Mundo

Quem é Gustavo Petro?

Livro ‘Una vida, muchas vidas’ ajuda a explicar não apenas o novo chefe do Executivo, mas a vida política colombiana das últimas cinco décadas

Gustavo Petro, o novo presidente da Colômbia, é o primeiro político de esquerda a assumir o cargo. Foto: Joaquin Sarmiento/AFP
Gustavo Petro, o novo presidente da Colômbia, é o primeiro político de esquerda a assumir o cargo. Foto: Joaquin Sarmiento/AFP
Apoie Siga-nos no

Na edição desta semana de CartaCapital (impressa), publico um artigo sobre a vitória da esquerda na disputa presidencial colombiana. Lá pelas tantas, cito o livro Una vida, muchas vidas (328 páginas, Editora Planeta, Bogotá). Trata-se da autobiografia política do presidente eleito Gustavo Petro, escrita em parceria com o jornalista Hollman Morris e lançada em outubro passado. Em prosa fulgurante, a narrativa vai do nascimento do chefe do Executivo (1960) até a pré-campanha eleitoral que acaba de terminar.

O que aparenta ser mera peça de marketing político, autocentrada e enfadonha, revela-se muito mais que isso: quase metade do livro é dedicada à sua militância no Movimento 19 de abril (M-19), que atuou nas periferias urbanas entre 1974 e 1990, quando depôs as armas. Petro poderia dizer que tal engajamento não passou de um “arroubo de juventude”, como tantos já fizeram, mas ele escolhe outro caminho. Revela sua posição de comandante guerrilheiro, expõe as diferenças com as FARC e o ELN, disseca a sincronia entre latifundiários-paramilitares-narcotráfico, comenta sua trajetória na vida institucional, seu exílio voluntário na Bélgica nos anos 1990, sua proximidade com Chávez (e sua distância de Maduro), a admiração pelas realizações sociais-culturais de Cuba, suas críticas ao regime e muito mais. Um personagem sólido, que nada tem de arrivista.

Seguem alguns flashes de uma obra importante para se entender não apenas o novo chefe do Executivo, mas a vida política colombiana das últimas cinco décadas.

Presidente tem trajetória explicada em livro. Foto: Juan Barreto/AFP

Tortura

A tortura não é um momento de abstração intelectual. É um momento de resistência física e pura sobrevivência. Quando começou, os golpes eram permanentes. Eles usaram práticas de violência que deveriam não deixar vestígios (…), mas não tiveram sucesso comigo. Fiquei com algumas cicatrizes, principalmente no rosto. E, claro, quando os golpes eram socos, obviamente apareceram hematomas.

Prisões

Naqueles anos [final da década de 1980], milhares de figuras da esquerda colombiana caíram em todo o país. O fenômeno ficou conhecido como a guerra suja. O M-19 havia baixado suas armas naquele momento, estabelecendo um importante precedente. Foi o primeiro processo de paz de uma guerrilha insurgente na América Latina durante os anos da Guerra Fria. Um evento precursor, que ocorreu dez anos antes da vitória eleitoral de Hugo Chávez na Venezuela.

Hugo Chávez

Ao chegar ao poder, Chávez liderou a transformação pacífica da realidade política de seu país e, ao mesmo tempo, inaugurou uma década em que diversos movimentos progressistas chegaram ao poder em vários países do continente sem recorrer às armas. eçou a ser construída, embora não na Colômbia. (…) Chávez era meu amigo e eu respeitava seu processo, mas o fato de que na fase final ele tentasse imitar o modelo cubano levantou muitas dúvidas em mim. O modelo cubano é um derivado do sistema soviético, e a América Latina deve propor um novo caminho, precisamente aquele baseado na diversidade, deixando de ser simples extratores de matérias-primas como petróleo ou carvão, baseando nossa economia no conhecimento. Chávez sabia disso, mas no final ficou preso no petróleo e na imitação de um modelo, como o cubano, que estava prestes a ser refeito.

Vivendo nos tempos da guerrilha

Em nenhuma das áreas onde o M-19 esteve presente, o fenômeno [da direita] paramilitar se desenvolveu justamente porque o movimento tentava abranger toda a população. Não gerou inimigos nem atacou civis. (…) As FARC, o ELN e o EPL sabiam que não tinham estrutura militar para enfrentar o Exército (muito menos o M-19, que mal tinha alguns sindicalistas desarmados na região e que não estavam interessados ​​em ação). Assim, sem os devidos confrontos com o Exército [o M-19 desenvolveu] outro tipo de guerra armada: a construção casa a casa do controle territorial. Da mesma forma, continuaram com práticas que se originaram na violência liberal-conservadora de meados do século XX. As FARC, sobretudo, assassinavam aqueles que consideravam sapos infiltrados] e matavam membros da população. Esse fenômeno fortaleceu o paramilitarismo, que por sua vez usou sua influência e liderança social na área para começar a introduzir alguns tremendos atos de terror.

