Mundo
“Vale a pena lutar”
Apesar da perseguição judicial, a brasileira Vanda Pignato, ex-primeira-dama de El Salvador, persiste na militância
Absolvida após quatro anos de um processo no qual era acusada de lavagem de dinheiro e que atravessou fronteiras e expôs a perigosa mistura de Justiça, política e opinião pública, a ex-primeira-dama de El Salvador Vanda Pignato retoma a vida pública com a mesma convicção que marcou sua trajetória. “A democracia não é apenas um sistema político, mas uma construção permanente”, diz nesta entrevista. Da militância durante a ditadura brasileira à criação da Ciudad Mujer, política pública que colocou as mulheres salvadorenhas no centro da ação do Estado e serviu de referência a iniciativas em outros países, Pignato nunca se desviou da defesa dos direitos humanos e da luta feminista. Nascida em São Paulo, desembarcou em El Salvador em 1988, durante a guerra civil, onde mais tarde conheceu o marido, Maurício Funes, ex-presidente do país, formou uma família e se dedicou a projetos sociais. “Acompanhar de perto o sofrimento e a resistência de um povo que lutava pela paz e pela democracia mudou profundamente minha vida.” A travessia recente impôs, porém, outro tipo de marca. Entre o tratamento de um câncer, a prisão domiciliar e a batalha contra o lawfare, a brasileira resistiu bravamente até o reconhecimento de sua inocência pelos tribunais. Apesar da perseguição, não perdeu a esperança. “Nunca me senti abandonada pelo povo salvadorenho.”
“Se pudesse voltar no tempo, faria a mesma coisa”
CartaCapital: Em algum momento, diante da perseguição político-judicial, pensou em abandonar a vida pública?
Vanda Pignato: Nunca. Houve momentos de muito medo, muita dor e muita incerteza, mas nunca deixei de acreditar nos valores que orientaram a minha vida. O que mais me perguntei foi até onde um ser humano é capaz de suportar diante de tantos desafios. Ao mesmo tempo em que enfrentava um processo judicial longo e doloroso, vivia uma grave exposição da minha vida pessoal e um tratamento contra o câncer. Foi um período muito duro para mim e para minha família. Meu filho ainda era pequeno, e isso tornou tudo ainda mais doloroso. Mas também recebi solidariedade e nunca me senti abandonada pelo povo salvadorenho. Ao contrário. As mulheres, em especial, permaneceram ao meu lado. Após ser acusada de enriquecimento ilícito e por suposta lavagem de dinheiro, fui investigada em vários países e, depois de anos, nenhuma prova sustentou as acusações, a Justiça reconheceu minha inocência e fui integralmente absolvida. O que me sustentou foi a certeza de que jamais usei a vida pública para benefício pessoal e o compromisso que sempre tive com os direitos humanos e com as mulheres. Se pudesse voltar no tempo, faria exatamente a mesma coisa. Depois de tudo o que vivi, minha confiança na democracia não diminuiu. Aprendi que a democracia depende de instituições independentes, de uma Justiça que respeite o devido processo legal e de uma imprensa responsável. Minha convicção segue a mesma: a política só faz sentido quando melhora concretamente a vida das pessoas.
Misoginia. O golpe contra Dilma Rousseff “evidenciou como a resistência à presença das mulheres no poder continua a ser um enorme desafio” – Imagem: Anton Vaganov/AFP
CC: Antes de se tornar primeira-dama e secretária de Inclusão Social em El Salvador, a senhora militou no Brasil, em um momento difícil. Como enxerga a continuidade entre essas experiências e o que elas dizem sobre a luta das mulheres na política latino-americana?
