Mundo
Radicalidade contra os radicais
Frente à extrema-direita, a esquerda precisa de um programa anticapitalista, afirma Raquel Varela
Diante de uma extrema-direita violenta, organizada pela burguesia e que percebeu o fim do pacto social do pós-Guerra, a esquerda precisa apresentar um programa radical, anticapitalista, capaz de transformar, de fato, o cotidiano dos cidadãos, defende a historiadora portuguesa Raquel Varela. Especialista em revoluções e no movimento operário, fundadora do jornal online Maio, apoiado por sindicatos e organizações sociais de seu país, a professora da Universidade de Lisboa critica não só a acomodação do campo progressista, mas o sectarismo de certas correntes. “Há uma esquerda profundamente institucional e simultaneamente fanática”, afirma na entrevista a seguir, concedida durante uma rápida passagem por São Paulo. A íntegra está no canal do YouTube de CartaCapital.
CartaCapital: Em que estágio está a expansão da extrema-direita na Europa?
Raquel Varela: Bem, para começar, não creio que estamos a viver o mesmo momento histórico dos anos 1930 do ponto de vista da base social do fascismo. Há, claro, um perigo em comum, a violência organizada. A Europa é o centro dessa ideologia contra os imigrantes, que não é nova no continente, nem sequer no mundo, mas ganhou dimensão com este exército industrial de reserva. Nunca tivemos tanta imigração em escala mundial. Mas não acho que possamos comparar as atuais com as correntes fascistas dos anos 30.
O fascismo atual tem base eleitoral, não social, avalia a historiadora portuguesa – Imagem: Renato Luiz Ferreira/CartaCapital
CC: Por quê?
RV: Hoje, a extrema-direita tem fundamentalmente força eleitoral, não base social. Elas se organizam por terem percebido que o pacto social acabou e vai haver um conflito de classe intenso. Desde a Segunda Guerra Mundial, o que aconteceu na Europa foi um calmo e frágil equilíbrio das lutas de classe. Mas isso morreu com a crise de 2008. O pacto de 1945 tinha acabado para a minha geração, da década de 70, 80. Agora acabou para todas. A burguesia se prepara para essa guerra por meio de uma política que passa pela Inteligência Artificial, a vigilância massiva, o estímulo a organizações de extrema-direita. Por isso, é um movimento com muito menos base social do que o fascismo e o nazismo tinham no início do século passado.
CC: Mas a direita radical, não a esquerda, captura a insatisfação popular.
RV: A esquerda aderiu de armas e bagagens à política da Democracia Cristã. Uma política assistencialista que não pugna pela emancipação dos trabalhadores, assentada na redistribuição de renda dos setores médios para os setores mais pobres. É profundamente institucional, ou seja, a toda hora tenta salvar as instituições da democracia burguesa que destruíram e têm destruído a vida das classes trabalhadoras. A mim não me surpreende nada que a esquerda esteja a perder e vai continuar a perder quando oferece como alternativa a regressão histórica que as classes trabalhadoras estão a viver, a defesa do regime que as esmagou. Em Portugal, a esquerda institucional passa a vida a falar das conquistas de Abril, as conquistas de Abril, enfim, isso eu estudei, dediquei grande parte da minha vida ao estudo da Revolução dos Cravos. É o momento mais bonito que estudei. Mas as conquistas de Abril, ou seja, as conquistas da revolução, não dizem nada a grande parte dos trabalhadores e dos seus filhos, pois eles, quando vão ao serviço de saúde, não são atendidos. A escola perdeu a qualidade. É um lugar onde se despejam crianças e jovens. As aposentadorias estão sistematicamente ameaçadas e falta habitação.
“Temos que saber reconstruir, nos escombros do pacto social (do pós-guerra), organizações do berço à cova. Uma política revolucionária”
CC: E como a esquerda recupera sua relevância?
RV: É a pergunta que todos queremos responder. Tenho um coração luxemburguês. Penso que temos que saber reconstruir, nos escombros do pacto social e do Estado social, organizações do berço à cova. A esquerda, em primeiro lugar, precisa ter uma política revolucionária, em vez de andar embrulhada em eleições, depois andar embrulhada e achar que os Parlamentos vão resolver alguma coisa, depois andar sempre a evocar o bicho-papão do voto útil em que acabamos a apoiar governos liberais contra os trabalhadores. É preciso ter um programa radical, anticapitalista, e é preciso que esse programa não seja meramente propagandístico, tenha resultado na organização. Sem programa estratégico, sem dar uma resposta ao cotidiano dos cidadãos, ninguém vai a lado nenhum. É preciso recuperar também o conceito de frente única, com muita liberdade. Temos vivido grandes momentos de fanatismo e cancelamentos. Há uma esquerda profundamente institucional e simultaneamente fanática. E, para atuar como frente única, é preciso estimular o fraternal e aberto debate.
CC: A senhora é bastante crítica em relação ao modelo atual da educação. Qual o tipo de escola realmente emancipadora?
RV: Os liberais defendem a escola das competências, das aprendizagens essenciais. Uma escola desqualificada que prepara os alunos para o mercado de trabalho. Evidentemente, os pais querem que os filhos saibam o ofício no qual vão trabalhar. Mas não é isso que eles estão a fazer hoje na escola. Não estão a aprender ofício nenhum. Na escola liberal, na escola burguesa, na escola dos Estados ocidentais. Por outro lado, temos uma esquerda paternalista que aderiu a esse discurso profundamente relativista e da negação do universalismo. Kant é universal. Tenho que ensinar Kant aos meus alunos, trata-se de um patrimônio da humanidade. Não vou pegar os alunos africanos e ensinar a cultura africana e aos alunos suecos ensinar a história dos vikings, mas ensinar de uma maneira a incluir a história da África e a história dos vikings, que são universais e de todos. Nós nos transformamos em seres humanos por meio da educação, da educação informal, da família, e da educação formal. Não foi inventado nada melhor do que a escola para a transmissão do melhor conhecimento produzido pela humanidade. A escola não é para entreter os alunos, é para desenvolver as funções psíquicas superiores. Quero que meus alunos dominem a abstração, o pensamento crítico, o raciocínio. E isso não é fácil. Não é rápido. Não é o tempo de uma máquina. Isso consome anos de currículo exigente, reflexão, leitura dos clássicos, muita escrita à mão, muita leitura atenta. Temos também outro inimigo, o empreendedorismo, a ideia de que não vale a pena estudar. Se queremos uma escola emancipadora e democrática, é preciso dizer que aprender é um processo difícil, lento, que exige professores muito bem qualificados e com excelentes salários. •
Publicado na edição n° 1429 de CartaCapital, em 09 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Radicalidade contra os radicais’
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