OMS se reunirá na terça para analisar segurança da vacina AstraZeneca

Uma dúzia de países, incluindo Alemanha, França e Itália, suspendeu o uso da vacina AstraZeneca após relatos de possíveis efeitos colaterais

Foto: Jens Schlueter/AFP

Foto: Jens Schlueter/AFP

Mundo

A Organização Mundial da Saúde convocou seu grupo de especialistas na terça-feira 16 para analisar a segurança da vacina de Oxford/AstraZeneca contra a Covid-19, embora tenha dito que os países devem continuar a administrá-la por enquanto.

O grupo de especialistas “está em contato próximo com a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) e nos encontraremos amanhã”, disse o chefe da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

“Não queremos que as pessoas entrem em pânico e, por enquanto, recomendamos que os países continuem a vacinar com a AstraZeneca”, declarou outro funcionário da agência, depois que vários países suspenderam seu uso por temores relacionados a coágulos sanguíneos.

 

“Até agora, não encontramos uma ligação entre esses eventos e a vacina”, acrescentou funcionário da OMS. 

 

O cientista também destacou que, por enquanto, os benefícios da vacinação superam os riscos associados à Covid-19. “Com base no que vimos até agora nos dados preliminares, não há aumento no número de casos de eventos tromboembólicos”, acrescentou.

 

Os países que suspenderam o imunizante da AstraZeneca

Uma dúzia de países, incluindo Alemanha, França e Itália, suspendeu o uso da vacina AstraZeneca contra a Covid-19 como precaução, após relatos de “possíveis” efeitos colaterais, mas sem uma ligação comprovada até o momento. O grupo farmacêutico anglo-sueco afirma que “não há evidências de um risco aumentado” de coágulo sanguíneo causado por sua vacina.

A Dinamarca foi o primeiro país a suspender o uso da vacina AstraZeneca em 11 de março “após relatos de casos graves de coágulos sanguíneos” em pessoas vacinadas.

A Noruega fez o mesmo no mesmo dia. O país informou nesta segunda-feira 15 a morte de uma cuidadora com menos de 50 anos que morreu de hemorragia cerebral. Ela foi hospitalizada na quinta-feira 11, cerca de uma semana após receber a vacina AstraZeneca, mas não foi possível estabelecer uma relação causal nesta fase.

Outra cuidadora na casa dos trinta anos já havia morrido na Noruega na sexta-feira 12, dez dias depois de receber a mesma vacina. A Islândia tomou a mesma decisão.

 

No embalo dos países nórdicos

A Bulgária anunciou, em 12 de março, a suspensão “por precaução” das injeções.  O comunicado veio um dia após as decisões tomadas pelos três países nórdicos.

No domingo, Irlanda e Holanda também suspenderam o uso da vacina, mais uma vez por precaução. Já Alemanha, França e Itália decidiram nesta segunda-feira 15 suspender o uso da vacina, como medida preventiva.

Esta decisão de suspensão vem “após novas informações sobre tromboses de veias cerebrais em conexão com a vacinação na Alemanha e na Europa”, disse um porta-voz do ministério da Saúde alemão.

“Por precaução”, Paris e Roma tomaram a mesma medida, enquanto aguardam o parecer da Autoridade Europeia de Medicamentos (EMA), previsto para terça-feira 16.

 

Campanha de vacinação atrasada

A Tailândia e a República Democrática do Congo (RDC) atrasaram o início de suas campanhas de vacinação com esse imunizante, que estavam programadas para sexta-feira 12 e segunda-feira 15, respectivamente.

A Indonésia também decidiu nesta segunda adiar o lançamento de sua campanha de vacinação com a AstraZeneca por precaução.

 

Suspensões de lotes

A Áustria anunciou em 8 de março a suspensão do uso de um lote da vacina AstraZeneca (ABV5300) depois que uma enfermeira de 49 anos morreu de “graves problemas de coagulação do sangue”, poucos dias após ser vacinada.

Quatro outros países europeus – Estônia, Letônia, Lituânia e Luxemburgo – também suspenderam o uso das vacinas desse lote de um milhão de doses, que foi enviado para 17 países europeus.