VP: Vejo uma continuidade muito clara. Minha formação política começou ainda durante a ditadura no Brasil, quando participei das Comunidades Eclesiais de Base e dos movimentos de defesa dos direitos humanos e de solidariedade aos povos latino-americanos. Ali aprendi que democracia, direitos humanos e justiça social caminham juntos. Pouco depois iniciei minha militância no Partido dos Trabalhadores, do qual faço parte desde o início. O PT foi um espaço importante de formação política e reforçou uma convicção que levo comigo até hoje: transformar a realidade exige participação popular, compromisso democrático e capacidade de construir políticas públicas. Naquela época, a luta pela democracia e pelos direitos humanos mobilizava grande parte da esquerda brasileira. A agenda das mulheres ainda não ocupava o espaço que conquistou nas últimas décadas. Foi a minha experiência na vida pública que me mostrou, de forma muito concreta, que não existe democracia plena enquanto as mulheres permanecerem à margem das decisões do Estado. Quando cheguei ao governo em El Salvador, vivi um momento histórico, único, e queria contribuir para que essa mudança produzisse transformações reais. Tomei então uma decisão que marcou toda a minha trajetória, dedicar meu trabalho às mulheres. Elas eram maioria da população, mas permaneciam praticamente invisíveis para as políticas públicas. Acreditava que um país não poderia se considerar democrático enquanto metade da população continuasse fora das prioridades do Estado. Essa convicção deu origem à Ciudad Mujer. Mais do que reunir serviços em um único espaço, o projeto representava uma nova forma de olhar para o papel do Estado. Pela primeira vez, as mulheres deixavam de ser tratadas apenas como beneficiárias de programas sociais e passavam a ser reconhecidas como sujeitos de direitos. Essa experiência também me ensinou outra lição importante: políticas transformadoras não acontecem por acaso. Elas exigem decisão política e mulheres ocupando espaços de poder. Não basta que sejamos destinatárias das políticas públicas. Precisamos participar da sua formulação, decidir prioridades e influenciar os rumos. Por isso, acredito que a luta das mulheres não é uma pauta específica ou secundária. Ela diz respeito ao próprio modelo de democracia que queremos construir. Uma sociedade que convive com a violência, a desigualdade e a exclusão de metade da população jamais será plenamente democrática.
“Se perdi algumas ilusões, nunca perdi a esperança”
CC: Diante do avanço da extrema-direita, do enfraquecimento das instituições democráticas e do crescimento da violência política contra as mulheres, como vê o futuro da democracia na América Latina?
VP: Continuo a acreditar profundamente na democracia e na capacidade dos povos latino-americanos de construir sociedades mais justas. Se perdi algumas ilusões ao longo da minha trajetória, nunca perdi a esperança. A vida me ensinou que nenhum direito conquistado é definitivo e que a democracia precisa ser defendida todos os dias. A América Latina atravessa um momento muito difícil. A desigualdade continua marcando a vida de milhões de habitantes, a violência cresce, a desinformação confunde o debate público e a polarização torna cada vez mais difícil construir consensos em defesa da democracia. Em muitos países, assistimos ao fortalecimento de projetos autoritários. Nós, mulheres, continuamos muito longe da igualdade na ocupação dos espaços de poder e, quando chegamos aos mais altos cargos do Estado, frequentemente enfrentamos formas de violência política e misoginia que ainda são naturalizadas. O golpe contra a presidenta Dilma Rousseff evidenciou como a resistência à presença das mulheres no poder continua a ser um enorme desafio para a democracia latino-americana. Esse cenário exige uma reflexão das próprias forças progressistas. Não acredito que os desafios que enfrentamos possam ser explicados apenas pelo avanço da extrema-direita ou pela desinformação. Precisamos reconhecer que, em alguns momentos, não fomos capazes de dialogar suficientemente com a sociedade. Não basta governar bem, é preciso fortalecer as instituições, formar novas lideranças e criar vínculos permanentes com a sociedade. E continuo acreditando que vale a pena lutar. Acredito que o futuro das forças progressistas dependerá da capacidade de reconstruir a confiança da sociedade, do fortalecimento da democracia e, sobretudo, colocar novamente a dignidade humana, a redução das desigualdades e os direitos das mulheres no centro do projeto político. •
Publicado na edição n° 1423 de CartaCapital, em 29 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘“Vale a pena lutar”’
2026 já começou
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.
Assine ou contribua com o quanto puder.


