Partido de Putin vence eleições legislativas em que oposição denuncia fraude na votação online

A oposição denuncia fraudes em massa nas eleições legislativas e regionais encerradas no domingo 19 na Rússia

Partido do Kremlin reivindica maioria de dois terços nas legislativas russas. AP

Partido do Kremlin reivindica maioria de dois terços nas legislativas russas. AP

Mundo

O partido do presidente Vladimir Putin reivindicou, nesta segunda-feira 20, ter conquistado maioria de dois terços na votação que praticamente excluiu opositores, após meses de repressão aos adversários.

Em todo o país, após a apuração de 85% das urnas, o partido Rússia Unida, de Putin, contabilizava 49,76% dos sufrágios, muito à frente dos comunistas (19,61%). Um dos líderes do partido governista, Andrei Turchak, afirmou que a sigla conseguiu ao menos 315 cadeiras de um total de 450 na Câmara Baixa do Parlamento, a Duma, o que ele chamou de vitória “clara e limpa”. A maioria de mais de dois terços é suficiente para modificar a Constituição russa, sem a necessidade de apoio de outros partidos.

Na Chechênia, o ex-separatista Ramzan Kadyrov, que dirige essa república russa com mãos de ferro há mais de 15 anos, foi reeleito com 99,6% dos votos, segundo a agência Ria Novosti. Nas legislativas de 2016, este aliado de Putin venceu com 97,9% dos votos.

A presidência russa elogiou a “transparência e probidade” das eleições legislativas, em meio às denúncias de fraude da oposição. “Para o presidente (Vladimir Putin), o mais importante é que as eleições tenham sido competitivas e realizadas com transparência e probidade”, avaliou o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, descrevendo como “positivo” o desempenho de quase 50% obtidos pelo partido no poder.

Esse resultado, que ainda não é definitivo, aponta um pequeno recuo da legenda Rússia Unida em relação a 2016, quando a sigla conseguiu 54% dos votos e enviou 334 deputados à Duma. A oposição, em sua maioria excluída das eleições, e principalmente o movimento de Alexei Navalny, líder opositor detido, denunciaram fraudes à medida que a vitória do Rússia Unida aumentava durante a madrugada.

Fraude eletrônica

Em Moscou, reduto dos críticos do Kremlin, os resultados dos votos online não haviam sido anunciados mais de 12 horas após o fim da votação.

“São as eleições da fraude eletrônica”, afirmou no Twitter Ivan Jdanov, um colaborador de Navalny que está no exílio. Outro aliado de Navalny, Leonid Volkov, denunciou uma “mudança completa” dos resultados em Moscou e São Petersburgo. De acordo com Volkov, o nível das fraudes é maior que o registrado nas legislativas de 2011, que provocaram uma grande onda de protestos.

A ONG Golos recebeu mais de 4.950 denúncias de possíveis irregularidades eleitorais e considerou uma “evidência” a queda do “nível transparência e de clareza do sistema eleitoral”. As autoridades consideram a Golos um “agente estrangeiro”.

A presidente da Comissão Eleitoral, Ela Pamfilova, rebateu as acusações e elogiou a “transparência” das eleições.

Os simpatizantes de Navalny defenderam o “voto inteligente” e a aposta nos candidatos com mais chances de impedir a eleição dos representantes do partido de Putin. Na maioria dos casos, eram candidatos comunistas. De acordo com uma ativista próxima a Navalny, o aumento no percentual de votos dos comunistas (que receberam 13,3% dos votos em 2016), caso confirmado, representa um sucesso.

Meses de repressão aos opositores

As eleições aconteceram depois de uma intensa onda de repressão contra a oposição, incluindo a detenção de Navalny, que viu sua organização ser banida por ser considerada “extremista”. Além disso, as autoridades pressionaram as grandes empresas do setor digital no primeiro dia da votação. Na sexta-feira (17), a Apple e o Google deletaram de suas lojas virtuais o aplicativo de “voto inteligente” de Navalny. Simpatizantes de Navalny acusaram as duas empresas americanas de “ceder à chantagem do Kremlin”.

Além do Rússia Unida e dos comunistas, outros três partidos podem superar a barreira de 5% para garantir representação no Parlamento: os nacionalistas do LDPR (7,53%), os centristas do Rússia Justa (7,34%) e um novato, o partido “Novas Pessoas” (5,31%). De modo geral, esses partidos são considerados uma falsa oposição e acusados de atuar a serviço do Kremlin.

Quase 108 milhões de russos estavam registrados para votar e renovar a Duma. Apesar do triunfo, antes das eleições, o Rússia Unida contava com um apoio popular reduzido. Pesquisas recentes do instituto estatal VTsIOM revelaram que menos de 30% dos russos pensavam em votar no partido de Putin, 10% a menos que nas semanas anteriores às legislativas de 2016.

Embora o presidente de 68 anos permaneça com um bom nível de popularidade, o Rússia Unida perdeu eleitores com a queda do padrão de vida de uma parcela da população, após anos de estagnação econômica, agravada pela pandemia do coronavírus.

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Rádio pública francesa que produz conteúdo em 18 línguas, inclusive português. Fundada em 1931, em Paris.

Compartilhar postagem