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Sobre os interventores externos

A maior tragédia dos afegãos tem sido a sucessão de interventores externos ao longo dos tempos. Para não recuar muito mais, a República Democrática do Afeganistão governou o país entre 1978 e 1992, quase sempre sob a liderança do partido comunista. Este governo teve de […]

(Foto: Ricardo Stuckert)
(Foto: Ricardo Stuckert)
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A maior tragédia dos afegãos tem sido a sucessão de interventores externos ao longo dos tempos. Para não recuar muito mais, a República Democrática do Afeganistão governou o país entre 1978 e 1992, quase sempre sob a liderança do partido comunista. Este governo teve de enfrentar a guerrilha dos mujahidin, apoiados pelos EUA, Paquistão, Irã, Arábia Saudita, China e Inglaterra. O incremento da guerrilha forçou a retirada dos russos em 1989 e um saldo de mortes de cidadãos locais semelhante ao da invasão e retirada dos EUA (entre 150 mil e 180 mil no primeiro caso, e cerca de 200 mil no segundo, ainda que, em ambos, os números pequem por defeito). Seja como for, morreram bem menos norte-americanos (perto de 5 mil) do que russos (cerca de 30 mil).

Não se pode comparar a reação externa às duas invasões. Basta recordar que os EUA impuseram sanções e embargos aos russos e até lideraram o boicote dos Jogos Olímpicos de Moscou em 1980. Nada disso ocorreu com a invasão norte-americana, que não só contou com forte consenso internacional, como teve a colaboração de aliados da Otan, da Austrália e da Nova Zelândia. Depois da vitória dos rebeldes, veio a guerra civil e, em 1992, o Taleban conquistou o poder, um grupo com o qual os EUA mantinham negociações ao longo dos anos e continuaram a ter depois de 2001. A parcela do Afeganistão acordada para ficar sob controle dos EUA foi a região de Cabul e o governo nacional aí sediado, mas com pouca penetração no país.

Ao menos desde o século XVI é sabido que os invasores dissimulam sempre suas verdadeiras intenções e só atuam em benefício próprio. A expansão marítima europeia do século XV em diante foi legitimada pela missão de propagar a fé cristã. Sob a égide da Igreja Católica, o mundo a achar foi dividido entre Portugal e Espanha. Foi a Igreja que legitimou a submissão dos índios, ao declarar em 1537 (na bula Sublimis Deus, do papa Paulo III) que os índios eram seres humanos com alma e, portanto, não só necessitados, mas capazes de ser evangelizados. Sem pôr em causa a boa-fé dos muitos milhares de missionários que participaram nessa missão de salvar os índios para o outro mundo, sabemos bem que o objetivo era bem mais mundano: a salvação neste mundo dos europeus por via da prosperidade econômica que adviria do acesso às riquezas naturais do chamado Novo Mundo, cuja exploração foi feita à custa de mão de obra indígena e, depois, escravizada.

Entre as populações invadidas há sempre grupos que, por terem sido vítimas de assassinatos, explorações e discriminações por parte dos anteriores detentores do poder, saúdam a chegada dos invasores e depositam neles alguma esperança. A República Democrática do Afeganistão, de inspiração socialista e comunista, propunha-se a uma política progressista, preocupada com a reforma agrária e os direitos das mulheres. A resistência interna por parte dos mujahidin, contrários a tais políticas, acabou por provocar a invasão soviética em 1979. Com a invasão e a permanência dos soviéticos (1979-1989), dois grupos em particular tiveram razões para se regozijar: os democratas e as mulheres feministas. Pode parecer surpreendente o regozijo dos democratas, mas a verdade é que, nas eleições realizadas em 1988, boicotadas pelos mujahidin, houve esperança de uma reconciliação democrática, tendo ficado 50 lugares vagos no Parlamento para serem ocupados pelos mujahidin, caso decidissem partilhar o poder. Com a saí­da dos soviéticos, os democratas e as feministas foram o alvo privilegiado da perseguição. O argumento foi sempre o de terem colaborado com a força estrangeira.

Com a invasão promovida pelos Estados Unidos em 2001, houve igualmente grupos que depositaram alguma esperança na operação. Os EUA eram vistos como a pátria da democracia, o país mais desenvolvido do mundo e onde os direitos das mulheres eram garantidos. Mesmo que qualquer uma dessas caracterizações seja hoje problemática, a verdade é que a crença nelas estava muito difundida nessa região do mundo. Os grupos que mais esperança depositaram foram os democratas, as feministas e todos os que queriam maior desenvolvimento. Com a saída­ dos EUA e de seus aliados, o ciclo repete-se e vamos assistir a mais uma onda de refugiados do Afeganistão. As feministas vão ser as mais visadas e devem ser protegidas pela comunidade internacional.

Cidadãos e cidadãs de um país nunca devem confiar nas boas intenções do interventor estrangeiro. Suas verdadeiras intenções são sempre dissimuladas. Os invasores nunca buscam o bem do povo intervencionado, mas, antes, vantagens próprias. Confiar nos estrangeiros para promover agenda interna justa vai fazer com que, uma vez o invasor expulso, essa agenda, por mais nobre, fique desacreditada pela contaminação estrangeira. A experiência recomenda defender agendas progressistas a partir das forças e da cultura nacionais, pois só elas garantirão a sustentabilidade das vitórias.

Publicado na edição nº 1173 de CartaCapital, em 2 de setembro de 2021.

Boaventura de Sousa Santos

Boaventura de Sousa Santos
Doutor em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale e Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa.

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