Objetivos da guerrilha

Para o M-19, fazer política sempre foi o eixo central, a principal estratégia para tomar o poder. (…) Ele não estava propondo o socialismo, mas uma democracia com justiça social. Se juntarmos esses dois termos – democracia e justiça social – sem questionar o capitalismo, o que se propõe é uma solução social-democrata. E o M-19 foi um movimento dessa natureza, que operou sob a crença de que somente por meio de uma revolução armada se poderia construir uma social-democracia na Colômbia.

(…) O eixo da poposta de paz do M-19, o diálogo nacional, era um pacto entre classes que marcou a história de todo o movimento. Por isso, o M-19 nunca foi um movimento marxista . Havia, é claro, pessoas que estudavam o marxismo, como eu. [A socialdemocracia é] o que outros teóricos poderiam chamar de “populismo”: porque na realidade o populismo latino-americano é o mesmo [ou a versão local] que a social-democracia europeia. A única diferença está na perspectiva. (…) O M-19, então, defendia um populismo armado. (…) A ideia [era fazer] a Colômbia passar da pré-modernidade semifeudal ao capitalismo.

O poder das máfias

O Congresso colombiano cumpre duas funções que permitem a perpetuação dos poderes das máfias. Primeiro, tem a função de sustentar a imagem de uma democracia liberal. Ninguém pode negar que o país tem um poder Executivo, Legislativo e Judiciário. A própria existência do Congresso permite defender a tese de que a democracia existe na Colômbia, mas isso é uma ilusão e uma manipulação. Basta analisar a situação para descobrir que a maioria dos parlamentares só obtém seus assentos por ligação com o regime mafioso. (…) A máfia forma exércitos privados para controlar uma rota que atua sob o terror, o dinheiro, a sedução e as formas culturais que se desenvolveram nos últimos cinquenta anos. (…) O dinheiro para comprar votos é dinheiro que vem, em grande parte, da venda de cocaína.

Uribe, um presidente paramilitar

[Nos anos 1980], em Magdalena Medio [região central do país, que compreende os departamentos de Antioquia, Bolívar e Boyacá] (…) foi criado um grupo fascista chamado Morena (Movimento de Restauração Nacional), que contou com o apoio de Iván Roberto Duque e latifundiários da região (…). Dizem que em suas fazendas eles tocavam o hino nazista em um volume muito alto. (…) Álvaro Uribe não desconhecia esse fenômeno. Em seu próprio departamento [Antioquia], depois de ser o grande porta-voz neoliberal de [César] Gaviria [presidente entre 1990-94], e de ter participado como protagonista na construção das principais leis do neoliberalismo na Colômbia, tornou-se uma figura fundamental para o paramilitarismo.

(…)

Um dos propósitos dessa nova organização paramilitar era ganhar poder político. (…) Esse foi um dos maiores avanços do narcotráfico, que nem a máfia italiana conseguiu. O que os paramilitares na Colômbia precisavam agora era de um chefe político para alcançar seu objetivo de refundar a pátria. Em outras palavras, eles precisavam eleger um presidente. Não demorou muito para encontrar o candidato ideal. A figura política mais capaz e com maior chance de vitória era ninguém menos que Álvaro Uribe Vélez.

Reflexões em 2020, após a vida parlamentar e a prefeitura de Bogotá

A sociedade colombiana realmente amadureceu quando viu que o governo que elegeu jogou a sociedade no abismo. Com isso, o grande peso político de Uribe foi destruído. E a razão é simples: o uribismo não tem mais razão de estar no momento histórico que o país vive.

(…)

Às vezes me pergunto o que será a Colômbia do futuro merece? Para mim, a resposta inclui dois elementos: conhecimento e reequilíbrio com a natureza. Se o país caminha para a mitigação das mudanças climáticas e para uma universidade ampliada, tem futuro. Caso contrário, inexiste escolha a não ser perecer. (…) A questão, então, é esta: o que devemos mudar? A resposta é simples: o capital. Se queremos manter a espécie humana, temos que superar o capital.

Gilberto Marigoni
Professor de Relações Internacionais da UFABC e membro do Observatório de Política Externa Brasileira

Tags: , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor...

Apoiar o bom jornalismo nunca foi tão importante

Obrigado por ter chegado até aqui. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, que chama as coisas pelo nome. E sempre alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se este combate também é importante para você, junte-se a nós! Contribua, com o quanto que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo completo de CartaCapital.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor...

Apoiar o bom jornalismo nunca foi tão importante

Obrigado por ter chegado até aqui. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, que chama as coisas pelo nome. E sempre alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se este combate também é importante para você, junte-se a nós! Contribua, com o quanto que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo completo de CartaCapital.