foi uma das primeiras vítimas de extremismo de direita na Alemanha reunificada. Não sabemos exatamente quantas vidas foram ceifadas pelo racismo depois da reunificação porque há quem queira manter o mito da supremacia ética europeia. Ele não era só um emigrante que chegou aqui por acaso ou fugido da guerra, ele como tantos outros foi convidado. Sim, convidado para estar aqui a reconstruir a nação, como tantas outras mãos, também as suas foram parte deste processo.

“Ossis”, os cidadãos da Alemanha Oriental, sentem-se como cidadãos de segunda classe. As suas chances nos mercados de trabalho são menores do que as dos que cresceram na BDR. Inclusão ainda não é interdisciplinar e os “ossis” procuraram pôr a culpa da sua exclusão naqueles que estavam mais próximos de si, geográfica e financeiramente.

As cidades que se localizam nas regiões da antiga DDR são áreas de risco para pessoas que não são tidas como típicas caucasianas, mais um dos mitos coloniais que deve ser revisado. A busca da identidade nega a informação de que não existe o chamado “sangue alemão”, ou eles simplesmente negam para continuar banhando-se na ignorância da subordinação colonial eurocêntrica e segregacionista.

Eu parabenizo a quem está feliz pela chance que veio com a queda do muro, a esses peço ajuda que não esqueça do sangue e da força dos que estiveram lado a lado na produção do trabalho e hoje não têm o direito de se aproximar do lugar onde foi parte de suas vidas durante um tempo, o lugar que foi o símbolo de esperança de uma vida melhor para suas famílias em África, o símbolo da esperança de uma vida melhor através do trabalho árduo.

Como otimista espero poder ver o dia em que esses trabalhadores possam receber as devidas indenizações e que suas crianças tenham o direito de ir e vir assim como tem um cidadão com um passaporte europeu; espero poder ver o dia que eles não precisem ter medo e aprender que existem “No go area”.

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Nascida e criada em Salvador da Bahia. Quinta de oito crianças, formada em Letras Vernáculas pela UFBa. Pós-Graduada em Literatura Contemporânea pela UEFS-Bahia. Formada em Etinologia e Lusitanística pela Johannes-Gutenberg-Universität-Mainz. Fundadora da ONG-BrasilNilê. Embaixadora da Década Internacional dos Afrodescentes na Alemanha.

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