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A resistência à perseguição a imigrantes ativa grupos inspirados nos Panteras Negras

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Um por todos? Trump quer criar um “etnoestado branco”, afirma o historiador Ibram X. Kendi. “A máquina de deportação é uma extensão das prisões”, completa – Imagem: Redes Sociais e Angela Weiss/AFP
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Boinas pretas, jaquetas abotoadas até o pescoço, o emblema do lado esquerdo, o fuzil carregado ao peito. Quando o grupo dobra a esquina em um bairro na periferia da Filadélfia, na Pensilvânia, o protesto contra o ICE, a polícia migratória dos Estados Unidos, muda de temperatura. São militantes negros, de botas, coletes e coldres inspirados nos Panteras Negras e movidos por um único objetivo, impedir que a “Gestapo” de Donald Trump continue a sequestrar, matar e deportar imigrantes sem nenhuma reação. Qual o motivo do revival? O governo, define o historiador Ibram X. Kendi, quer transformar os Estados Unidos em um “etnoestado branco”, uma nação imaginada como monocultural, monolíngue e homogênea, na qual qualquer corpo que não se encaixe nesse molde, negro, latino, muçulmano ou migrante, é tratado como intruso.

Ao mesmo tempo que alimenta o medo de uma “invasão” de imigrantes, a administração Trump multiplica, com consentimento da Suprema Corte, poderes da máquina de deportação e libera, na prática, uma força paramilitar interna, com agentes capazes de invadir casas, escolas, hospitais e igrejas atrás de quem não possui os “documentos certos”. Nesse cenário, a história dos Panteras Negras ganha força simbólica. Grupos como aquele da Filadélfia têm se tornado não apenas mais um coletivo armado num país saturado de armas, mas um espelho. Se o governo diz que tem o monopólio da proteção, quem protege aqueles que se tornaram alvos oficiais da política de Estado? Ao se colocarem entre agentes federais e comunidades de imigrantes, os militantes inscrevem-se numa tradição antiga do movimento negro de autodefesa e, ao mesmo tempo, apontam para um deslocamento importante das lutas de liberdade em direção a uma solidariedade com migrantes.

Kendi é considerado um dos maiores historiadores do racismo no mundo e um dos mais importantes estudiosos de sua geração, uma referência do pensamento antirracista que em 2020 figurou na lista dos cem mais influentes da revista ­Time. Segundo ele, o movimento dos direitos civis e o movimento Black Power nos anos 1950 e 1960 miravam a libertação dos negros nos EUA, mas nunca foram isolacionistas. Lideranças dos Panteras visitaram Cuba, o Sudeste Asiático e países africanos em processos de descolonização. Malcolm X, que inspirou profundamente o grupo, percorreu o Oriente Médio, África e Europa, em busca de conexões e coalizões. Para Kendi, havia, desde o início, a percepção de que o racismo que matava e encarcerava negros nos EUA era parte de um sistema global de supremacia branca, militarismo e exploração. “Hoje, os ativistas que reconhecem que muitos dos imigrantes que têm sido sequestrados são negros, reconhecem que isso também é uma questão negra. E que não há como combater essa demonização de imigrantes racializados e essas formas de terror e violência sancionadas pelo Estado contra imigrantes de cor focando apenas em proteger imigrantes negros. É preciso realmente buscar proteger todos os imigrantes. E acho que há essa compreensão.”

Na Pensilvânia, militantes enfrentam agentes do ICE

Não há, porém, unanimidade. Apesar da tradição internacionalista dos Panteras Negras, defendida por líderes como Bobby Seale (“Nós combatemos o imperialismo com internacionalismo proletário”), Fred Hampton (“Acredito que serei capaz de morrer como revolucionário na luta revolucionária proletária internacional”) e Huey P. Newton (“Somos internacionalistas porque nossa luta precisa avançar em muitas frentes”), nem todos que se declaram herdeiros do movimento enxergam a defesa de comunidades imigrantes como partes de sua responsabilidade política. E há quem continue a tratar a violência migratória como um problema “dos outros”. O historiador reforça, no entanto, que muitos dos imigrantes presos e deportados são negros – haitianos, africanos, afrolatinos – e que, portanto, a fronteira entre “luta negra” e “luta migrante” nunca foi tão porosa. Por décadas, bairros negros em todos os Estados Unidos acabaram transformados em territórios de exceção, ocupados por uma polícia com licença informal para matar, prender, revistar e humilhar. Hoje, a mesma lógica é replicada nos centros de detenção de imigrantes, nos ônibus lotados rumo a aeroportos, nas celas improvisadas em galpões no deserto. “A máquina de deportação funciona como uma extensão das prisões, limbos jurídicos e violações de direitos humanos. As últimas décadas de encarceramento em massa de negros agora estão sendo replicadas no encarceramento em massa de imigrantes. Temos todos esses chamados centros de detenção, que, na prática, funcionam como campos de concentração por todo o país. E as condições nesses campos são horríveis, assim como as condições em algumas das maiores prisões também são bárbaras”, denuncia.

