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Rede de extrema-direita desamantelada na Alemanha tinha conexões com o Brasil

Um dos militares reformados detidos na operação policial na semana passada, pertencente ao União Patriótica, costumava passar férias em Santa Catarina, no Brasil, onde tem duas empresas em operação

Membros do grupo extremista Reichsbürger foram presos na semana passada após planejar um ataque ao Parlamento alemão Foto: Boris Roessler / dpa / AFP
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Na semana passada uma mega-operação da polícia alemã revelou uma rede da extrema-direita que conspirava para tomar o poder no país. Seus planos, que muitos analistas consideram delirantes, mas que outros levam a sério, incluíam uma invasão do Bundestag, o Parlamento alemão, o corte de energia no país, provocando o caos, a derrubada do governo e a tomada do poder, além da renegociação com as potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial das fronteiras alemãs.

De início, foram detidas 25 pessoas, e outras 27 foram postas sob investigação, incluindo um autoproclamado príncipe de família aristocrática, militares reformados de alta patente das Forças Armadas e uma juíza e ex-deputada do Parlamento, filiada ao partido Alternative für Deutschland.

A rede deste grupo, intitulado de União Patriótica, se estendia por diversos estados alemães e tinha conexões internacionais, chegando, por via direta ou indireta, até o Brasil.

De acordo com o serviço de inteligência encarregado de investigações domésticas, o Bundesamt für Verfassungschutz (BfV), o União Patriótica faz parte de um movimento mais amplo, o Reichsbürger – Cidadãos do Império Alemão, que soma cerca de 21 mil membros ativos. Mas este movimento não chega a ser uma organização.

Na verdade, debaixo desta sigla se encontram inúmeras pequenas organizações disseminadas por todo o país. Seus membros, em geral, são do sexo masculino, têm 50 anos ou mais e defendem ideias antissemitas, além de manifestarem uma nostalgia do regime nazista, um culto às armas e, nos casos mais radicais, uma apologia à violência política.

O movimento ganhou mais força e amplitude a partir de 2020, ao lutar contra as medidas sanitárias implementadas durante a pandemia da Covid-19, incluindo a vacinação.

Infiltrações em orgãos de Segurança

Uma das maiores preocupações dos que investigam o movimento é sua infiltração em órgãos de Segurança, incluindo as Forças Armadas e a Polícia Federal. Entre 2018 e 2021, o BfV investigou 860 casos suspeitos de atividades de extrema-direita por membros dos órgãos de Segurança, concluindo que em 327 deles havia provas positivas a respeito. Entretanto, estimativas dentro do próprio BfV avaliam que o número de casos reais pode ser nove ou dez vezes maior.

Um dos casos mais sensíveis da infiltração de grupos de extrema-direita envolveu o comando antiterrorista de elite do Exército conhecido como KSK, Kommandos Specialkräfte – Comandos de Forças Especiais. Fundado em 1996, seu comandante foi forçado a renunciar em 2003 por denúncias de envolvimento com a extrema-direita alemã. E, em 2020, uma das quatro unidades do KSK foi inteiramente dissolvida pelo mesmo motivo.

Conexões com o Brasil

Um dos militares reformados detidos na operação policial na semana passada, pertencente ao União Patriótica, costumava passar férias em Santa Catarina, no Brasil, onde tem duas empresas em operação. Outros membros do grupo têm ligação com o movimento norte-americano e internacional conhecido como QAnon, presente hoje em mais de 70 países, incluindo o Brasil.

Entre outras teorias conspiratórias, o QAnon defende a ideia de que houve e há um complô contra o ex-presidente Donald Trump, e que ele é o único líder capaz de combater o tráfico internacional de crianças para práticas de prostituição infantil.

No Brasil, um dos grupos identificados com as campanhas do QAnon é o Pugnaculum, que divulga na internet posts favoráveis ao atual presidente brasileiro, bem como obras em e-book e artigos destinados aos por ele chamados de “patriotas brasileiros”.

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