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Por que mulheres usaram branco durante o discurso de Trump no Congresso

Mundo

Em um protesto silencioso, mas marcante, 66 mulheres do Partido Democrata usaram branco durante o primeiro discurso de Donald Trump ao Congresso dos Estados Unidos, na noite de terça-feira 28. A cor escolhida é símbolo do movimento sufragista nos Estados Unidos, que lutou pelo direito das mulheres ao voto no final do século XIX e no início do século XX.

“Vestimos branco em união contra qualquer tentativa do governo Trump de retroceder nos incríveis avanços que as mulheres fizeram no último século e continuaremos a apoiar o avanço de todas as mulheres”, declarou a congressista democrata Lois Frankel, da Flórida, em pronunciamento. “Nós não retrocederemos”.

A iniciativa partiu das democratas do The House Democratic Women’s Work. Entre as suas demandas estão a equiparação salarial de homens e mulheres, o direito à licença maternidade remunerada e o direito à saúde, inclusive aos serviços relacionados aos direitos sexuais e reprodutivos. O direito das mulheres de viverem “livres da violência e do medo” também foi ressaltado pelas democratas.

Além do branco, roxo e dourado também são considerados cores-símbolo do movimento sufragista. O roxo significa lealdade e firmeza inabalável à causa, o dourado, a “cor da iluminação e da vida” e, por fim, o branco representa a pureza e a qualidade do propósito. 

Mulheres democratas protestam contra Donald Trump

Escolha da cor branca foi uma homenagem ao movimento sufragista

Não é a primeira vez que as norte-americanas escolhem vestir branco em momentos importantes da vida política. A primeira mulher a concorrer à vice-presidência, a democrata Geraldine Ferraro optou pela cor ao aceitar à nomeação, em 1984. Em 1969, Shirley Chisholm tornou-se a primeira mulher negra eleita para o Congresso dos Estados Unidos e também usou branco. Candidata derrotada à presidência dos EUA, a democrata Hillary Clinton também ostentou a cor em diversos momentos de sua campanha. 

As sufragistas e o racismo

Movimento sufragista

Programa oficial da Parada pelo Sufrágio das Mulheres, de 1913, com as cores branca, roxa e dourada

A escolha das cores do movimento sufragista, porém, escondem um passado problemático. Consideradas parte da “primeira onda” do movimento feminista, as sufragistas pleiteavam direito das mulheres ao voto, mas tiveram dificuldade de combater o racismo e de contemplar as demandas das mulheres negras em seus manifestos. 

O paradoxo foi descrito pela feminista negra Angela Davis na obra clássica do feminismo interseccional Mulheres, Raça e Classe: “As líderes do movimento pelos direitos das mulheres do período pós-guerra tendiam a ver o voto como um fim em si mesmo. Já em 1866 parecia que qualquer pessoa que defendesse a causa do sufrágio feminino, por mais racistas que fossem os seus motivos, era uma aliada valiosa para a campanha das mulheres”, escreveu Davis no capítulo “O racismo no movimento sufragista feminino”. 

O passado das sufragistas ganha mais relevância quando se coloca em questão que grande parte do movimento atual em favor dos direitos da mulher e contrário a Donald Trump está sendo capitaneado por mulheres negras, hispânicas, descendentes de imigrantes e LGBTs, em uma luta que coloca em primeiro plano o chamado “feminismo interseccional”.

A vertente defende que não existe a primazia de uma opressão sobre a outra, já que as categorias de raça, classe e gênero estão subordinadas à mesma estrutura. 

Durante a promoção do filme “As Sufragetes”, fotos de atrizes como Carey Mulligan, Meryl Streep, Romola Garai e Anne-Marie Duff (todas brancas) utilizando uma camiseta com os dizeres “Prefiro ser uma rebelde do que uma escrava” causaram críticas pela insensibilidade com a questão racial. 

 

 

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