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Sem retorno

Ao contrário de vários colegas, o geofísico Bill McGuire acha impossível evitar o colapso climático

Europa 40 graus. Os londrinos recorrem às fontes da capital inglesa e os portugueses estão há um mês a combater as chamas no interior do país - Imagem: Patricia Mello Moreira/AFP e Dan Kitwood/Getty Images/AFP
Europa 40 graus. Os londrinos recorrem às fontes da capital inglesa e os portugueses estão há um mês a combater as chamas no interior do país - Imagem: Patricia Mello Moreira/AFP e Dan Kitwood/Getty Images/AFP
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A publicação do último livro de Bill McGuire, ­Hothouse Earth (Estufa Terra), não poderia ser mais oportuna. Ele será folheado por clientes sufocados que acabam de suportar altas recordes de temperatura em todo o Reino Unido e agora enfrentam a perspectiva de semanas de seca para aumentar o desconforto.

E isso é só o começo, insiste Bill ­McGuire, professor emérito de riscos geofísicos e climáticos na University College London. Como ele deixa claro em sua descrição crua da catástrofe climática que se aproxima, ignoramos – há muito tempo – os claros avisos de que o aumento das emissões de carbono tem aquecido perigosamente a Terra. Agora vamos pagar o preço de nossa complacência na forma de tempestades, inundações, secas e ondas de calor que vão superar facilmente os extremos atuais.

O ponto crucial, argumenta ­McGuire, é que, agora, não é mais possível evitarmos um colapso climático peri­goso e abrangente. Passamos do ponto sem retorno, e podemos esperar um fu­tu­ro em que ondas de calor letais e temperaturas acima de 50°C serão comuns nos trópicos, onde os verões em latitudes temperadas serão in­va­ria­velmente quentes e onde os nossos oceanos estão destinados a se tornar quentes e ácidos. “Uma criança nascida em 2020 enfrentará um mundo muito mais hostil do que seus avós”, insiste McGuire.

A esse respeito, o vulcanólogo, que também foi integrante do Natural Hazard Working Group (Força-Tarefa de Desastres Naturais) do governo do Reino Unido, adota uma posição radical. A maioria dos outros especialistas climáticos ainda afirma que temos tempo, embora não muito, para alcançar reduções significativas nas emissões de gases de efeito estufa. Um rápido impulso para o zero líquido e a interrupção do aquecimento global ainda estão ao nosso alcance, dizem eles.

Um mundo mais quente e castigado por eventos extremos nos espera. Resta impedir a hecatombe da civilização

Tais afirmações são rejeitadas por ­McGuire. “Conheço muitas pessoas que trabalham na ciência climática que dizem uma coisa em público, mas outra muito diferente em particular. Com certeza, todos estão muito mais assustados com o futuro que enfrentaremos, mas não admitem isso em público. Chamo isso de apaziguamento climático e acredito que só piora as coisas. O mundo precisa saber como as coisas ficarão feias, para que possamos começar a enfrentar a crise.”

McGuire terminou de escrever ­Hothouse Earth no fim de 2021. Ele inclui muitas das temperaturas recordes que tinham acabado de afligir o planeta, incluídos os extremos que atingiram o Reino Unido. Poucos meses depois de terminar seu texto, e à medida que a data da publicação se aproximava, ele descobriu que muitos desses recordes já tinham sido superados. “Esse é o problema de escrever um livro sobre o colapso climático”, diz McGuire. “Quando é publicado, está desatualizado. É assim que as coisas caminham, muito rapidamente.”

Entre os recordes batidos durante a edição do livro estava o anúncio de que uma temperatura de 40,3°C foi atingida no leste da Inglaterra em 19 de julho, a mais alta registrada no Reino Unido. (A temperatura mais quente anterior no país, 38,7°C, foi em Cambridge, em 2019.) Além disso, o corpo de bombeiros de Londres teve de combater incêndios em toda a capital, com um deles a destruir 16 casas em Wennington, na Zona Leste de Londres. As equipes de lá tiveram de lutar para salvar a própria estação de bombeiros local. “Quem teria pensado que um vilarejo na periferia de Londres seria quase destruído por incêndios florestais em 2022?”, questiona McGuire. “Se este país precisa de um alerta, certamente é este.”

Normalmente instável. Os oceanos e mares ficam mais quentes e ácidos, enquanto serão mais comuns inundações como no Kentucky – Imagem: iStockphoto e Leandro Lozada/AFP

Incêndios florestais de intensidade e ferocidade sem precedentes também varreram a Europa, a América do Norte e a Austrália neste ano, enquanto chuvas recordes no Centro-Oeste causaram inundações devastadoras no Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos. “E, à medida que avançamos em 2022, já é um mundo diferente lá fora”, acrescenta o cientista. “Em breve será irreconhecível para todos nós.”

