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Porrete na mão

A agressão à Venezuela é só o começo. Donald Trump não esconde a intenção de retomar todo o “quintal” na marra

Porrete na mão
Porrete na mão
Acusado de liderar um inexistente cartel de drogas, Nicolás Maduro foi sequestrado por militares norte-americanos na madrugada do sábado 3 – Imagem: STR/Anadolu/AFP
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Em 2 de dezembro, uma terça-feira, Lula ligou para Donald Trump. Eles conversaram sobre a retirada parcial do tarifaço dos EUA sobre produtos brasileiros, uma possível cooperação entre os dois países no combate ao crime organizado e sobre a Venezuela, alvo fazia meses de um cerco econômico e naval de ­Washington. Algum tempo antes, Lula havia falado, também por telefone, com Nicolás Maduro, o líder venezuelano, o primeiro contato entre ambos em um ano e meio. Dois dias depois do telefonema de Lula para Trump, a Casa Branca publicou uma nova “Estratégia de Segurança Nacional”. Era um documento espantoso, e o petista soube em detalhes de seu teor.

A “estratégia” parte do princípio de que a hegemonia econômica e política dos EUA no mundo está ameaçada, é preciso tomar providências e vale tudo, até o uso de armas. Aponta-se uma justificativa fundamentalista, digna do sionismo em Israel ou do radicalismo islamismo no Irã: “O propósito do governo norte-americano é garantir os direitos naturais dados por Deus aos seus cidadãos”. Para concretizar-se no Hemisfério Ocidental, área geográfica considerada nos EUA de hoje como as Américas e a Groenlândia, o documento ressuscita a Doutrina Monroe. Posta em prática pela Casa Branca no século XIX, a doutrina diz que as Américas são o “quintal” estadunidense. Nenhuma nação da região tem o direito de contrariar o Tio Sam e nenhuma nação de fora o de tirar proveito econômico das riquezas locais. É tudo dos ianques.

O sequestro de Maduro por tropas norte-americanas na madrugada de 3 de janeiro e o tratamento de colônia a que a Venezuela foi submetida desde então por Washington foram uma demonstração claríssima de que a “estratégia” é para valer. Declarações públicas de integrantes do governo Trump sobre a Groenlândia, ilha do Atlântico Norte repleta de riquezas minerais e pertencente à Dinamarca, indicam qual é o próximo capítulo imperial e assombram aqueles europeus que não deram muita bola para o ocorrido na Venezuela.

“O hemisfério é nosso”, celebrou Trump, em alusão às Américas e à Groenlândia – Imagem: Molly Riley/Casa Branca Oficial

O país sul-americano detém a maior reserva de petróleo do mundo, cerca de 300 bilhões de barris, embora não seja um produtor tão expressivo – extrair e embarcar o óleo exigem dinheiro, investimento. E “petróleo” é o motivo mais vocalizado por Trump até agora para justificar o golpe em Maduro. Na primeira entrevista após o rapto, falou muito da ­commodity e nada de democracia, para presumível tristeza do direitismo brasileiro, repetidor da lorota de que o povo venezuelano havia sido libertado. Em seguida, anunciou que a Venezuela entregará até 50 milhões de barris aos EUA e que ele próprio administrará a receita obtida (cerca de 3 bilhões de dólares, na cotação atual). Trump já mandou gastar os recursos na aquisição de produtos ­made in USA. Quer que seu país volte a ser o maior parceiro comercial da Venezuela, posto ocupado pela China não apenas lá, mas em quase toda a América Latina.

De quebra, Trump proibiu negociar óleo venezuelano com a China e a Rússia. Riquezas naturais sul-americanas a serviço da metrópole, “colônia” tutelada, como se verá adiante: imperialismo na veia. Bem que a “estratégia” da Casa Branca dizia: “Negaremos aos concorrentes não hemisféricos a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais, em nosso hemisfério”. No governo anterior de Trump, os EUA recuperaram a dianteira na produção de petróleo bruto. Ao tomar posse do mandato atual, ele martelou que seu país deve a força econômica ao “ouro líquido” e que resgataria tal passado. A China é na atualidade a potência de energia limpa. Um “petroestado” contra um “eletroestado”, na definição da consultoria Eurasia, em uma análise sobre os riscos globais em 2026. O risco número 1 é Trump. “Nunca em nossas vidas testemunhamos um presidente norte-americano tão comprometido em mudar o sistema econômico e tão capaz de fazer isso”, anota a consultoria.

