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Tiros no salão

Donald Trump se esforça para capitalizar mais um atentado frustrado contra a sua vida

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Lobo solitário. Allen expôs os motivos do ataque em um e-mail. Trump aproveitou para defender seus planos de reforma na sede do governo dos EUA – Imagem: Mandel Ngan/AFP e Redes Sociais Donald Trump/AFP
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Autor da tentativa de atentado, cujos detalhes ainda nebulosos carecem de explicações, Cole Tomas ­Allen foi indiciado na segunda-feira 27 por um tribunal federal em Washington. As acusações contra o californiano de 31 anos podem render-lhe prisão perpétua. Na noite de sábado 25, Allen transformou o jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca em minutos de pânico. Correu com uma espingarda de calibre 12 e uma pistola calibre 38 em direção ao último posto de segurança do Washington Hilton Hotel, a poucos metros do salão no qual Donald Trump discursava. Após atingir um agente do Serviço Secreto no peito, que recebeu alta na mesma noite, o atirador acabou imobilizado, enquanto o presidente, o vice e outros integrantes do governo eram retirados às pressas do evento.

Morador de Torrance, na região de Los Angeles, Allen é engenheiro de computação e tutor de ensino médio, sem antecedentes criminais, com vida relativamente estável. Tinha emprego, amigos, vínculos familiares e admiração de ex-professores. Nada que, à primeira vista, indicasse a intenção de atravessar o país para cometer um atentado em um hotel lotado de autoridades e agentes secretos. Nas redes sociais, alternava comentários sobre tecnologia, cultura pop e vida acadêmica com postagens cada vez mais obcecadas por Trump. A queixa criminal mostra que o professor comprou legalmente as duas armas na Califórnia e, em abril, organizou meticulosamente a viagem a Washington: primeiro de trem de Los Angeles a Chicago, depois outro trem até a capital. E fez a reserva no hotel três semanas antes de tentar invadir o jantar.

Minutos antes dos disparos, Allen programou um e-mail para ser enviado, um documento que o FBI anexou à acusação sob o título Apology and Explanation (“Pedido de Desculpas e Explicação”, em português). A carta é um misto de manifesto político e planejamento operacional. Nela, o atirador pede desculpas aos pais por ter inventado uma “entrevista”, a colegas e estudantes por alegar uma emergência, a passageiros de trem e funcionários de hotel por têlos colocado em perigo “simplesmente por estar perto”. Em seguida, revela o que o levou a cometer o crime: “Como cidadão norte-americano não estou mais disposto a permitir que um pedófilo, estuprador e traidor lave minhas mãos com seus crimes”. O texto diz ainda que esta era a primeira oportunidade real de “fazer algo a respeito” e listou “funcionários da administração do mais alto ao mais baixo escalão” como alvos legítimos.

No domingo 26, Trump falou sobre os riscos de ser presidente. “Ninguém me contou que isso era uma profissão tão perigosa. Se o Marco (Rubio) tivesse me avisado, talvez eu não tivesse concorrido. Não consigo imaginar outra profissão mais perigosa, mas estou aqui para fazer um trabalho e isso faz parte.”

O republicano pede pressa na construção do salão de baile na Casa Branca, obra embargada pela Justiça

Embora representantes dos partidos Democrata e Republicano tenham sofrido ataques nos EUA, Trump é o alvo mais notório da violência política recente no país. Em 13 de julho de 2024, durante comício na Pensilvânia, o atirador Thomas Matthew Crooks, de 20 anos, abriu fogo de um telhado e atingiu de raspão a orelha do então candidato. Crooks foi morto por agentes do Serviço Secreto. Meses depois, a ameaça se deslocou para um de seus redutos privados. No condomínio de Mar-a-Lago, Ryan Wesley Routh, 59 anos, escondeu-se entre arbustos com um rifle e esperou a passagem de Trump para atirar, mas foi surpreendido por um agente, preso horas depois e condenado à prisão perpétua no início do ano.

A sequência de ataques violentos contra Trump não reproduz apenas a imagem de um presidente sitiado, mas alimenta a desconfiança de quem enxerga, em cada novo episódio, uma oportunidade política. Um dia antes dos tiros no Washington Hilton

Hotel, o jornal The New York ­Times revelou que a Clark Construction, empreiteira escolhida para estar à frente das obras no salão de baile, havia recebido em janeiro um contrato secreto e sem licitação para reformar duas fontes no ­Lafayette ­Park, em frente à Casa Branca, por 17,4 milhões de dólares, cinco vezes mais que a estimativa feita na gestão de seu antecessor Joe Biden. Em 31 de março, o salão de baile que Trump tanto quer erguer e está orçado em cerca de 400 milhões dólares, teve seu projeto embargado por um juiz federal, que determinou a necessidade de autorização do Congresso para qualquer avanço acima do solo. Poucas horas após a tentativa de invasão no jantar, foi por esse salão que Trump evocou em um texto indignado na Truth Social: “Este evento jamais teria acontecido com o salão de baile militarmente ultrassecreto atualmente em construção na Casa Branca. Ele não pode ser construído rápido o suficiente!”, e exigiu que a ação judicial contra o projeto fosse “imediatamente” arquivada.

Desde então, o debate sobre o incidente de sábado 25 se divide entre aqueles que viam na escalada de violência o retrato de um país polarizado e os que suspeitavam que, diante do desgaste nas pesquisas, o governo estivesse explorando ou, no limite, instrumentalizando cada novo “susto” para justificar obras bilionárias e pedir mais poderes em nome da segurança. “Já houve algum presidente com tantas ‘tentativas’ próximas contra a sua vida? Talvez sejam leis de armas frouxas, talvez seja a falta de financiamento em saúde mental ou talvez seja falso… quem sabe…”, sugeriu a deputada democrata ­Jasmine Crockett em uma publicação no X.

A teoria da conspiração não traduz a linha oficial do Partido Democrata, que condenou o ataque e evita sugerir armação, mas captura a erosão de confiança em torno de um governo que parece viver de crise em crise e, ao mesmo tempo, capitalizar cada uma delas. Não é um detalhe: às vésperas do jantar, uma pesquisa Reuters/Ipsos registrou uma aprovação de 36% ao governo Trump e 62% de rejeição. Visto desse ângulo, o tiroteio no Hilton entra menos como evento isolado e mais como peça de um tabuleiro onde o medo, as obras bilionárias e um presidente fragilizado nas pesquisas disputam o mesmo centro da violência política que não é apenas moralmente indefensável, mas um erro tático grosseiro que quase sempre sabota as causas que afirma defender. •

Publicado na edição n° 1411 de CartaCapital, em 06 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Tiros no salão’

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