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TACO com kebab
Donald Trump recua pela quarta vez de um ultimato e tenta fazer uma derrota relativa passar por vitória absoluta
A morte de “uma civilização inteira” foi adiada por tempo indeterminado. Na terça-feira 7, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recuou pela quarta vez de um ultimato dado ao Irã e estabeleceu um novo prazo, de duas semanas, para um acordo definitivo. O novo recuo levou as redes sociais a serem inundadas com referências à sigla que resume a inconstância do republicano, neste e em outros temas: TACO, Trump Always Chickens Out, ou Trump sempre amarela, em tradução livre.
O melhor cenário que o presidente dos EUA conseguiu produzir, após quase 40 dias de conflito, não é melhor do que existia antes. Depois de bilhões de dólares gastos em armas e munições, além de milhares de vidas perdidas, o que se tem sobre a mesa é algo pior em termos de garantias mútuas do que havia antes do início do conflito. Trump anunciou, no entanto, o recuo como se fosse avanço. Fiel a seu modo superlativo de se comunicar, coloca ultimatos grotescos que, além de não serem cumpridos, terminam devolvendo as negociações a um estágio anterior, em condições ainda mais degeneradas do que a diplomacia conseguiria produzir.
E nem está claro se o cessar-fogo provisório irá prosperar. Na quarta-feira 8, menos de 24 horas depois do anúncio, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou que a trégua havia sido violada por conta dos bombardeios a duas ilhas do país, Lavan e Siri.
As condições de negociação pioraram desde o início do conflito
O Paquistão tem atuado como mediador nessas seguidas idas e vindas. O último capítulo do ziguezague protagonizado por Trump resultou, na verdade, em ao menos dez exigências iranianas, dentre as quais aquela de manter relativo controle sobre o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do comércio mundial de petróleo. Antes da guerra, não havia impedimento para a circulação no estreito. Agora, o Irã só deixa navegar embarcações de aliados. E dá sinais de que no futuro buscará compensações financeiras na forma de algum tipo de pedágio, para ressarcir perdas causadas por uma guerra originalmente ilegal.
Além de ter demonstrado capacidade de estrangular um ponto vital do comércio mundial, o Irã também continua a manter em seu poder todo o urânio enriquecido que, teoricamente, estava na origem do imbróglio. Os Estados Unidos e Israel temem que os iranianos possam desenvolver uma bomba atômica – como a que, aliás, ambos já têm. Nenhum relatório dos inspetores das Nações Unidas apontou até hoje nessa direção, mas ninguém confia cegamente na tese de que o Irã não queria mesmo desenvolver um programa atômico com fins militares no futuro, sobretudo depois das agressões sofridas no último mês.
Até 2015, havia um acordo por meio do qual o urânio usado no Irã para fins civis era enriquecido no exterior. Isso tornava impossível a conversão do estoque para a construção de uma bomba atômica. Trump atacou esse acordo em seu primeiro mandato, e o levou ao fim em 2018. Agora, depois de todas essas reviravoltas bélicas, está novamente na mesa de negociações, tentando arrancar dos iranianos algo ao menos comparável ao que havia dez anos atrás.
Controle. O governo iraniano não descarta a criação de um pedágio no Estreito de Ormuz para financiar a reconstrução da infraestrutura – Imagem: L. P. Contreras
O vice-presidente norte-americano, JD Vance, referiu-se ao novo prazo, de duas semanas, como uma “trégua frágil”. Ele e outros integrantes do gabinete do presidente tentam passar a imagem de que Trump é incontrolável, e que, se não for atendido em suas demandas imperativas, pode reagir de forma irracional, como atesta a ameaça de simplesmente acabar com a civilização iraniana, de maneira que ela jamais pudesse ser reconstruída.
Outro falcão do gabinete, o ministro da Guerra, Pete Hegseth, continua a ressaltar a importância de tomar o urânio enriquecido que o Irã possui. Sem isso, o mais provável é que esse estoque volte a ser assunto de uma nova rodada de agressões no futuro, uma vez que a desconfiança perdura. O atual capítulo deste conflito é, aliás, o retorno de um assunto mal resolvido em 2025, quando norte-americanos e israelenses juraram ter “obliterado” o programa nuclear do Irã depois de uma série de bombardeios às usinas atômicas do país persa.
