Mundo
Patriotas às avessas
Trump não precisa de convite para atacar, mas grupos da extrema-direita latino-americana não se cansam de implorar por intervenções em seus próprios países
O ultranacionalismo é uma característica conhecida dos grupos de extrema-direita. Na Europa e nos Estados Unidos, manifesta-se principalmente no rechaço aos imigrantes. Já na América Latina, os autodenominados patriotas encontraram um jeito excêntrico de existir: passaram a pedir que seus países sejam sancionados ou até invadidos por uma potência estrangeira. Por certo, um caso raro de patriotismo às avessas.
A invasão dos EUA à Venezuela, em 3 de janeiro, é um exemplo eloquente de que, com ou sem convite, o presidente Donald Trump não hesita em mobilizar suas tropas. Primeiro, Caracas. Depois, Colômbia e Cuba, como anunciado pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, em entrevista coletiva no resort de Mar-a-Lago, um dia após o sequestro de Nicolás Maduro. A ameaça contra países da América Latina, antes velada, tornou-se explícita no segundo mandato de Trump. E, com o ensejo dos patriotas latino-americanos, mostrou-se mais exequível do que nunca.
Na Venezuela, María Corina Machado, principal figura da oposição, enalteceu a possibilidade de que seu país fosse invadido pelos Estados Unidos. Pouco depois de ter recebido o Prêmio Nobel da Paz, ainda em 2025, defendeu a necessidade de uma “intervenção” estrangeira. Após a invasão consumada, classificou a ação de Trump como “um grande passo para uma transição democrática”, mesmo depois de o presidente norte-americano ter declarado que agora são os EUA que mandam no país e que não haverá eleições, ao menos no curto prazo. “Queremos dar o Nobel da Paz para ele”, disse Corina, falando por si e em nome do povo venezuelano.
María Corina Machado defendeu uma ação militar na Venezuela ainda em 2025, logo após ser laureada com o Nobel da Paz. Até Capriles repudiou o entreguismo
A contradição evidente entre ser laureada em nome da paz e enaltecer uma guerra contra o próprio povo não foi notada apenas pelos desafetos de Corina, mas também por outros expoentes do mesmo campo político. “O que você não deve nunca, nunca perder de vista é defender seu país, é ser nacionalista, é defender seus compatriotas”, disse Henrique Capriles em um vídeo no qual se dirige a Corina. Capriles, que foi deputado, prefeito, governador e candidato à Presidência da Venezuela contra Hugo Chávez, em 2012, e Maduro, em 2013, acusou a Nobel da Paz de “adular” os EUA.
Na Colômbia, o presidente Gustavo Petro acusa políticos da oposição de tramar contra o próprio país a partir de bases de lobby montadas em Miami e Washington. Petro, por sua vez, é acusado por Rubio e Trump de liderar cartéis de drogas. O presidente norte-americano afirmou, em conversa com jornalistas a bordo do avião presidencial Air Force One, no domingo 4, que o líder colombiano “é um homem muito doente, que gosta de produzir cocaína e vendê-la aos EUA”. No novo léxico trumpista, o “narcoterrorismo” justifica uma intervenção militar estrangeira tanto quanto a “guerra ao terror” justificou a invasão do Iraque, em 2003, e o “comunismo” justificou os golpes de Estado em países da América Latina durante a Guerra Fria. Por isso, Rubio e Trump tratam Petro como alvo, enquanto ele se defende, ao dizer que foi a oposição colombiana que pintou esse alvo em suas costas.
Petro afirma que “interesses de políticos colombianos ligados, familiar ou comercialmente, à máfia querem a ruptura das relações entre os EUA e a Colômbia para que o narcotráfico de cocaína dispare no mundo”. Na mesma mensagem, publicada nas redes sociais, o presidente diz ter ordenado a retirada de “vários coronéis de inteligência da polícia que estavam repassando informações falsas” a seus contatos em Washington.
O presidente colombiano diz que vários coronéis de inteligência da polícia repassam “informações falsas” a seus contatos nos EUA – Imagem: Presidência da Colômbia
A carapuça lançada por Petro caiu na cabeça da senadora Paloma Valencia Laserna, que se apresenta nas próximas eleições presidenciais, marcadas para 8 de março, como “a candidata de Uribe”. Seu padrinho político é o ex-presidente Álvaro Uribe, político de direita que governou o país de 2002 a 2010 e acabou condenado, em primeira instância, em 2025, a 12 anos de prisão por suborno e fraude processual, em uma investigação sobre suas conexões com grupos paramilitares. “Os EUA não bombardearam uma capital sul-americana”, disse Valencia Laserna. “Eles bombardearam bases militares e ativos estratégicos que um tirano usava para manter a Venezuela sequestrada”, completou, referindo-se aos crimes de lesa-humanidade investigados pelo Tribunal Penal Internacional contra Maduro desde 2021. Um dos seguidores de Laserna ainda interpelou a senadora em suas redes sociais: “Caíram bombas sobre Caracas? Se a resposta é sim, então bombardearam Caracas. Deixe de brigar com os fatos”.
