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Virada de mesa e clima de violência ameaçam a vitória da esquerda na Colômbia

Nas ruas de Bogotá, a hostilidade paira no ar e se estende aos observadores estrangeiros que chegam para acompanhar as eleições de domingo

(Photo: Raul ARBOLEDA / AFP)
(Photo: Raul ARBOLEDA / AFP)
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A concreta possibilidade de um candidato de esquerda vencer pela primeira vez as eleições presidenciais na Colômbia aumentou a tensão política no país e alimenta um movimento reacionário que tenta melar o pleito marcado para o próximo domingo 29.

A denúncia parte de políticos colombianos e observadores internacionais, que também veem com apreensão o risco de episódios violentos em meio à votação, em um país marcado pela guerrilha e pelo ódio político, que se tornou natural em parte da sociedade.

Liderando as pesquisas com 40,6% das intenções de voto, o ex-guerrilheiro e ex-prefeito de Bogotá, Gustavo Petro, corre o país para buscar a vitória já no primeiro turno. Em paralelo, dirigentes e parlamentares da coalizão Pacto Histórico, que sustenta a candidatura, denunciam auma tentativa de virada de mesa que, segundo eles, conta com a simpatia do atual presidente colombiano Iván Duque.

Informações vazadas de dentro da campanha do candidato de direita Federico Gutiérrez – que aparece em segundo lugar, com 27,1% das intenções de voto – acenderam sinal amarelo sobre uma manobra em curso para evitar uma possível vitória de Petro no primeiro turno.

A última cartada da direita, afirma a CartaCapital a senadora Sandra Ramírez, do partido Comunes, consistiria em pedir a demissão de Alexander Vega, chefe do Registro Civil Nacional, órgão responsável pela organização das eleições. Vega tornou-se alvo desde que protagonizou um polêmico vai-e-vem sobre a necessidade de recontagem dos votos nas eleições legislativas ocorridas em março: “Nos inteiramos de que podem suspendê-lo”, diz Ramírez.

Ex-guerrilheira das FARC, a senadora afirma não crer em bruxas, embora saiba que elas existam. “A probabilidade maior é que as eleições se realizem, mas não sabemos de fato o que pode ocorrer. A sociedade colombiana hoje está polarizada. Isso não é bom para o país. E tampouco para o processo eleitoral instalado”, diz.

Sem conseguir subir nas pesquisas, Gutiérrez, da coligação de direita Equipe pela Colômbia, tem o apoio de Duque, do establishment financeiro e do principal líder da direita colombiana, o ex-presidente Álvaro Uribe, maior aliado dos Estados Unidos na América do Sul.

Ramírez diz que pesquisas internas – na Colômbia é proibida a publicação de pesquisas na semana que antecede a votação – apontam o crescimento da candidatura de esquerda na reta final e a possibilidade de vitória de Petro já no primeiro turno: “É difícil dizer neste momento se Gutiérrez passará ao segundo turno. Isso só saberemos no domingo. Mas, estamos dando passos importantíssimos para a mudança já no primeiro turno”.

Segurança reforçada

Os últimos dias da tensa campanha eleitoral colombiana fazem também com que os candidatos progressistas redobrem os cuidados com a segurança. Em seus últimos atos de campanha, Petro tem discursado sob a proteção de meia dúzia de guarda-costas que empunham escudos blindados à prova de tiros de fuzil e metralhadora.

Não se trata de exagero. Além de já ter sido comprovadamente alvo de um plano de assassinato pela extrema-direita nas eleições de 2018, quando foi derrotado por Duque, Petro sabe que outros nomes de esquerda que se aventuraram em uma candidatura com chances de vitória à Presidência terminaram assassinados pelos grupos paramilitares e milicianos ou pelo narcotráfico. Isso aconteceu com Jaime Pardo Leal em 1987, com Luís Carlos Galán em 1989 e com Bernardo Ossa e Carlos Pizarro em 1990.

Sandra Ramírez justifica os cuidados com a segurança de Petro e também da candidata à vice-presidente na chapa da esquerda, a ambientalista e militante do movimento negro Francia Mina, outro objeto do ódio da extrema-direita: “A história da Colômbia mostra que os candidatos de esquerda ou progressistas que têm se apresentado à disputa eleitoral têm sido eliminados. Temos experiências dolorosíssimas.”

Nas ruas de Bogotá, a hostilidade paira no ar e se estende aos observadores estrangeiros que chegam para acompanhar as eleições de domingo. Um deles é o presidente nacional do PSOL, Juliano Medeiros, que disse à CartaCapital como percebe o ambiente político no país: “Há uma enorme tensão. Até hoje, os grupos que controlam a politica na Colômbia nunca permitiram a chegada de uma coalizão de esquerda ao poder. Já usaram a violência inúmeras vezes para evitá-lo e não me surpreenderia se isso acontecesse novamente”. Segundo ele,  alguns observadores estrangeiros de esquerda estão sendo barrados no aeroporto, o que aumenta o temor de uma virada de mesa: “As próximas horas serão decisivas para sabermos se as eleições serão transparentes ou não”.

Maurício Thuswohl
Repórter da edição impressa de CartaCapital no Rio de Janeiro

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