O urânio e o medo de uma bomba atômica serviram de pretexto para que, por mais de um mês, Tel-Aviv e Washington atacassem deliberadamente a infraestrutura de seus inimigos. Pontes e viadutos, assim como refinarias e usinas de geração de energia e de filtragem de água potável, foram pulverizados por bombardeios. Pela lei, ataques deliberados contra estruturas civis são proibidos, mas não há muito que o direito internacional possa fazer em relação a dois chefes de Estado politicamente protegidos e inalcançáveis por tribunais.
A impunidade judicial não encerra, no entanto, essa questão, pois o desgaste moral causado pelo comportamento de Trump e de Benjamin Netanyahu também gera uma conta, que não é barata. No caso de Israel, a acusação de genocídio na Faixa de Gaza, apresentada à Corte Internacional de Justiça pela África do Sul, parece cada vez mais verossímil, enquanto a expansão territorial na direção da Cisjordânia e do Líbano reforçam as suspeitas de que o argumento de legítima defesa pode não passar de disfarce para novas anexações ilegais. Neste caso, o efeito recai numa opinião pública internacional que tende a relativizar sua simpatia por um país povoado originalmente por vítimas do Holocausto, sobre as quais pesam agora acusações gravíssimas de comportamento inumano.
No caso dos Estados Unidos, o preço pode ser pago em votos. Trump enfrenta uma eleição difícil em novembro, na qual colocará em jogo a maioria do Congresso. Sua ameaça explícita de genocídio no Irã não pegou bem nem mesmo entre aliados. Desde o início da guerra, expoentes radicais do movimento MAGA vinham criticando a postura intervencionista do republicano, que, na visão deles, traía uma cara promessa de campanha de que este mandato seria dedicado a tirar os Estados Unidos de guerras percebidas como inúteis e focar a atenção em assuntos morais, econômicos e políticos domésticos.
A ameaça explícita de genocídio no Irã dividiu a base de Trump
A traição de Trump às suas bases refletiu-se em crescimento no índice de impopularidade. Mais que isso, a ameaça de acabar com a civilização iraniana provocou um movimento raríssimo no Congresso, onde parlamentares republicanos passaram a reprovar publicamente o discurso do presidente, como no caso do senador Ron Johnson: “Eu não quero começar a nos ver explodindo infraestrutura civil”, o que, segundo ele “seria um erro gigantesco”.
Figuras influentes do movimento MAGA, como a ex-deputada conspiracionista Marjorie Taylor Greene e o ex-âncora da Fox News Tucker Carlson, foram ainda mais assertivos nas críticas. “Não podemos matar uma civilização inteira”, disse ela, enquanto Carlson afirmou ser a “hora de dizer absolutamente não” a Trump.
A imagem de um líder violento, impulsivo e irracional é conveniente à estratégia maximalista de Trump, mas o efeito dessa forma agressiva de negociação pode ter encontrado seu limite no caso do Irã. O regime permanece de pé, a oposição não tomou o poder, o urânio não foi entregue e o estreito está fechado, enquanto mísseis e foguetes continuarão a ser lançados contra bases norte-americanas no Golfo Pérsico, caso a trégua de duas semanas não ponha fim ao impasse.
Nenhum desses elementos pode ser apresentado por Trump como indicadores de uma vitória definitiva. Se é verdade que os Estados Unidos conseguiram matar o agora ex-líder supremo do Irã, Ali Khamenei, além de aniquilar boa parte da máquina militar de seus inimigos, por outro lado os iranianos continuam altivos e engajados num tipo de resistência que, para mostrar resultados, só precisa seguir existindo.
À medida que o impasse persiste no Irã, a guerra segue se desdobrando em outros fronts, que envolvem suas próprias dinâmicas, como no caso do Líbano, onde Netanyahu movimenta tropas para ocupar o sul do país vizinho, chegando até a capital, Beirute. O alcance das negociações mediadas pelo Paquistão parece ser curto demais para dirimir, numa só tacada, os impasses com Teerã e as questões ancestrais que dizem respeito às disputas de Israel com seu entorno. •
Publicado na edição n° 1408 de CartaCapital, em 15 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘TACO com kebab ‘
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