Para ele, há outro eixo fundamental para entender a aproximação entre militância negra e defesa de imigrantes, o trabalho. Ao longo dos últimos 50 anos, a composição dos trabalhadores nos Estados Unidos foi profundamente rearranjada. Fábricas fecharam ou foram transferidas para outros países, empregos industriais relativamente bem pagos minguaram, o setor de serviços e a chamada “economia do conhecimento” se expandiram. “Os empregos de maior remuneração passaram a exigir diplomas e formações avançadas que continuam desigualmente distribuídos. Negros têm menos probabilidade de ter condições de frequentar a universidade, enquanto os trabalhos mais precarizados foram ocupados, em grande medida, por imigrantes, muitos sem documentos.”

Enquanto o discurso oficial, reproduzido em canais conservadores, é de que imigrantes estariam “tomando os empregos”, pressionando salários para baixo, sobrecarregando escolas e hospitais, a realidade é quase o oposto. “O que acontece em muitos casos é que organizações ou empresas criam empregos de baixa remuneração e recrutam imigrantes para preenchê-los, pois é mais difícil para esses imigrantes se sindicalizarem, é mais fácil explorá-los, especialmente aqueles sem documentos, já que eles podem ser facilmente denunciados às autoridades. Houve uma quantidade enorme de pesquisas nas últimas duas décadas sobre a forma como imigrantes não documentados simplesmente não recebem salário”.

Inspiração. Os Panteras Negras entenderam que os problemas não se limitavam à comunidade. A investida do ICE tem um forte componente racial – Imagem: Arquivo/AP e U.S. Customs and Border Protection

Por trás da violência cotidiana há ainda outro discurso mais abstrato que alimenta essa política divisionista, a teo­ria da “grande substituição”, tema, aliás, discutido no novo livro de ­Kendi, Chain of ­Ideas: The Origins of Our Authoritarian Age, com lançamento previsto para 17 de março nos EUA. A obra aborda a teoria da “grande substituição” nas últimas duas décadas em vários países, do Brasil aos EUA, e mostra como a ideia se consolidou como eixo de um novo autoritarismo: a noção de que indivíduos “racializados” estariam “substituindo” populações brancas, roubando seus empregos, bairros, símbolos e seu lugar na nação. “Uma teoria que permite que líderes autoritários se apresentem como protetores de um ‘nós’ ameaçado e, em nome dessa proteção, eles avançam sobre as liberdades civis, os direitos trabalhistas e as garantias constitucionais.”

As mortes de Renée Good e Alex Pretti­ em protestos contra o ICE em janeiro mostraram que o avanço autoritário está mais perto do que se supõe, acendendo o pavio nas ruas e além delas. Artistas se manifestaram contra a polícia migratória no palco do Grammy, atletas dos Jogos Olímpicos de Inverno passaram a falar, constrangidos, sobre o peso de vestir o uniforme de um país que caça os familiares de muitos deles. E, no domingo 8, o portoriquenho Benito Antonio ­Martínez Ocasio, o Bad Bunny, colocou o bode na sala de 124 milhões de espectadores ao transformar o show do intervalo do Super Bowl, maior evento esportivo dos EUA, em um palco de cultura latina e resistência política. Bunny ergueu uma bandeira de Porto Rico com o triângulo ­azul-claro ligado ao movimento independentista, evocou os apagões que têm assolado o arquipélago nos últimos anos com a explosão de cabos de energia, inverteu os papéis ao colocar Lady Gaga para animar um casamento latino com salsa, flor de maga (a flor nacional portoriquenha) e todos os clichês afetivos de uma festa de família que qualquer latinoamericano reconhece.

Nem todos aderem, mas os Panteras Negras têm uma tradição de solidariedade e internacionalismo

Para Kendi, o surto trumpista contra Bunny e a própria reação do republicano, que chamou a apresentação de uma “afronta à grandeza da América”, reforça o incômodo com o legado dos Panteras nas ruas dos EUA. Se, no palco mais visto do país, um artista porto-riquenho ergue uma bandeira independentista e canta só em espanhol, nas esquinas da Filadélfia militantes negros armados fazem gesto parecido ao se colocarem entre o ICE e imigrantes, rompendo com a ficção de um país “unicultural e unirracial” que o governo tenta vender a eleitores brancos aterrorizados com uma suposta invasão. “Este governo está dizendo a norte-americanos brancos que imigrantes estão invadindo o país e tentando fazer mal a eles, como antes se dizia dos negros, um truque idêntico ao de Bolsonaro, que se dizia protetor enquanto deixava brasileiros morrerem de Covid–19.”

Nesse ponto, a evocação dos Panteras Negras deixa de ser pura estética e volta a ser escolha estratégica. Ao reivindicar a tradição internacionalista de seus fundadores e ao lado de imigrantes que o governo trata como inimigos internos, os novos grupos não apenas reativam um repertório de autodefesa, como também desafiam a própria ideia de ­etnoestado branco organizador do trumpismo. Entre o estádio tomado por bandeiras latino-americanas e o quarteirão vigiado por boinas pretas, o que está em disputa é quem tem o direito de dizer, como Bad Bunny, que “seguiremos aqui”.  •

Publicado na edição n° 1401 de CartaCapital, em 25 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Punhos cerrados’

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