Vitória acachapante de Boris Johnson foi mais do que ele pedia

Ingleses estavam cansados do impasse político. Os problemas que a decisão pode ter se iniciam em janeiro de 2020

Johnson conseguiu mais do que pedia

Johnson conseguiu mais do que pedia

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Esse é o resultado eleitoral mais decisivo em mais de uma década. Boris Johnson pediu ao país um mandato para “concluir o Brexit” e na quinta-feira 12 os eleitores lhe deram uma maioria esmagadora. O resultado resolve de uma vez por todas a questão vexatória de quando e se o Reino Unido deixará a União Europeia: a saída formal da Grã-Bretanha acontecerá no fim do próximo mês. Mas a forma conclusiva do resultado não deve obscurecer a enorme incerteza que paira sobre o futuro: o tipo de Brexit escolhido quando sairmos, uma decisão que terá enormes implicações para o bem-estar econômico e a integridade do Reino Unido.

Essa é a mais ampla maioria conservadora que o país viu desde 1987, com a maior porcentagem de votos conquistada por qualquer partido desde a primeira vitória de Margaret Thatcher, em 1979. Para os trabalhistas, é a quarta derrota consecutiva, produzindo a menor bancada de deputados do partido desde 1935. O mapa eleitoral da Grã-Bretanha foi revertido à medida que os conservadores alcançavam a vitória com uma série de assentos no Norte e nas Midlands, que não muito tempo atrás eram considerados redutos trabalhistas inexpugnáveis.

Essa nova realidade política deixa desafios para os líderes políticos da Grã-Bretanha. Um recém-triunfante Boris Johnson lidera um partido atordoado com a escala de sua vitória, e que terá de enfrentar o desafio de entregar o Brexit sem infligir sérios danos à sua frágil nova coalizão eleitoral. Nicola Sturgeon recebeu um novo mandato para defender a independência escocesa, mas nenhum caminho óbvio para garantir um referendo a respeito. Os trabalhistas e os liberais-democratas enfrentam meses de introspecção angustiante e conflitos internos, ao iniciarem o processo de escolha de novos líderes adequados à tarefa de reconstruir seus partidos despedaçados e encontrar maneiras de se reconectar com os eleitores que os abandonaram.

Do seu pódio em Downing Street, na sexta-feira 13, Johnson deu um tom de unidade e inclusão, em nítido contraste com o teor de sua campanha eleitoral divisora. Ele prometeu liderar um governo conservador de “uma só nação” e refletirá os sentimentos tanto daqueles que votaram na saída quanto na permanência na União Europeia no referendo de 2016.

É difícil exagerar o quão dramática seria a mudança necessária na abordagem do governo presenciada nos últimos nove anos. Exigiria uma estratégia totalmente diferente para alcançar um novo relacionamento com a UE daquela que Johnson seguiu até hoje, uma reversão da dolorosa austeridade da década passada que atingiu mais fortemente famílias de baixa renda e áreas menos abastadas, e uma revelação do legado tóxico do ambiente hostil de Theresa May.

Os problemas começam no fim de janeiro, quando o Reino Unido deixar a União Europeia

Deixar a UE em 31 de janeiro de 2020, nos termos do acordo de saída, verá o “Brexit concluído” somente no sentido mais superficial. A saída será apenas o início da conversa sobre como será o relacionamento com a União Europeia. Será um relacionamento estreitamente alinhado, que minimize o dano econômico? Ou a Grã-Bretanha divergirá acentuadamente dos regulamentos e normas europeus, a fim de se alinhar mais com a economia de baixa regulamentação dos Estados Unidos e acabar com a livre circulação, cujo preço reforçaria as desigualdades econômicas, um grave risco para a união e uma diluição das proteções aos trabalhadores e consumidores?

