Mundo
Vitória de Pirro
A direita obtém mais votos, mas não consegue maioria para formar um governo. Os extremistas do Vox encolhem
Nunca uma derrota foi tão comemorada. E nunca uma vitória teve gosto tão amargo. Melhor para os espanhóis. E para o resto do planeta. Em um resultado distinto daqueles projetados pelas pesquisas, o PP, tradicional legenda de centro-direita, obteve mais votos, mas não extraiu das urnas, no domingo 23, a margem folgada para formar um novo governo. Não só. O Vox, partido de extrema-direita que reivindica a herança do franquismo e sentia o gosto ou, como dizem os torcedores do Flamengo, o “cheirinho” do poder, viu o sonho de uma noite de verão virar pesadelo. A agremiação ficou menor: terá 32 deputados na futura legislatura, ante os 52 atuais. Juntos, PP e Vox terão 169 parlamentares, sete aquém do necessário para formar uma maioria. “O bloco reacionário, de retrocesso, que propunha a revogação dos avanços alcançados nestes quatro anos, fracassou”, comemorou o atual primeiro-ministro socialista, Pedro Sánchez, um sobrevivente.
No fim, contra tudo e todos, Sánchez optou por uma jogada de pôquer e não pôde reclamar da fortuna. Após a contundente derrota nas eleições regionais de maio, quando os adversários do PP amealharam oito das 12 regiões do país, o líder do PSOE decidiu convocar eleições antecipadas, para temor dos aliados. “Cabe ao povo tomar a palavra e decidir o rumo político do país”, justificou o primeiro-ministro na ocasião. “Assumo em primeira pessoa esses resultados e acredito ser importante submeter nosso mandato democrático à vontade popular.” Sánchez parecia então o único a acreditar na racionalidade dos eleitores e, por pouco, muito pouco, as urnas no domingo não lhe deram razão. Os socialistas, também na contramão de quase todas as projeções, saíram ligeiramente maiores. Ganharam duas cadeiras em relação à disputa de 2019 e somam agora 122 deputados. Ao lado do bloco de esquerda Sumar, chegam a 153 posições. Embora tenha 16 parlamentares a menos, Sánchez, dada a fragmentação partidária, terá mais condições de negociar uma nova maioria que garanta sua permanência à frente do governo do que Alberto Nuñez Feijóo, líder do PP, tomar o seu lugar.
O problema de Feijóo chama-se Vox. Sem a aliança com os extremistas liderados por Santiago Abascal, o PP não vai a lugar nenhum. Com ela também não. As forças secundárias da política espanhola são compostas, basicamente, de legendas independentistas e o Vox, além de reacionário nos costumes (é contra o direito ao aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, anti-imigrantes etc.), faz uma oposição visceral às regiões autônomas e suas reivindicações. Uma das esperanças de Feijóo, o Partido Nacionalista Basco, dono de cinco cadeiras no futuro Congresso e menos radical em suas pretensões, anunciou na segunda-feira 24 a recusa em integrar uma coalizão ao lado de Abascal.
“O bloco reacionário, de retrocesso, fracassou”, comemora Pedro Sánchez, primeiro-ministro socialista
“Vou iniciar o diálogo para formar um governo e peço que ninguém tente bloquear novamente a Espanha”, declarou um otimista presidente do PP. Aliado de ocasião, Abascal foi incapaz de esconder a frustração na noite de domingo. Culpou as pesquisas “manipuladas”, que projetavam uma vitória fácil da direita e teriam levado à desmobilização dos eleitores, e criticou Feijóo pela estratégia de se descolar do Vox na reta final de campanha, em uma tentativa de obter maioria absoluta e se livrar do parceiro indesejado. “Os resultados”, lamentou o Bolsonaro espanhol, “são más notícias para muitos espanhóis. Sánchez pode bloquear uma investidura (do PP) e, pior, pode até ser investido com o apoio do comunismo, do separatismo golpista e do terrorismo.” Se faltava uma declaração para soterrar as possibilidades de negociação de Feijóo, não falta mais.
A continuidade de Sánchez não está, porém, garantida. Apesar de inclinados a manter o socialista no poder, os partidos independentistas exigem do PSOE compromissos mais explícitos com suas pautas. “Catalunha ou Vox. Esse é o dilema de Pedro Sánchez e Yolanda Díaz (do Sumar). Se eles querem governar seu país, devem respeitar o nosso”, declarou Gabriel Rufían, porta-voz do Esquerda Republicana, que obteve sete cadeiras no Parlamento e defende a independência catalã. “Não faremos de Pedro Sánchez primeiro-ministro a troco de nada”, arrematou Miriam Nogueira, presidente do Junts, legenda da mesma região fundada por Carles Puigdemont, há seis anos exilado na Bélgica, desde a realização do plebiscito pela separação da Catalunha à revelia da autorização de Madri que resultou em sua condenação e de outros integrantes do governo da região autônoma. O ERC e o Junts reivindicam, entre outros compromissos, a anistia aos condenados pelo movimento de secessão. As negociações acontecem em um ambiente contaminado pelas paixões políticas e ainda sob os efeitos da campanha eleitoral. No dia seguinte às eleições, a Justiça espanhola acatou a expedição de um mandado de captura internacional de Puigdemont. “Um dia você é decisivo para formar um governo e, no dia seguinte, a Espanha pede que seja detido”, declarou o ex-governador catalão.
O Parlamento terá três semanas para indicar um governo provisório. Neste meio-tempo, o rei Filipe VI convocará Feijóo e Sánchez para lhes dar a oportunidade de tentar formar uma coalizão. Caso os esforços de ambos fracassem, novas eleições serão convocadas. •
Publicado na edição n° 1270 de CartaCapital, em 02 de agosto de 2023.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Vitória de Pirro’
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