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Referendo sobre reeleição de Evo divide a Bolívia

O país vai às urnas decidir se o atual presidente poderá se candidatar ao quarto mandato em 2019

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De La Paz

Duas décadas no poder é o tempo a que pode chegar o presidente da Bolívia, Evo Morales, caso sua proposta de reforma constitucional seja aprovada pelos cidadãos do país e o atual mandatário vença as próximas eleições, marcadas para 2019.

Eleito pela primeira vez em 2005 e reeleito em duas oportunidades (2009 e 2014), o primeiro presidente de origem indígena da Bolívia quer a possibilidade de candidatar-se a um quarto mandato consecutivo e, para isso, precisa de maioria simples dos votos no referendo marcado para 21 de fevereiro.

Em ato político no início do ano, Evo mostrou-se otimista, ainda que levantamentos realizados por veículos de imprensa coloquem o “não” à frente nas pesquisas. “Vamos ganhar com o ‘sim’ em 21 de fevereiro. Vamos ganhar amplamente, isso não está em debate. O que fizemos em dez anos, não fizeram em 180”, declarou. Em recente viagem ao Brasil, Evo, cujos mandatos são considerados um sucesso, recebeu o simbólico apoio da presidenta Dilma Rousseff.

Contra a possibilidade de Evo buscar um novo mandato, a oposição une-se em um discurso que prega a defesa dos valores democráticos e aponta o que considera como fragilidades da atual gestão. “Estamos lutando para fortalecer a democracia e para isso a alternância é fundamental. Não é algo que diz a oposição boliviana, e sim lideranças como Lula, Mujica e o próprio Papa”, diz o senador Arturo Murillo, pertencente à Unidade Nacional (UN).

“Não se trata de uma luta política e sim de uma luta dos poderosos contra o povo. O governo usa o dinheiro de todos bolivianos para fazer campanha. Não há independência de poderes e, se o sim vencer, esse quadro vai se aprofundar. O melhor para a Bolívia é que vença o não”, diz. 

Para o partido de Evo, o Movimento ao Socialismo (MAS), dono da maior bancada do Congresso boliviano, é a mudança constitucional que vai proteger a democracia. “Nosso objetivo é garantir a democracia. Desde Evo, temos dez anos de avanços que não foram conseguidos em nenhum governo anterior” diz a deputada pelo departamento de La Paz, Lidia Patty.

“O povo é que vai decidir. Queremos manter a estabilidade social, econômica e política que foi conquistada”, afirma a parlamentar do MAS.

Constituição e economia

A atual Constituição da Bolívia, promulgada em 2009, prevê a possibilidade de apenas uma reeleição para o presidente. Em 2014, o Tribunal Constitucional da Bolívia autorizou Evo a entrar na disputa argumentando que os dois mandatos consecutivos aos quais teria direito só deveriam ser contados a partir da promulgação da atual Constituição, o que acabou tirando da conta a primeira eleição.

Agora, a proposta é mudar a Carta para permitir duas reeleições, e não apenas uma. Essas mudanças sequenciais são argumento da oposição contra Evo. “Não é correto modificar uma Constituição quando ela é nova e foi elaborada por esse próprio governo”, diz Murillo, o senador oposicionista. “Mudar as leis para beneficiar apenas duas pessoas é imoral”, afirma o parlamentar, referindo-se a Evo e ao vice-presidente Álvaro García Linera, também do MAS.

Para os situacionistas, importa mais o bom momento econômico e as conquistas sociais protagonizadas pelo projeto que administra a Bolívia desde o começo do século.

Dados recentes apontam crescimento médio de 5%, inflação controlada e diminuição do desemprego. “Não há ditadura, é o povo quem está o elegendo. Estamos crescendo, atraindo empresas, existem muitos programas sociais em desenvolvimento para agricultores, estudantes, crianças. O trabalho do presidente é indiscutível. Há outros líderes, mas Evo é quem tem que continuar e estamos apostando que vamos ganhar o referendo”, pontua Patty.

A população boliviana tem se mostrado bastante interessada no processo e cunha expressões com o nome do presidente que vão de Evolucion (evolução) a Evola (em referência ao vírus ebola). A última pesquisa realizada pela empresa Ipsos, durante o final de janeiro e início de fevereiro, mostra uma vantagem apertada do “não”, com 41% das intenções de voto, frente a 40% do “sim”, diferença que está dentro da margem de erro e aumenta e expectativa para a votação.

“Não é correto um governante esticar tanto seu mandato”, adverte a aposentada Dolly Calderón. A opinião é rebatida pela enfermeira Wilma Segovia. “Pela primeira vez na história de nosso país existe participação popular e queremos que isso continue”, diz.

O envolvimento de movimentos sociais também ganha relevância na discussão. Maior central sindical do país, reunindo trabalhadores de amplos setores, a central Obrera Boliviana apoia de forma incondicional a proposta de Morales.

Em menor número, mas com histórico de luta contra regimes autoritários, representantes da Plataforma de Lutadores Sociais Contra a Impunidade e por Justiça e Memória do Povo Boliviano criticam de forma enfática os objetivos do presidente. “O que está se tentando é um novo golpe, mas não vamos permitir. O povo está consciente”, afirma o líder do grupo, Julio Llanos Rojas.

A participação de funcionários públicos é outro ponto de polêmica. Ao passo que surgem denúncias de que os empregados do governo são obrigados a trabalhar pelo si, os governistas falam em compromisso político. “Ninguém é obrigado, eles agem por suas próprias decisões na defesa do nosso projeto. Estamos em um tempo de democracia”, diz Lidia Patty.

Enquanto isso, as ruas das cidades do país colorem-se com mensagens de apoio e de rechaço à proposta que parece dividir a Bolívia e que vai decidir seu futuro.

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