Delcy Rodríguez, vice de Maduro e presidente interina, parece ter topado o roteiro trumpista – Imagem: Juan Barreto/AFP

A nova estratégia de segurança nacional é considerada no Palácio do Planalto uma ruptura com a postura dos EUA nas últimas décadas e a volta do espírito da “Guerra Fria”, tempos de zonas de influência de norte-americanos e soviéticos, nas quais o outro lado não se metia (abertamente). O Ocidente agora é visto como ameaça à sobrevivência de Tio Sam. É o pensamento puro, sem nuances, do Maga, o movimento conservador, populista e nacionalista liderado por Trump, que promete fazer a América grande de novo. Sonho difícil de realizar, pois os EUA são um império em declínio diante da ascensão chinesa.

No Itamaraty, há avaliações similares sobre a “estratégia”. “É uma visão preocupante. O fantasma da Doutrina ­Monroe foi retomado”, afirma um embaixador. “Temos uma potência dizendo que vai fazer o que puder fazer, até usar a força”, comenta outro. Que acrescenta: o Brasil foi o primeiro a sentir o peso da mão ianque com o “tarifaço” e a aplicação da Lei Magnitsky no ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, é mais receptivo às mentiras bolsonaristas que Trump. Lula se vê diante de difíceis escolhas

Os planos delineados na “estratégia” representam “grande desafio” para o Brasil, diz um colaborador de Lula. A política externa brasileira coloca o País em choque com os EUA, apesar da lua de mel entre os dois presidentes. A agenda ambiental é vedete lulista e Trump, um negacionista climático. O petista defende regular as big techs e estas fazem parte do bloco de apoio à Casa Branca. Lula atua para fortalecer o BRICS, grupo fundado por Brasil, China, Índia e Rússia. E defende o fim da hegemonia do dólar no comércio global. Após a vitória eleitoral de Trump em 2024, o colaborador lulista comentava que o Brasil ficaria numa posição complicada, caso o líder norte-americano resolvesse botar o País­ na parede com algo do tipo: “Ou eu ou a China”. Não aconteceu até agora, nem durante as horas mais tensas do tarifaço.

Para um diplomata brasileiro, o País tem condições de se equilibrar entre os EUA e a China. Na ditadura inaugurada com um golpe apoiado por Washington em 1964, manteve certa autonomia externa, lembra ele. O Brasil do general-ditador Ernesto Geisel, por exemplo, foi o primeiro a reconhecer a independência de Angola em 1976, conquistada com a ajuda de forças comunistas. E havia firmado no ano anterior, contra a vontade de Washington, um acordo com a Alemanha para desenvolver um programa nuclear. Mas, para se equilibrar entre norte-americanos e chineses, pondera o diplomata, falta ao Brasil um projeto nacional de desenvolvimento. Apenas pregar multilateralismo não basta. Mais: diante da volta da Doutrina Monroe, o Brasil precisa fortalecer suas embaixadas na América Latina, direcionar para elas quadros mais experimentados. Os postos multilaterais têm sido privilegiados demais.

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, é mais receptivo às mentiras bolsonaristas que Trump. Lula se vê diante de difíceis escolhas – Imagem: Freddie Everett/Casa Branca Oficial e Valter Campanato/Agência Brasil

Apesar do imperialismo descarado, o documento da “estratégia” dos EUA aponta um alto grau de pragmatismo. É uma brecha para Lula e o Brasil. É o que ajuda a entender Trump ter aceitado, ao menos por ora, que o chavismo siga no poder na Venezuela. A Casa Branca deseja governos latino-americanos dóceis, que se curvem aos seus interesses, ainda que de outra linha ideológica. Não importa que seja uma ditadura, como os EUA e a mídia carimbam a Venezuela: se colaborar com o Tio Sam, tudo bem. É o que acontece há décadas no caso da Arábia Saudita, que nunca viu eleição. Eis um trecho revelador da “estratégia” de Washington: “Recompensaremos e encorajaremos os governos, partidos políticos e movimentos da região (Hemisfério Ocidental) amplamente alinhados com os nossos princípios e estratégia. Mas não devemos ignorar governos com perspectivas diferentes com os quais, no entanto, compartilhamos interesses e que desejem trabalhar conosco”.