A Itália proibiu na quinta-feira 11, como precaução, o uso de outro lote, o ABV2856, por causa de temores relacionados à formação de coágulos sanguíneos.

A Romênia também suspendeu este lote.

A região italiana do Piemonte (noroeste da Itália) suspendeu a vacina da AstraZeneca no domingo 14 após a morte de um professor. Em seguida, retomou as injeções, porém excluindo por precaução o lote ABV5811.

 

O laboratório AstraZeneca. Foto: Paul Ellis/AFP

 

Nenhuma prova de perigo específico

A vacina contra a Covid-19 da AstraZeneca é perigosa? Nada indica uma relação de causa e efeito e o embalo das autoridades de saúde divide os profissionais.

“Não faz sentido parar essa vacinação”, declarou, nesta segunda-feira 15, Bruno Riou, da Assistência Pública-Hospitais de Paris (AP-HP), na emissora France Inter. “É como se disséssemos: ‘Houve um acidente de carro com alguém vacinado, vamos proibir a condução ou suspender a vacinação!”

A cada vez, as autoridades sanitárias reagem a casos, no seu país ou no estrangeiro, em que pessoas vacinadas desenvolveram problemas sanguíneos que às vezes são fatais.

Trata-se de dificuldades de coagulação, como na Áustria, ou formação de coágulos sanguíneos (trombose), para o qual apenas um caso grave foi notificado na França após a administração de uma vacina AstraZeneca.

Mas as autoridades em questão reconhecem: não há ligação comprovada entre esses problemas de saúde e essa vacina, além da sequência cronológica. A suspensão é temporária, a fim de garantir que tal relação não existe, o que requer uma investigação científica. É um clássico princípio da precaução que conta com o apoio de alguns pesquisadores.

“Quando usamos um produto relativamente recente, como todas essas novas vacinas, devemos monitorar e assim que há um sinal, mesmo que não acreditemos, devemos parar tudo”, estimou na quinta-feira 11 a vacinologista suíça Claire-Anne Siegrist.

 

‘Indo longe demais’

Em nota divulgada no domingo, a AstraZeneca ressaltou que os casos de trombose após receber sua vacina são “semelhantes” aos de suas contrapartes.

Essas afirmações são corroboradas por números oficiais do Reino Unido, um dos países mais avançados em sua campanha de vacinação. Eles também testemunham a natureza extremamente rara da trombose.

Foram 35 em 9,7 milhões de pessoas que receberam a dose da AstraZeneca – 0,0004% – e 24 dos 10,7 milhões da Pfizer/BioNTech – 0,0002%. Em cada categoria, houve apenas uma morte.

“Obviamente, a proporção (…) não é diferente”, sublinha em comunicado Stephen Evans, epidemiologista da London School of Hygiene and Tropical Medicine, citado pela organização Science Media Center, e que lamenta a suspensão da vacina em vários países.

“É inteiramente razoável estudar cuidadosamente as ligações entre as vacinas e os problemas de coagulação, mas estamos indo longe demais em [impedir] que as pessoas recebam vacinas que podem evitar que adoeçam”, insiste.

Segundo a AstraZeneca, os casos de trombose são ainda significativamente menos frequentes do que a média da população. Isso não significa, porém, que a vacina seja isenta de efeitos colaterais.

Na França, dados do regulador de medicamentos, ANSM, mostram que são mais frequentes de serem relatados com a AstraZeneca (0,66%) do que Pfizer/BioNTech (0,19%) ou Moderna (0,12%).

Na maioria das vezes, não são sérios. Quando mais complicadas, a grande maioria são síndromes próximas à gripe com, por exemplo, acessos de febre intensa.

Alguns efeitos podem, no entanto, ser ainda mais graves, como reações alérgicas que impedem a respiração. A União Europeia as acrescentou há poucos dias à lista de potenciais efeitos colaterais da vacina AstraZeneca, ainda que os casos sejam excepcionais: 41 em cinco milhões.

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