Como havia feito May, Johnson sempre priorizou o próprio interesse político ao do país. A ausência de uma maioria conservadora desde 2017 deu uma influência indevida ao flanco duro eurocético do partido, e tanto May quanto Johnson se dispuseram a dançar conforme a música. Johnson estava disposto a seguir o mais difícil dos Brexits, que poria em risco a integridade do Reino Unido e imporia uma enorme dificuldade econômica, como preço do poder. Sua vitória retumbante nas eleições deve mudar esse cálculo. Não apenas reduz a influência dos eurocéticos mais fanáticos de seu partido como trouxe uma nova onda de parlamentares que representam áreas do país cujas economias seriam destruídas por um Brexit duro. Isso lhe dá o imperativo político para buscar uma saída suave que minimize o impacto econômico e proteja a união.

Corbyn conduziu os trabalhistas ao fracasso

O mesmo imperativo atua quando se trata de reverter a última década de cortes de gastos. O manifesto de Johnson ofereceu muito pouco nesse sentido, e nada sobre a redução de créditos fiscais que levou muitos pais trabalhadores a ganhar milhares de libras a menos por ano. Até 2023, mais da metade das famílias com filhos terão sido transferidas para o crédito universal – muito menos generoso que o sistema que substitui – e muitos deles serão novos eleitores conservadores, vivendo em distritos eleitorais com novos parlamentares conservadores. Johnson ignora isso por sua conta e risco.

Mas, embora sua maioria possa conduzi-lo a uma abordagem mais branda, sua campanha eleitoral corre o risco de um legado político completamente diferente. Sem dúvida, Johnson extrairá uma lição perigosa de sua vitória: a de que fazer denúncias falsas sobre seus adversários, culpá-los por fatos que acontecem sob o seu comando e evitar escrutínio a todo custo é uma estratégia política eficaz. Ao menos ele não pode mais confiar na narrativa tóxica e populista de “o povo contra o Parlamento”. Ele controla os Comuns. Se em cinco anos a Grã-Bretanha estiver definhando na sequência de um Brexit catastrófico, a responsabilidade recairá sobre ele e somente nele.

Os eleitores tomaram uma decisão. Resta saber se foi a melhor

A derrota de Jeremy Corbyn deixa o Partido Trabalhista com diferentes dilemas. O partido perdeu mais de 2,5 milhões de eleitores em apenas dois anos. Mas ainda houve mais eleitores que não apoiaram Johnson do que aqueles que o fizeram. Muitos destes temem as consequências de mais cinco anos de governo conservador. Os trabalhistas lhes devem uma reflexão completa e honesta de por que perderam, em vez de se rebaixar em jogos de culpa sectária.

Os apoiadores de Corbyn tentaram amenizar as perdas trabalhistas como consequência do Brexit acima de tudo. Segundo esse relato, o referendo criou uma situação de perda total, abrindo uma nova vertente que dividiu a coalizão eleitoral trabalhista. Ao decidir finalmente apoiar um referendo sobre qualquer acordo, o Partido Trabalhista sacrificou seu apoio central. Aqueles que passaram os últimos dois anos a defender um referendo devem fazer um balanço e refletir por que o caso nunca ressoou com parlamentares e eleitores suficientes para que se realizasse. Mas a falta de liderança trabalhista no Brexit, sua abjeta recusa em adotar uma posição clara desde o início, indubitavelmente causou dano significativo ao argumento por um novo referendo. 

Os trabalhistas perderam mais de 2,5 milhões de eleitores em apenas dois anos

Os problemas dos trabalhistas vão além do Brexit. Sua participação nos votos decaiu mais nas áreas de apoio à saída da UE, mas também foram grandes nas áreas do país que votaram pela permanência. Pesquisas sugerem que o fator mais importante para os eleitores que abandonaram o partido rumo aos conservadores não foi o Brexit, mas a liderança de Corbyn, reforçando os relatos de deputados trabalhistas ao longo da campanha. E o Brexit é um sintoma dos problemas dos trabalhistas em seu território principal, não a causa. Sob o sistema eleitoral vigente, o Partido Trabalhista só pode conquistar maiorias decentes formando uma coalizão de eleitores socialmente liberais e socialmente conservadores de todos os cantos do Reino Unido. O declínio do apoio da classe trabalhadora aos trabalhistas tem sido de longo prazo e estrutural. Embora Corbyn tenha energizado uma nova geração de deputados e ativistas, ficou claro que ele não era o líder para abordar esse declínio estrutural em longo prazo.

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