Delcy Rodríguez, a vice de Maduro que assumiu interinamente o leme na Venezuela, parece ter topado o roteiro pragmático trumpista, ao menos por enquanto. Na primeira manifestação pública, declarou nas redes sociais: “Consideramos prioritário avançar rumo a uma relação internacional equilibrada e respeitosa entre os EUA e a Venezuela”. E fez um “convite ao governo dos EUA para trabalharmos juntos em uma agenda de cooperação, orientada para o desenvolvimento compartilhado, dentro da estrutura do direito internacional, e para fortalecer uma coexistência comunitária duradoura”. Mas até que Delcy provocou a Casa Branca também, e de viva voz: “Se Trump realmente quisesse combater o tráfico de drogas, teria de ir ao Equador, de onde é exportada 70% da cocaína mundial, e olhar para o próprio presidente (o direitista Daniel Noboa), que é dono de empresa envolvida com cocaína”.

As riquezas minerais da Groenlândia despertaram a cobiça de Tio Sam – Imagem: Christian Klindt Soelbeck/Ritzau Scanpix/AFP

O sequestro de Maduro repetiu, como farsa, a prisão do general Manuel Noriega por tropas norte-americanas em 1989. Noriega era presidente do Panamá e havia sido acusado na Justiça de Miami de tráfico de drogas – acabaria condenado a 40 anos de prisão. Maduro foi acusado em Nova York, pelo governo Trump, de facilitar a entrada de cocaína nos EUA via território venezuelano. Chegou a ser descrito como chefe de um cartel inexistente, mas a acusação foi alterada nesse ponto. Um relatório da ONU sobre drogas elencou, em 2025, os países produtores e comercializadores de drogas e a Venezuela não constava da lista. Ao contrário, era mencionada como tendo se livrado do cultivo de coca e maconha nos últimos 15 anos. Em dezembro, Trump perdoou um ex-presidente de Honduras condenado a 45 anos e que cumpria pena nos EUA por tráfico, Juan Orlando Hernández. O partido de Hernández ganhou a apertada eleição hondurenha de novembro, com apoio da Casa Branca. Hipocrisia é pouco.

Maduro declarou-se inocente, “prisioneiro de guerra” e “presidente sequestrado”, ao ser levado perante o juiz Alvin Hellerstein. Terá outra audiência com o magistrado em março. Espera-se que a denúncia contra ele seja acrescida com o depoimento de um general venezuelano que chefiou a inteligência militar chavista. Hugo Carvajal Barrios rompeu com Maduro em 2019, posteriormente foi processado em Nova York e, no ano passado, foi condenado por Hellerstein por narcotráfico. Ainda não há sentença justamente por causa da hipótese de delação.

O rapto de Maduro foi o desfecho de um cerco comandado por Trump logo após reassumir a Casa Branca. O norte-americano proibiu negócios da Chevron na Venezuela, tascou 25% de tarifa em país que comprasse petróleo venezuelano, ofereceu 50 milhões de dólares por informações que ajudassem a tirar Maduro de cena, autorizou operações secretas da CIA, sancionou os envolvidos na aquisição de drones iranianos pelo chavismo, impôs bloqueio naval à nação sul-americana e fechou o espaço aéreo local.

Caracas não pode mais negociar petróleo com China e Rússia. Os EUA cruzaram “linha inaceitável” ao raptar um chefe de Estado, protestou o representante brasileiro no Conselho de Segurança da ONU – Imagem: iStockphoto e Loey Felipe/ONU

Lula fez o que pôde para evitar a intervenção norte-americana na Venezuela, mas podia pouco. Tinha problemas demais com Trump, por causa do tarifaço e de Jair Bolsonaro, e a relação com ­Maduro não era boa. Ao voltar ao Planalto, topou queimar capital político para reaproximar o Brasil da Venezuela. No início de 2023, recebeu Maduro no Planalto e, no fim do ano, bancou o acordo de Barbados, no qual o governo e a oposição venezuelana selaram compromissos sobre a eleição de 2024. Na prática, colocou o Brasil como fiador do pleito. A disputa terminou com a oposição a declarar vitória e sem que Maduro mostrasse as atas eleitorais para provar seu triunfo. Lula não reconheceu o resultado. Três meses depois, o Brasil vetou a entrada da Venezuela no BRICS. Tudo somado, restaram mágoas e a sensação brasileira de que houve quebra de confiança pelo vizinho.

Apesar de tudo, Lula não deixou de alertar os EUA de que uma intervenção na Venezuela era indesejada, quando a hipótese começou a parecer cada vez mais provável ao longo de 2025. Achava um precedente perigoso na América do Sul, onde jamais tinha havido ação bélica norte-americana, e que nenhuma força política tinha mais condições do que Maduro para manter um mínimo de estabilidade na Venezuela. Uma reunião de emergência da Comunidade dos Estados Latino-Americanos, a Celac, no fim de semana do sequestro, assistiu a repetidas citações da palavra “precedente”.