Essas mudanças salientam um dos aspectos mais surpreendentes do colapso climático: a velocidade com que os aumentos da temperatura média global se traduzem em clima extremo. “Basta olhar para o que tem acontecido com um mundo que aqueceu pouco mais de 1 grau”, diz ­McGuire. “Acontece que o clima está mudando para pior muito mais rápido do que foi previsto pelos primeiros modelos climáticos. Isto é algo que ninguém esperava.”

Desde o início da Revolução Industrial, quando a humanidade começou a bombear dióxido de carbono para a atmosfera, as temperaturas globais aumentaram pouco mais de 1 grau Celsius. Na reunião climática Cop26, em Glasgow, no ano passado, foi acordado que todos os esforços deveriam ser feitos para tentar limitar esse aumento a 1,5°C, embora para atingir essa meta tenham calculado que as emissões globais de carbono teriam de ser reduzidas em 45% até 2030. “No mundo real, isso não vai acontecer”, diz ­McGuire. “Em vez disso, estamos a caminho de um aumento de quase 14% nas emissões até essa data – o que quase, certamente, nos fará quebrar a barreira de 1,5°C em menos de uma década.”

E não devemos ter dúvidas sobre as consequências. Qualquer coisa acima de 1,5°C verá um mundo atormentado por intenso calor no verão, seca extrema, inundações devastadoras, colheitas menores, camadas de gelo derretendo rapidamente e aumento do nível do mar. Um aumento de 2ºC ou mais ameaçará seriamente a estabilidade da sociedade global, argumenta McGuire. Deve-se notar também que, de acordo com as estimativas mais esperançosas das promessas de redução de emissões feitas na Cop26, o mundo está a caminho de se aquecer entre 2,4°C e 3°C.

Quais as causas da inércia diante das evidências? Uma conspiração de ignorância, má governança e mentiras, diz o pesquisador

Dessa perspectiva, está claro que pouco podemos fazer para evitar o colapso climático que se aproxima. Em vez disso, precisamos nos adaptar ao mundo da estufa que está por vir e começar a agir para tentar impedir que uma situação sombria se deteriore ainda mais, diz McGuire.

Certamente, tal como está, a Grã-Bretanha – embora relativamente bem posicionada para combater os piores efeitos do colapso climático que se aproxima – enfrentará grandes dores de cabeça. As ondas de calor se tornarão mais frequentes, mais quentes e mais duradouras. Um grande número de casas modernas, minúsculas e mal isoladas no Reino Unido se tornarão armadilhas de calor, responsáveis por milhares de mortes todos os verões até 2050. “Apesar dos repetidos avisos, centenas de milhares dessas casas inadequadas continuam sendo construí­das todos os anos”, acrescenta o autor.

Quanto ao motivo da resposta tragicamente tardia do mundo, McGuire culpa uma “conspiração de ignorância, inércia, má governança, ofuscação e mentiras dos negacionistas da mudança climática, que nos fizeram caminhar como sonâmbulos até menos de meio grau do perigoso limite de 1,5ºC. Em breve, salvo algum tipo de milagre, vamos ultrapassá-lo”.

O futuro é sinistro por essa perspectiva, embora McGuire enfatize que, se as emissões de carbono puderem ser cortadas substancialmente no futuro próximo, e se começarmos a nos adaptar a um mundo muito mais quente hoje, poderemos evitar um futuro verdadeiramente calamitoso e insustentável. Os próximos dias serão mais sombrios, mas não desastrosos. Talvez não consigamos evitar o colapso climático, mas poderemos afastar etapas futuras que pareceriam um cataclismo climático suficiente para ameaçar a sobrevivência da civilização humana. “Este é um chamado à luta”, diz ele. “Então, se você sentir a necessidade de se colar a uma rodovia ou bloquear uma refinaria de petróleo, faça isso. Dirija um carro elétrico ou, melhor ainda, use o transporte público, caminhe ou ande de bicicleta. Mude para uma tarifa de energia verde, coma menos carne. Pare de voar, faça pressão junto aos seus representantes eleitos em nível local e nacional e use seu voto com inteligência para colocar no poder um governo que realmente atue sobre a emergência climática.” •


Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1220 DE CARTACAPITAL, EM 10 DE AGOSTO DE 2022.

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Robin McKie

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