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Pacto nuclear entre Rússia e EUA chega ao fim – e agora?
New START foi deixado de lado pelas duas potências atômicas, e temor agora é de que corrida nuclear se intensifique. Trump quer novo acordo que inclua também a China
O fim de um acordo que limita o arsenal nuclear de Rússia e Estados Unidos desde a Guerra Fria vem gerando apreensão diante de uma nova corrida nuclear entre as duas maiores potências atômicas do planeta.
Expira nesta quarta-feira 4 o prazo para renovação do Tratado de Redução de Armas Estratégicas, o New START, que restringe o arsenal estratégico de cada um dos dois países a 1.550 ogivas e 800 sistemas de lançamento.
Sem sinalizações claras até agora de Moscou ou Washington de renegociação do pacto, até mesmo o Papa Leão 14 se juntou aos pedidos das comunidades civil e científica para que um haja um entendimento de última hora.
“A situação atual exige que se evite uma nova corrida armamentista que ameaça ainda mais a paz entre as nações”, disse o líder da Igreja Católica nesta quarta-feira, pedindo às duas potências para “não abandonarem” o New START.
Rússia e Estados Unidos são, de longe, os países com os maiores arsenais atômicos – estima-se que ambos possuam, cada, mais de 5 mil ogivas nucleares. O número excede o total limitado no tratado pois também inclui armamentos desativados e armazenados, ou seja, que não podem ser empregados imediatamente.
Moscou está em primeiro lugar, com 5.459; enquanto os EUA têm 5.177. Em terceiro lugar, mas bem atrás, aparece a China, com 600 ogivas nucleares. É justamente o rápido crescimento do arsenal nuclear de Pequim – foram 100 novas ogivas desenvolvidas só em 2023 – que tem sido apontado pelo presidente americano Donald Trump como o principal motivo para o abandono do New START.
Em janeiro, Trump disse ao The New York Times que, “se o tratado expirar, ele vai expirar”, acrescentando que faria “um acordo melhor”. No ano passado, ele sinalizou diretamente a vontade de incluir a China em uma negociação de controle de armamento – o que Pequim rejeita abertamente.
Para o país asiático, a demanda de Trump não é “justa nem razoável”, já que a capacidade nuclear da China “não é comparável em escala” com a dos EUA, disse um porta-voz do governo de Xi Jinping nesta quarta.
Rússia “pronta” para mundo sem limite nuclear
Do lado russo, houve uma proposta do presidente Vladimir Putin para a renovação do New START por um ano, ainda em setembro de 2025. Mas o país parece ter perdido a paciência. “A falta de resposta também é uma resposta”, disparou nesta semana Sergei Ryabkov, vice-ministro das Relações Exteriores, durante viagem a Pequim.
Segundo ele, a Rússia “está pronta para uma nova realidade em que as duas maiores potências nucleares do mundo não terão limites pela primeira vez em décadas”.
Como o próprio nome diz, o tratado atual não é o primeiro do tipo. O START 1 foi lançado ainda durante a Guerra Fria pelo presidente Ronald Reagan e assinado em 1991, cinco meses antes do colapso da União Soviética, pelo sucessor de Reagan, George H. Bush, e pelo soviético Mikhail Gorbachev, entrando em vigor em 1994. Já o START 2, cujos termos foram definidos em 1993, foi colocado de lado por causa de tensões entre Moscou e Washington na virada do século.
Em 2010, Barack Obama e Dmitri Medvedev assinaram o New START, que entrou em vigor no ano seguinte.
Os tratados, junto com os esforços mundiais para a redução dos riscos de uma guerra nuclear, surtiram efeito. Em 1986, o total de ogivas no mundo alcançava impressionantes 70 mil unidades. Em 2025, no entanto, esse número estava em 12 mil.
O risco de uma nova corrida nuclear
Além de limitar o número de ogivas atômicas, o New START também determina o controle mútuo das instalações nucleares, por meio de inspeções e troca de dados. O objetivo era excluir a possibilidade de um dos dois países lançar mão “acidentalmente” de um ataque nuclear ao interpretar mal as informações do outro lado.
Mas, no atual contexto, esse ponto não tem funcionado como previsto. A pandemia de Covid-19 levou, em 2020, à suspensão das inspeções locais. Dois anos depois, após a invasão da Ucrânia pela Rússia, Putin rejeitou vistorias e troca de dados com os EUA, aliados de Kiev, que também deixaram de compartilhar com Moscou informações exigidas no âmbito do New START.
Em meio a esses ruídos, ambos os países têm aumentado os investimentos em instalações militares, com seus líderes inclusive abordando abertamente a possibilidade do teste e uso de armas atômicas. Se o tratado chegar mesmo ao fim, o risco maior é que essa corrida nuclear, que já está em curso, fique ainda mais perigosa.
“Sem o tratado, cada lado ficará livre para acrescentar centenas de ogivas aos seus mísseis e bombardeiros pesados, praticamente dobrando o tamanho de seus arsenais existentes hoje”, afirmou Matt Korda, diretor do Projeto de Informação Nuclear da Federação de Cientistas Americanos (FAS), à agência Reuters.
“Há muitas pessoas no establishment nuclear que querem aumentar rapidamente o tamanho da potência dos EUA para combater o fortalecimento estratégico da China”, disse Daryl Kimball, diretor da Associação de Controle de Armas em Washington, ao jornal britânico The Guardian.
Segundo ele, o fim do New START poderá ameaçar o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), de 1970, que também passará por uma revisão em 2026. O TNP prevê que países que não possuam armas nucleares, como o Brasil, se mantenham assim. A contrapartida é que as nações nucleares se comprometam a fazer esforços em direção a um desarmamento.
Ambição europeia
Na Europa, o fim do New START, em meio aos conflitos na Ucrânia e às tensões de Trump com a Groenlândia, reacenderam o debate atômico entre os líderes do continente. O chanceler alemão Friedrich Merz já admitiu conversas, mesmo que incipientes, com França e Reino Unido para a construção de um sistema de defesa nuclear europeu. Há, no entanto, o risco de que a Rússia pressione pela inclusão dessas nações europeias, próximas aos EUA, em um futuro tratado similar ao New START.
Para a Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares (ICAN), no entanto, o futuro é incerto e preocupante, diante do fim do tratado.
“Embora os arsenais nucleares da Rússia e dos EUA, mesmo com os limites do New Start, já representassem uma ameaça inaceitável para a humanidade, sem ele, o risco do uso de armas nucleares provavelmente aumentará, devido à possibilidade de uma corrida armamentista nuclear intensificada”, disse a organização não governamental, em um comunicado divulgado nesta quarta-feira.
Com informações de Christoph Hasselbach
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