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Irã, Estados Unidos e Israel mergulham em nova espiral de ataques

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Fora de controle. O primeiro-ministro de Israel ignora os apelos do presidente dos EUA e mantém agenda própria. O Irã responde às agressões da dupla – Imagem: Fadel Itani/AFP e Daniel Torok/Casa Branca Oficial
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Os Estados Unidos acusaram a Guarda Revolucionária do Irã de ter abatido, na noite de segunda-feira 8, um helicóptero de ataque Apache, com dois tripulantes a bordo. A aeronave foi atingida por um drone iraniano quando patrulhava o Estreito de Ormuz. O piloto e o copiloto foram resgatados com vida por uma embarcação norte-americana não tripulada, num dos mais graves incidentes desde a decretação de um precário cessar-fogo entre os dois países, há dois meses. Na véspera, mísseis iranianos tinham sido disparados mais uma vez contra Israel. O governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu disse ter interceptado os ataques dirigidos contra duas de suas bases militares. A ação do Irã foi um claro aviso de que qualquer bombardeio israelense sobre Beirute e arredores, no vizinho Líbano, terá resposta parecida daqui em diante.

Os dois acontecimentos recentes mostram a volatilidade do cessar-fogo que Donald Trump insiste em dizer que vigora em uma região que, na verdade, segue conflagrada. Desde os ataques norte-americanos e israelenses contra o Irã, em 28 de fevereiro, é como se Trump e Netanyahu tivessem aberto uma caixa da qual forças incontroláveis saíram, e para a qual não querem voltar. Essas forças estão ligadas aos interesses de um regime iraniano que, desde fevereiro, passou a viver sob ameaça existencial iminente. Se forem derrotados agora, os clérigos que governam o Irã desde 1979, assim como os comandantes da Guarda Revolucionária, simplesmente deixarão de existir. E a única forma de conter esse risco, acreditam, é acelerar um programa atômico que tanto os Estados Unidos quanto Israel consideram inaceitável.

O impasse alimenta a espiral de um conflito sem fim à vista. A derrubada do helicóptero dos Estados Unidos foi respondida dois dias depois com uma série de disparos de mísseis contra alvos do Irã. Os norte-americanos dizem ter visado radares, baterias antiaéreas e outros alvos militares estratégicos, mas o Irã afirma que a destruição se deu entre usinas de dessalinização de água e outras estruturas civis.

Trump busca impedir que Netanyahu retalie os iranianos da mesma forma. Para ele, Israel precisa ser mais comedido em suas ações e reações contra os vizinhos, em vez de seguir escalando as agressões e respostas. “Estamos perto de um acordo de paz final com o Irã. Eu não quero estragar tudo por causa do que está acontecendo agora”, declarou em relação à nova rodada de agressões entre Israel e Irã. Segundo o presidente norte-americano, vai ser difícil convencer um primeiro-ministro aliado que faz da guerra o motor de sua sobrevivência política. Israel passará por eleições até o fim do ano e Netanyahu não pretende deixar o poder. Para que a sua coligação consiga reunir os votos necessários para construir maioria, é preciso manter viva a coesão nacional que só uma política de guerra permanente proporciona.

Trump disse que Netanyahu “não tem opção”, a não ser a de aceitar o acordo que os Estados Unidos sejam capazes de alcançar com o Irã. O problema é, no entanto, que, para o Irã, não há acordo bilateral com os Estados Unidos que exclua das negociações o fim dos ataques israelenses contra seu principal aliado na região, o grupo armado xiita libanês Hezbollah. Esse emaranhado de interesses cruzados mostra que o objetivo de Trump e Netanyahu tem se tornado mais divergente hoje do que foi no início da guerra. Se para Netanyahu o espírito de mobilização nacional alimenta sua campanha, no caso de Trump é o oposto – as pesquisas mostram que 60% dos eleitores norte-americanos consideram a guerra um mau negócio. A popularidade do republicano caiu 22 pontos porcentuais desde o início do segundo mandato. Hoje, o trabalho de Trump como presidente é desaprovado por 60% e a maioria dos apoiadores querem o fim do conflito que não traz resultados visíveis e só faz aumentar o preço do petróleo.

Trump não consegue conter o ímpeto do aliado Netanyahu

A cada semana, o presidente dos EUA tem vindo a público dar reiteradas garantias retóricas de que as negociações com os iranianos avançam bem, e que um acordo definitivo está a poucos dias de ser alcançado. Na prática, o que acontece é o contrário: o Irã mantém não apenas uma postura desafiadora em suas declarações, mas segue atacando unidades militares e embarcações civis no Estreito de Ormuz e também em países do Golfo Pérsico que abrigam bases norte-americanas, como nos casos do Kuwait e Bahrein.

A postura de confronto irredutível do Irã é baseada no cálculo de que Trump precisa encerrar esta guerra o quanto antes possível, sob risco de que sua impopularidade crescente resulte numa derrota nas eleições legislativas daqui a apenas cinco meses. O quadro eleitoral desfavorável poderia pressioná-lo a aceitar um acordo desvantajoso que se traduziria em três elementos centrais: a permanência do regime iraniano no poder, a manutenção do programa atômico iraniano, mesmo que contido por mecanismos como moratórias e inspeções, e o fim das ações de Israel contra o Hezbollah.

O oposto também pode ocorrer. Se for pressionado demais pelas exigências iranianas e sentir que não há tempo hábil para uma saída honrosa antes das eleições de meio de mandato, Trump pode partir para uma retaliação total, voltando à ameaça superlativa de “apagar a civilização iraniana”. Mostra disso foi dada na quarta-feira 10, quando o presidente norte-americano disse sobre os iranianos: “Eles estão demorando muito para negociar um acordo que teria sido ótimo para eles. Agora terão de pagar o preço”.

Com o urânio em mãos e o Estreito de Ormuz fechado, o Irã acredita estar entrincheirado em uma posição forte, ainda que estanque. Do ponto de vista de Teerã, a mera sobrevivência do regime é vitória suficiente, pois, ao contrário dos líderes de Israel e dos Estados Unidos, os aiatolás não têm eleição nenhuma a ganhar. •

Publicado na edição n° 1417 de CartaCapital, em 17 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Tudo de novo’

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