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Trump foi do bolsonarismo à amizade com Lula no primeiro ano
Retorno do republicano à Casa Branca teve tarifaço, Lei Magnitsky e sanções a Alexandre de Moraes. Relação deu guinada após encontro com presidente brasileiro na ONU
Do tarifaço ao convite para debater a paz no Oriente Médio, o primeiro ano do segundo mandato do presidente Donald Trump à frente dos Estados Unidos foi quase do inferno ao céu na relação diplomática com o governo brasileiro.
O republicano começou a gestão atual, em 20 de janeiro de 2025, afirmando que não “precisava do Brasil” e criticou o Brics por um plano de moeda comum. Alinhado política e ideologicamente com o bolsonarismo, Trump saiu em defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje preso em Brasília, e ordenou, em julho, um tarifaço sem precedentes que abalou a parceria econômica de mais de dois séculos entre ambos os países.
As sobretaxas impostas pelos Estados Unidos chegaram a 40% e 50% sobre setores estratégicos da pauta de exportações brasileira, incluindo aço, carnes, produtos do agro e bens industriais. O governo americano justificou as tarifas alegando “emergência econômica” e acusando o Judiciário brasileiro de perseguir Bolsonaro.
Um dos filhos do ex-presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), que vive nos EUA desde o início do ano, teria agido como interlocutor junto a representantes trumpistas para mobilizar a sobretaxação. O parlamentar agradeceu, nas redes sociais, ao presidente dos EUA pela imposição das medidas.
O tarifaço gerou baques econômicos. Em setembro de 2025, as exportações brasileiras para o mercado americano registraram uma queda de até 20% em relação ao mesmo mês do ano anterior, segundo dados do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC).
Por outro lado, a sobretaxa também afetou os consumidores americanos, que viram os preços médios do café subir em mais de 40% nos primeiros nove meses do ano passado, de acordo com levantamento do Bureau of Labor Statistics.
Politicamente, foi em julho que as tensões entre Trump e o Brasil atingiram o ponto mais alto. Além das medidas tarifárias, o governo americano sancionou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), com base na Lei Magnitsky, usada para punir unilateralmente supostos violadores de direitos humanos no exterior. O ministro e seus familiares tiveram bens e ativos bloqueados e ficaram impedidos de utilizar cartões de crédito de bandeiras como Mastercard e Visa.
Mudança de rumo
Mas o jogo virou na reta final do ano. Em setembro, alguns dias após a condenação de Bolsonaro pelo STF, um rápido encontro com Lula nos corredores da sede da ONU em Nova York, sinalizou um reinício nas relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos. “Gostei dele”, afirmou o presidente americano, durante um discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, ao se referir ao petista, instantes depois de criticar o Brasil na mesma fala.
Uma reunião oficial entre os dois líderes ocorreu semanas depois, à margem de compromissos internacionais, e abriu caminho para negociações técnicas entre os ministérios da Fazenda e do Comércio dos dois países. Sob forte pressão de empresários americanos, preocupados com o impacto inflacionário das tarifas, a Casa Branca iniciou um recuo gradual. Em novembro, a maior parte das sobretaxas impostas ao Brasil foi suspensa ou praticamente zerada, com ampliação de exceções para produtos como carne bovina, café, suco de laranja e aeronaves da Embraer.
“Estamos bem, não há por que ter divergência”, afirmou Lula em dezembro, após uma nova conversa telefônica com Trump. Na ocasião, o presidente brasileiro destacou o contraste entre o discurso público e o trato pessoal do americano. “Temos o Trump da televisão e o da vida pessoal”, disse. Segundo ele, o republicano é bem mais afável pessoalmente.
O americano, por sua vez, se limitou a poucos comentários quando ficou sabendo que Bolsonaro havia sido preso, em 22 de novembro, por risco de fuga e violação de tornozeleira eletrônica. “É uma pena”, disse Trump, ao ser informado da prisão, que foi determinada por Moraes.
No fim do ano, a sanção ao ministro do STF pelo governo americano também foi revogada. Desde 12 de dezembro, Moraes e sua esposa, Viviane Barci de Moraes, estão fora da lista da Lei Magnitsky. O fim dos bloqueios ao jurista foi, segundo Lula, um pedido dele ao colega americano, que tinha justificado a medida afirmando que Moraes autorizava prisões arbitrárias e agia contra a liberdade de expressão no Brasil.
Os próximos capítulos
Ao menos diplomaticamente, o Brasil voltou ao radar dos Estados Unidos. Nesta semana, Washington convidou Lula para fazer parte de um “conselho de paz” para a resolução de conflitos no mundo, incluindo a situação da Faixa de Gaza, da qual farão parte o secretário de Estado americano, Marco Rubio, e o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.
Líderes de cerca de 60 países teriam sido convidados, incluindo o russo Vladimir Putin, o turco Recep Tayyip Erdoğan e o argentino Javier Milei. O Brasil ainda não confirmou se participará da cúpula, dados os riscos políticos, já que o grupo é visto, por críticos, como uma plataforma paralela à ONU.
Ou seja, a virada de chave na relação diplomática não implicou alinhamento automático, ao menos no discurso. Na última semana, Lula criticou o governo dos Estados Unidos após a intervenção militar americana na Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro. Em artigo publicado no jornal The New York Times, o chefe do Executivo brasileiro afirmou que “o Hemisfério Ocidental pertence a todos nós” e classificou o uso da força pelos Estados Unidos como “particularmente preocupante”. Trump, no entanto, não foi mencionado. Na Organização dos Estados Americanos (OEA), o Brasil classificou a operação como sequestro de Maduro.
Já os brasileiros que vivem nos Estados Unidos passam por uma situação bem diferente da vivenciada entre os líderes de ambos os países. Só em 2025, o governo Trump, que tem como um dos principais pilares a retórica anti-imigração, enviou 37 aviões com deportados ao Brasil, totalizando 3.200 pessoas, segundo dados da Polícia Federal e do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania. O número é quase o dobro de 2024, quando 1.648 foram mandados de volta ao Brasil.
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