Brigar com os fatos é, em essência, o que os novos patriotas da extrema-direita fazem quando alentam ações hostis de nações estrangeiras contra seus próprios países. Há posições mais caricatas, em todo caso, como a da senadora colombiana Lina María Garrido, que se apresenta como “defensora da pátria custe o que custar”, mas, em 4 de janeiro, dois dias depois da invasão americana à Venezuela, publicou a seguinte mensagem para seus seguidores: “Bem‑vindo à Colômbia, presidente Trump. O povo colombiano o aguarda com grande ansiedade. Não demore, por favor”.
Comportamentos entreguistas como esse – e de explícito convite a uma intervenção militar estrangeira – motivam não apenas críticas públicas, como as que foram feitas por Petro, mas também processos judiciais. Na segunda 5, a Suprema Corte colombiana rejeitou uma denúncia apresentada por um cidadão contra um grupo de nove parlamentares de direita que viajaram aos EUA em 2025 para, segundo a queixa, pedir uma intervenção na Colômbia. Os juízes consideraram que não há elementos para sustentar essa conclusão e afirmaram que, além disso, os parlamentares que faziam parte da comitiva estão protegidos por prerrogativas de seus cargos. Com isso, o caso foi simplesmente arquivado, apesar de integrantes da comitiva terem feito declarações públicas em apoio a intervenções estrangeiras.
Na Colômbia, Petro acusa políticos da oposição de tramar contra o próprio país a partir de bases de lobby montadas em Miami e Washington
Viagens ao exterior para abrir contato com interlocutores estrangeiros não são um crime em si. No passado, grupos de esquerda – incluindo quadros da sociedade civil brasileira – também viajaram aos EUA para conversar com parlamentares norte-americanos acerca da situação política em seus respectivos países, mas não consta que algum deles tenha defendido a aplicação de sanções ou, ainda pior, intervenções militares, como pedem os integrantes das comitivas de direita que têm chegado a Washington.
No caso brasileiro, fez sucesso a piada de mau gosto de que os EUA colocariam um porta-aviões no Lago Paranoá, em Brasília. A imagem absurda foi usada para ilustrar o desejo de que os norte-americanos movessem sua máquina bélica contra o presidente Lula e os ministros do Supremo Tribunal Federal envolvidos na condenação dos responsáveis pela tentativa frustrada de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023. “Se Deus quiser, chegará em breve”, escreveu o agora ex-deputado Eduardo Bolsonaro, quando mencionou o navio de guerra na capital federal.
O porta-aviões não veio, mas Eduardo conseguiu fazer com que o governo norte-americano sobretaxasse as exportações brasileiras para os EUA e aplicasse a Lei Magnitsky para sancionar o ministro Alexandre de Moraes e outros antagonistas do bolsonarismo. Mais tarde, grande parte das taxas foi revista e as sanções contra Moraes foram retiradas, depois que Lula entabulou conversações inesperadamente amistosas com Trump. Persiste, no entanto, a enorme disposição do filho Zero Três de Jair Bolsonaro e de outros ativistas radicais sediados nos EUA de promover intervenções externas na dinâmica política doméstica do Brasil.
A atuação de Eduardo Bolsonaro resultou na imposição de sanções contra autoridades brasileiras – Imagem: Gage Skidmore
O fenômeno dos “patriotas” latino-americanos, que se dedicam a pedir que os EUA ataquem, castiguem ou intervenham militarmente em seus próprios países, já vem sendo estudado por acadêmicas como Teresa Cristina Schneider Marques, doutora em Ciência Política pela UFRGS e professora de Relações Internacionais na PUC gaúcha, que comentou a CartaCapital sobre essa “relação de submissão voluntária ao estrangeiro”.
A pesquisadora afirma que “há comunidades migrantes que apoiam intervenções estrangeiras em seus países de origem, mobilizando por vezes repertórios de ação violentos”. Segundo ela, esses grupos de lobby presentes nos EUA “possuem recursos linguísticos, culturais e, por vezes, financeiros, que lhes permitem atuar como difusores de ideias, construtores de conexões transnacionais e legitimadores de discursos sobre seus países de origem”.
Marques nota que “o apoio que esses grupos oferecem à extrema-direita não é irrelevante e o potencial dos emigrantes está longe de ser ignorado por forças políticas” das quais “recebem apoio, inclusive financeiro, para efetivar eventos e encontros no exterior”. Integrantes dessas comunidades de imigrantes “passaram a ser ‘convocados’ e mobilizados diariamente por forças extremistas interessadas em ampliar a legitimação e a tradução cultural dos seus discursos no exterior”. •
Publicado na edição n° 1395 de CartaCapital, em 14 de janeiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Patriotas às avessas’
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