As preocupações de Lula foram expostas publicamente em fóruns internacionais e diretamente a Trump, tanto frente a frente, na Malásia, em outubro, quanto naquele telefonema de dezembro e em um anterior, dois meses antes. No dia do sequestro de Maduro, Lula conversou por telefone com Delcy Rodríguez, enquanto, em Brasília, a número 2 do Itamaraty, Maria Laura da Rocha, referia-se a ela como “presidente interina”. Curioso: Delcy foi eleita na mesma chapa cuja vitória Lula não reconheceu.

“O fantasma da doutrina monroe foi retomado”, lamenta um embaixador brasileiro

O brasileiro considerou que a ação militar na Venezuela e o rapto de Maduro ultrapassaram uma “linha inaceitável”. Em uma reunião extraordinária do Conselho de Segurança da ONU convocada pela Colômbia, país na mira de Trump, o representante brasileiro, o embaixador Sérgio Danese, declarou que os fins não justificam os meios, que não se pode impor decisões a países mais fracos. “O Brasil rejeita de maneira categórica e com a maior firmeza a intervenção armada em território venezuelano, em flagrante violação da Carta das Nações Unidas e do direito internacional”, disse. Na Organização dos Estados Americanos, o embaixador brasileiro Benoni Belli utilizou a palavra “sequestro” e teorizou sobre o que acontecerá, caso a atitude norte-americana se torne regra: “As relações de cooperação passarão a ser de subordinação, e assistiremos ao colapso da ordem internacional, que tenderá a ser regida pela lei da selva.”

No Planalto e no Itamaraty, acredita-se ser possível Lula preservar a relação construída com Trump desde setembro, apesar do tom brasileiro sobre o caso “Venezuela”. O petista e George W. Bush cultivaram relação amistosa no passado, mesmo que o Brasil tivesse condenado a guerra no Iraque, anota um embaixador. Ele acrescenta: o País não está só no repúdio ao rapto de Maduro, embora na América Latina, palco do episódio, a polarização política tenha impedido a adoção de uma posição de consenso na Celac. Há governos direitistas a aplaudir os ianques, como Argentina e El Salvador. Segundo um colaborador lulista, não está descartada a hipótese de uma viagem do presidente a Washington neste trimestre. Seria mais um passo para fortalecer o canal entre os dois mandatários.

Trump pode não agir diretamente a favor de Flávio Bolsonaro ou de Tarcísio de Freitas, mas o Deep State tentará influenciar as eleições – Imagem: Evaristo Sá/AFP

A visão no entorno de Lula é que o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, é mais linha-dura e ideológico do que Trump. Até pelo perfil. ­Rubio é filho de imigrantes cubanos que se mudaram para a Flórida atrás do “sonho americano”. O violento desfecho do “caso Venezuela” teria sido uma vitória do radicalismo dele, conforme uma reportagem do Wall Street Journal. Rubio, ao que parece, foi mais receptivo às mentiras bolsonaristas que culminaram com o tarifaço e a aplicação da Lei Magnitsky em Moraes.

Lula ainda tenta convencer Trump a revogar de forma total o tarifaço, anulado em parte em novembro. Não se sabe exatamente o que o lado americano quer, nenhuma proposta foi feita pelo Tio Sam, nem resposta houve a uma carta brasileira de 4 de novembro. A liberação do mercado de etanol e a exploração das reservas de terras-raras brasileiras são especulações de interessados, não cartas postas na mesa.

E o Brasil ainda terá eleição neste ano. O Planalto acredita que Trump pode até não agir diretamente a favor de potenciais presidenciáveis direitistas, como Flávio Bolsonaro e Tarcísio de ­Freitas, dupla que festejou o sequestro de ­Maduro, mas que a “máquina” norte-americana, o Deep State, tentará. “O governo Trump prefere vitórias eleitorais de direita em toda a América Latina, e as eleições brasileiras de 2026 serão acompanhadas de perto”, diz a Eurasia, naquela análise sobre os riscos globais. A consultoria ressalva, porém, que o excesso de intervencionismo dos EUA na região pode ter efeito inverso, inclusive no Brasil: alimentar o antiamericanismo. Foi, de certa forma, o efeito do tarifaço. Após ele, a popularidade de Lula melhorou. •


