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Secretária de campo nazista tenta fugir antes de julgamento de crimes do Holocausto

Aos 96 anos, Irmgard Furchner é acusada de ser cúmplice de 10 mil mortes entre os anos de 1943 e 1945

Agente policial olha para o relógio, à espera da senhora fugitiva. Foto: Markus Schreiber/POOL/AFP)
Agente policial olha para o relógio, à espera da senhora fugitiva. Foto: Markus Schreiber/POOL/AFP)

Era para ter começado nesta quinta-feira 30 um dos últimos julgamentos na Alemanha por cumplicidade em crimes nazistas. No entanto, o processo teve de ser adiado porque a acusada, de 96 anos, tentou fugir do lar de idosos em que mora. Irmgard Furchner trabalhou como secretária no campo de concentração Stutthof e é acusada de ser cúmplice de 10 mil mortes entre os anos de 1943 e 1945.

Na manhã desta quinta, quando deveria se apresentar ao tribunal, Irmgard Furchner pegou um táxi na casa de repouso em que vive e foi deixada em uma estação de metrô nos arredores de Hamburgo, afirmou Frederike Milhoffer, porta-voz do tribunal alemão de Itzehoe.

A fuga, segundo a revista alemã Der Spiegel, havia sido anunciada em uma carta escrita pela acusada ao presidente do tribunal, Dominik Gross, mas não teria sido levada a sério pela Justiça alemã.

A antiga secretária de 96 anos, que usa uma muleta ou andador para se locomover, foi encontrada horas mais tarde, quando um mandado de prisão já havia sido emitido em seu nome.

“Um médico definirá sua capacidade de ser presa e o tribunal determinará se o mandado de prisão pode ser executado ou se ela será poupada”, disse o porta-voz em uma coletiva de imprensa.

Luta contra o tempo para punir crimes nazistas

A tentativa de escapar do julgamento causou surpresa e consternação de quem aguardava por um dos últimos julgamentos por cumplicidade em crimes do Holocausto.

Desde 2011, quando a decisão contra o ex-guarda John Demjanjuk determinou um precedente legal inédito para punir quem trabalhou no mecanismo nazista, a Alemanha tem corrido contra o tempo para julgar colaboradores do regime de Hitler.

No entanto, o julgamento de réus cada vez mais velhos tem provocado polêmica. Nos últimos dez anos, a Alemanha condenou quatro antigos funcionários de campos nazistas por cumplicidade em crimes do Holocausto. Em 2020, o condenado foi um ex-guarda de 93 anos, incriminado por participar na morte de mais de 5 mil prisioneiros.

Efraim Zuroff, diretor do Centro Simon-Wiesenthal, uma das organizações que procura nazistas vivos, publicou em suas redes sociais, “saudável para fugir, saudável para ir para a prisão”.

Cúmplice em 10 mil mortes

Irmgard Furchner, que tinha de 18 a 19 anos na época do crime e mora em um lar de idosos perto de Hamburgo, será julgada por um tribunal especial por “cumplicidade no assassinato em mais de 10.000 casos”, de acordo com a acusação.

Única mulher envolvida no nazismo a ser julgada no país nas últimas décadas, ela é acusada de participar do assassinato de prisioneiros no campo de concentração de Stutthof, na Polônia atual, onde trabalhou como datilógrafa e secretária do comandante do campo, Paul Werner Hoppe, entre junho de 1943 e abril de 1945.

Neste campo de concentração, cerca de 65.000 pessoas foram assassinadas, entre elas, “prisioneiros judeus, partidários poloneses e prisioneiros de guerra soviéticos”, afirma a acusação.

O advogado Christoph Rückel, que há anos representa os sobreviventes do Holocausto, disse na estação pública de televisão regional NDR que ela havia “digitado as ordens de execução e deportação e as rubricado”.

Após o atraso de hoje, ainda não há data para a abertura do processo. As audiências, programadas para durar até junho de 2022, devem ser limitadas a algumas horas por dia.

O julgamento deve ser seguido pelo de um ex-guarda de 100 anos no campo nazista de Sachsenhausen, perto de Berlim.

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