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Saqueadores e fantoches

Trump toma o petróleo do país, sob aplauso dos amigos de Maduro

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De um sequestro nasceu uma lucrativa parceria. O republicano fica com o petróleo venezuelano, Delcy Rodríguez mantém o controle do país – Imagem: Daniel Torok/Casa Branca, Ronaldo Schimdt/AFP, Jim Watson/AFP e Juan Barreto/AFP
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na sexta-feira 28 ter alcançado um “acordo” com a Venezuela para “assegurar o controle majoritário” de 65 bilhões de barris de óleo bruto, o que equivale a um quinto da maior reserva de petróleo do planeta. Considerando que os norte-americanos invadiram militarmente a Venezuela em janeiro, depuseram e prenderam Nicolás Maduro e instituíram no lugar um governo marionete, liderado pela vice, Delcy Rodríguez, que governa sob estrito controle de Washington desde então, o tal “acordo” ao qual o republicano se refere só pode ser alcançado por dois motivos: foi imposto goela abaixo da população e contou com a anuência de uma burocracia estatal que, embora tenha chegado ao poder com um discurso de esquerda, tornou-se nos últimos anos uma matéria ideo­logicamente amorfa e adaptável às conveniências e à própria sobrevivência.

O “acordo” foi saudado não só por ­Rodríguez, mas pelo Partido Socialista Unido da Venezuela, legenda tanto de Hugo Chávez quanto de Maduro, que, em nota, expressou seu “pleno respaldo” ao plano que “prioriza os interesses nacionais”. A nota do PSUV vai na contramão do que Chávez disse quando ainda estava vivo e no cargo: o petróleo venezuelano não poderia nunca cair nas mãos dos Estados Unidos. Assim como ele, outro líder histórico do chavismo, Diosdado Cabello, ex-ministro do Interior e ex-presidente da Assembleia Nacional, sempre jurou de pés juntos que a soberania venezuelana seria mantida a todo custo diante do assédio norte-americano. Só que, uma vez o acordo anunciado, o mesmo PSUV ao qual todos eles pertencem optou por uma leitura absolutamente pragmática, ao dizer que o trato oferece “soluções reais para a reativação econômica e a recuperação dos serviços públicos”. O documento menciona ainda a injeção de recursos em uma economia combalida não apenas por anos de sanções e embargos, mas pelo duplo terremoto que, em 24 de junho, deixou mais de 6,5 mil mortos e milhares de desabrigados.

Rodríguez falou do “histórico acordo” em rede nacional de rádio e tevê, dizendo que o negócio “terá impacto significativo no renascimento da nação”. Para ela, o acerto é “produto do fortalecimento da relação entre a Venezuela e os Estados Unidos”, não de uma imposição neocolonial violenta, como grande parte das esquerdas, inclusive no Brasil, interpretaram. A presidente não se queixou de imposições externas, ao contrário, agradeceu nominalmente a Trump e ao secretário de Estado, Marco Rubio.

Os “chavistas” se adaptam às conveniências e se apegam à própria sobrevivência no poder. A oposição fica a ver navios

Por sua vez, a oposição venezuelana, que sonhava em finalmente chegar ao poder, depois da deposição e da prisão de Maduro, ficou a ver navios. Mais uma vez, Trump e Rubio preferiram fechar negócio com um governo fantoche em vez de criar condições para a líder oposicionista ­María Corina Machado ou Edmundo ­González Urrutía voltarem triunfantes a Caracas. Corina Machado tornou-se mundialmente conhecida por doar a Trump o Prêmio Nobel da Paz recebido em outubro. ­Urrutía diz ter vencido a eleição presidencial de julho de 2024, cujas atas finais nunca foram apresentadas por Maduro.

Com um governo fantoche nas mãos e um quinto das reservas de petróleo da Venezuela no bolso, Trump simplesmente descartou o movimento oposicionista venezuelano, que, por causa disso, passou a protestar em voz alta. Expoente da oposição, o economista venezuelano ­Ricardo Hausmann, que por anos arquitetou em parceria com os Estados Unidos a queda de Maduro, mandou uma mensagem pública a Trump: “Você decidiu usar o poder dos Estados Unidos não para libertar os venezuelanos, mas para se aliar aos nossos opressores”, em referência a Rodríguez e à cúpula do PSUV.

Hausmann argumentou ainda que o atual governo venezuelano nem sequer tem poder legítimo para celebrar esse acordo – e aqui entra um ponto nebuloso, que pode mandar o negócio por água abaixo. A rigor, o mandato cumprido por Rodríguez é contestável. Se, como os Estados Unidos dizem, Maduro era um ditador ilegítimo que se mantinha ilegalmente no poder, o mesmo então deve ser dito sobre a sua vice. No lugar dela, pela lógica de Washington e da Europa, quem deveria estar no poder é Urrutía, que teria vencido as últimas eleições presidenciais, contra Maduro. Além disso, com ou sem legitimidade, a presidente teria a obrigação de submeter o acordo à Assembleia Nacional, cujas composição e legalidade também são objeto de contestação há anos. Ou seja, existe a possibilidade de impugnação da validade do trato quando Trump e ­Rodríguez deixarem os respectivos cargos. Para um investimento de curto prazo, não seria problema, mas os contratos discutidos chegam a cem anos, o que agrega uma tremenda incerteza jurídica sobre a sua viabilidade. “Esse acordo é a síntese da atual situação da relação bilateral”, afirma a professora Carolina Pedroso, doutora em Relações Internacionais pela Unesp, cujo tema de pesquisa é exatamente o relacionamento entre Venezuela e Estados Unidos. Para ela, o acordo “consolida um ganha-ganha ideologicamente improvável, mas pragmaticamente possível, no qual o petróleo é dado em troca de sobrevivência política da ala hegemônica do chavismo, mesmo assentado sob um equilíbrio precário que, a depender da correlação de forças internas, tanto na Venezuela quanto nos EUA, pode mudar”.

Tanto Trump quanto Delcy, nota Pedroso, “conseguem vender para os respectivos públicos internos a narrativa de vitória e de que todos saem ganhando”, e isso é mais fácil de ser feito “quando se tem pouca ou nenhuma transparência”. A falta de transparência no acordo é, ­aliás­, o principal assunto interno na Venezuela agora, pois a Assembleia Nacional, de ampla maioria governista, aprovou na terça-feira 1º o acordo energético com os EUA, sem, no entanto, poder se debruçar sobre o inteiro teor do documento, que segue desconhecido. “Temos a obrigação de saber o que está escrito nas letras pequenas do contrato”, protestou o deputado Luis Emilio Rondón, do partido opositor Um Novo Tempo. •

Publicado na edição n° 1429 de CartaCapital, em 09 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Saqueadores e fantoches’

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