Nem transição, nem resistência

De María Corina Machado aos bolivarianos, há mais de mil palhaços no salão

por Sergio Lirio

Não se vê um único inocente nessa caminhada. Muito menos um útil

Imperador da desinformação, Donald Trump recorreu à sua rede social, que de Truth não tem nada, para comunicar o “compromisso” do governo da Venezuela de ceder de 30 milhões a 50 milhões de barris de petróleo aos Estados Unidos, a preço de custo. O magnânimo dono do quintal chamado América Latina também informou a sua autonomeação (quem melhor?) como gerente desta imensa apropriação indevida, ou, na visão da Casa Branca, do manancial que pertence por direito divino ao Grande Irmão do Norte. Tudo, claro, em prol do “bem-estar dos venezuelanos e norte-americanos”.

Em Caracas, Delcy ­Rodríguez, nomeada presidente interina até não se sabe quando, com o aval da Corte Suprema do país e de Trump, equilibrava-se entre o discurso público da resistência e os acenos ao império, dada a sua manifesta disposição em colaborar com os invasores. Enquanto isso, em Nova York, a farsa se completava. Diante do tribunal onde o sequestrado Nicolás Maduro ocupava o banco dos réus, os sequestradores nem mais fizeram questão de insistir no engodo: admitiram que o tal “Cartel de Los Soles”, facção criminosa supostamente comandada pelo ex-mandatário venezuelano, era uma obra de ficção digna dos roteiristas de Hollywood. “Fui capturado em minha casa, em Caracas. Sou inocente, não sou culpado”, afirmou Maduro.

Quanto riso, ó quanta alegria, mais de mil palhaços no salão. À extrema-direita entreguista e apátrida e à esquerda bolivariana. A sequência de fatos, do sequestro de Maduro sem resistência ao flerte entre Trump e a ala ­chavista sob o comando de ­Rodríguez, recomenda o enterro das ilusões de ambos os lados. Nem transição, nem resistência. Só mais um triste capítulo do infame histórico latino-americano de capitulações e traições.

Entre os palhaços, temos, obviamente, uma vencedora, hors-councours. María ­Corina Machado passa a integrar a calçada da infâmia com o epíteto de Bolsonaro da Venezuela. Golpista inata, lambe-botas, apoiadora do sacrifício dos compatriotas, Machado não só foi colocada de escanteio no primeiro átimo, em uma operação de descarte tão expedita quanto o cerco a Maduro. Foi humilhada em praça pública por aquele a quem havia prometido servir de capacho. Trump mais uma vez demonstrou desprezo pelos puxa-sacos. A aclamada líder da oposição venezuelana queria um país só para ela, mas terá de se contentar com uma placa na estante da sala de um prêmio cada vez menos prestigiado. Há quem garanta que o presidente dos EUA agiu movido pela mágoa, pois esperava de Machado um gesto maior de devoção: não uma dedicatória, um agradecimento, ao ser agraciada com o Nobel da Paz, mas o desprendimento de recusar a escolha em nome do verdadeiro merecedor, ele mesmo. No último e melancólico capítulo da saga da heroína venezuelana, a meia dúzia de bolsonaristas que saíram às ruas para celebrar a invasão norte-americana – e seus congêneres em outros rincões sul-americanos – não passam de figurantes toscos em um quadro mal-ajambrado, como se compusessem o cenário de uma novela bíblica da Record ou a claque do programa Patati Patatá. Chamá-los de inocentes úteis seria demasiada condescendência. Burros certamente, inocentes jamais.

No caso da esquerda bolivariana, recomenda-se um pouco de reflexão. Por longos anos, o suposto preparo e a pretensa lealdade das Forças Armadas venezuelanas foram cantados em prosa e verso, enfim tínhamos na região um exército a serviço do povo. No fim, coube aos seguranças cubanos de Maduro o único gesto de coragem. Os militares norte-americanos chegaram de helicóptero, pousaram em uma área fortificada em Caracas e sequestraram o presidente do país sem nenhum dano. Quantos inconfidentes serão contados nas dezenas de fotos de Maduro ao lado dos “seus” generais, nas inúmeras e, vê-se, ilusórias demonstrações de poder? Onde estavam aqueles que juraram defender a “revolução” com a própria vida? Fica a lição: lealdade comprada está sempre à venda.

Publicado na edição n° 1395 de CartaCapital, em 14 de janeiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Porrete na mão’

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