Mundo
Sem misericórdia
A pobreza crônica na nação mais rica do planeta agrava-se no governo Trump
A maior paralisação do governo federal na história dos Estados Unidos foi encerrada na terça-feira 11, mas os impactos dos mais de 40 dias de interrupção dos serviços federais escancaram a penúria de uma grande parte da população. Em outubro, a administração de Donald Trump cancelou o relatório anual sobre insegurança alimentar, sob a justificativa de falta de recursos para a coleta de dados. O relatório, por décadas o principal termômetro da fome nos EUA, mostrou que, em 2023, aproximadamente 47 milhões de norte-americanos enfrentaram insegurança alimentar, número que inclui perto de 14 milhões de crianças, maior índice registrado desde 2014. O cenário agravou-se com as medidas adotadas por Trump desde o início do segundo mandato. O desmonte de proteções básicas inclui cortes significativos no financiamento do Medicaid e do Programa de Assistência Nutricional Suplementar (SNAP, na sigla em inglês), dois dos principais programas de assistência à saúde e à alimentação do país.
No auge da crise provocada pela paralisação federal, Trump reforçou sua posição. “Nenhum benefício do SNAP será pago até o governo reabrir.” A decisão de tratar 42 milhões de norte-americanos, aproximadamente 12,3% da população, que dependem do programa como peões políticos apenas desvelou suas prioridades. Para o republicano, o impasse orçamentário deu margem para iniciar o encerramento do que avalia ser “desperdício de dinheiro público”. “Os democratas estão sendo destruídos pelo shutdown porque estamos fechando seus programas, aos quais éramos contrários, e que nunca quisemos que acontecessem. Nós vamos fechá-los e não vamos deixar que eles voltem”, afirmou o presidente a jornalistas durante coletiva no Salão Oval.
O desmantelamento faz parte do reacionário “Projeto 2025”, que lista propostas para “endurecer requisitos de trabalho para a elegibilidade, eliminar flexibilidades estaduais e revogar as atualizações que aumentaram o valor dos benefícios”. Desde a aprovação da Lei Orçamentária One Big Beautiful Bill, em julho, democratas denunciam a agenda republicana como “uma escolha intencional e cruel” que amplia as desigualdades nos EUA, mas não poupa nas reformas milionárias e vulgares na Casa Branca. “O presidente Trump está disposto a deixar milhões e milhões de crianças, seus pais e avós passarem fome porque, talvez, veja nisso um ganho político”, publicou o senador Bernie Sanders em suas redes sociais. O governador da Pensilvânia, Josh Shapiro, criticou, por sua vez, a postura do vice-presidente. “JD Vance é um completo falso… Cortar o SNAP prejudica pessoas reais que dependem dele, especialmente crianças e idosos. É fácil falar grosso, mas o trabalho de verdade é manter programas como o SNAP fortes, e JD Vance falhou nisso.”
Em setembro, um estudo da Universidade Yale mostrou que a insegurança alimentar e a pobreza nos EUA aumentaram sob os impactos das políticas econômicas do governo Trump e, reforçadas pelas novas tarifas, deverão empurrar entre 650 mil e 875 mil norte-americanos para a pobreza até 2026. Os dados apontam ainda que a taxa de pobreza, que atingiu 10,4% antes da escalada tarifária, pode crescer para 10,7%, com as famílias de baixa renda entre as mais afetadas. O estudo mostra ainda que 375 mil crianças podem vir a fazer parte desse grupo, que já sofre com a falta de acesso a itens básicos. A piora não é apenas consequência da economia, mas do desmonte das políticas públicas de apoio a essa população.
A taxa deve subir de 10,4% para 10,7% da população, calculam especialistas
Dados sobre o uso do SNAP em 2025 mostram que o benefício é predominantemente utilizado em estados governados pelos democratas. Novo México (21,5%), Oregon (18,1%), Massachusetts, Nevada, Pensilvânia e Nova York lideram entre aqueles com maior porcentual de residentes inscritos no programa. As unidades da federação, que concentram grandes populações urbanas, apresentam uma demanda mais intensa pelos vales-alimentação, refletindo as especificidades sociais e econômicas dessas regiões metropolitanas. Estados majoritariamente republicanos, como Louisiana (17,5%), Oklahoma (16,9%) e Texas, também apresentam altos números de beneficiários.
Por ser do interesse político de todos, na calada da noite da segunda-feira 10, o esboço do Projeto de Lei de gastos federais foi desenhado no Senado entre republicanos e oito integrantes da bancada democrata. O texto inclui uma “disposição” para o financiamento integral dos benefícios do SNAP até o fim de setembro de 2026. Atualmente, os gastos anuais com o programa somam 106 bilhões de dólares, quase o dobro em termos reais desde 2008, quando os valores estavam em torno de 52 bilhões. Desde a recessão de 2008, o número de beneficiários cresceu 47% e o benefício médio subiu cerca de 30%, limitado a 188 dólares mensais por usuário, variando conforme o estado. São cerca de 6 dólares por dia para alimentação, valor abaixo do custo estimado para uma dieta saudável, o que coloca desafios às famílias que dependem exclusivamente do programa.
Não há dúvida de que o SNAP é a tábua de salvação para milhões que enfrentam a fome diariamente nos EUA. Quando o governo Trump pediu na Suprema Corte, na segunda-feira 10, que bloqueasse as decisões de tribunais inferiores que o obrigavam a pagar o valor integral dos benefícios de assistência alimentar, milhares de cidadãos se sensibilizaram e se mobilizaram para doar àqueles que dependiam dos recursos. Postos para receber doações foram criados em livrarias, feiras e escolas em diversas cidades do país. Ao mesmo tempo, pipocaram vídeos nas redes sociais nos quais supostos beneficiários eram flagrados em comportamentos considerados polêmicos, alimentando uma rede de controvérsias, tensões sociais e discussões sobre meritocracia. Como se programas como o SNAP ou o Medicaid refletissem bem mais do que as profundas divisões de desigualdade social, mas revelassem, sobretudo, as contradições de um país rico que resiste em proteger os mais vulneráveis. •
Publicado na edição n° 1388 de CartaCapital, em 19 de novembro de 2025.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Sem misericórdia’
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