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‘Olavo de Carvalho argentino’ mira filhos do kirchnerismo para chegar à presidência em 2023

O discurso de Javier Milei une anarcocapitalismo juvenil, conservadorismo reacionário e ódio à esquerda. Mas ainda não parece animar a população mais pobre

O economista argentino Javier Milei, provável rival do kirchnerismo em 2023 (Foto: Reprodução/Redes sociais)
O economista argentino Javier Milei, provável rival do kirchnerismo em 2023 (Foto: Reprodução/Redes sociais)
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Depois de eleger, no ano passado, sua primeira bancada no Congresso argentino desde o fim da ditadura, a ultradireita local tenta levar uma inusitada figura à Casa Rosada em 2023. Quem vê pela primeira vez o deputado Javier Milei, 51, certamente nota os cabelos fartos, amanhados em um penteado que lembra os cantores de rock do início dos anos 2000.

O discurso e a trajetória, contudo, o aproximam mais de outra figura alçada à fama neste século: Olavo de Carvalho, o finado guru do bolsonarismo.

Antes conhecido apenas nos círculos libertários, o economista passou a ser convidado para debates na TV argentina. Sua coalizão, chamada A Liberdade Avança, dialoga com o bolsonarismo e alt right americana. A mistura performática de anarcocapitalismo juvenil, conservadorismo reacionário e ódio à esquerda tem atraído eleitores mais jovens – especialmente os que nasceram em lares peronistas.

Trata-se de uma aposta quase freudiana de desidentificação da prole com os seus genitores, avalia Ariel Goldstein, pesquisador das direitas na América Latina, pelo Conselho Nacional de Pesquisa Científicas e Técnicas, o Conicet.

A figura de Milei, alçada a símbolo do liberalismo econômico na Argentina, representa uma espécie de rebeldia, especialmente para uma geração criada em uma cultura que é fundamentalmente pró-Estado. “Eu entrevistei pessoas que trabalham na equipe de Javier Milei. Eles afirmaram estarem de olho e escrevendo, principalmente nas redes sociais, aos filhos dos kirchneristas”, contextualiza. “Cada geração se rebela com a geração anterior e a forma desses jovens se rebelarem é apoiando a Milei.”

A imagem de alguém que diz o que pensa e é sincero é o ponto-chave da campanha de Milei

Há algumas semanas, em uma noite fria de 7 graus e sensação térmica de 5, protagonizou seu primeiro evento de campanha. Pouco mais de mil pessoas (um fracasso, a equipe de Milei esperava 12 vezes mais) se reuniram em um estádio na cidade de Gerli, na região metropolitana de Buenos Aires.

O lugar não foi eleito de forma aleatória. Em 2021, a aventura legislativa de Milei teve sucesso expressivo na capital Buenos Aires. Agora, ele testa sua popularidade nos arredores portenhos, onde vive a população mais pobre.

A reportagem esteve em Gerli para descobrir quem são os prováveis eleitores de Milei – e por que o seu discurso parece fazer tanto sucesso entre os mais jovens.

Cercado pela polícia e por seguranças privados, o evento teve mais clima de festa do que de comício. Um DJ remixava desde músicas da banda Calle 13 – abertamente de esquerda – a faixas de techno e pop internacional. Houve também um show de cumbia argentina.

A maioria do público era composta por jovens, adolescentes e crianças acompanhadas dos pais, como a família de Stephania Abuero, de 38 anos, designer gráfica que veio da capital Buenos Aires com o namorado e o filho de 14 anos para apoiar Milei

O presidente da Argentina, Alberto Fernández, e a vice Cristina Kirchner. Foto: ESTEBAN COLLAZO/Argentinian Presidency

Stephania é de família peronista e confessou ter votado no passado em Cristina Kirchner – ex-presidente argentina e atual vice-presidente pela Frente de Todos. “Depois que conheci meu namorado, ele me mostrou que eu estava errada”. Para o namorado de Stephania, o motorista e produtor de eventos, Maxiliano Valvez, de 39 anos, “a vice-presidente não passa de uma criança, às vezes adolescente, que não sabe governar”. Ela arremata: “Hoje, é impossível falar de política com a minha família”.

A expectativa de que a população da região metropolitana comparecesse em peso não se concretizou. A maioria dos apoiadores era da capital, como o jovem Matias Di-Schiavo, de 21 anos, da região de Chacarita, bairro de classe média portenho.

“Eu apoio Milei porque ele defende as pessoas de bem, ou seja, quem trabalha, paga suas contas e quer viver tranquilo. Eu defendo a liberdade e para mim o Estado é inimigo das pessoas”, afirmou Schiavo, que estuda programação e trabalha com vendas on-line no Mercado Livre.

Para Goldstein, há uma diferença na forma como Milei se comunica com a nova geração de argentinos, profissionais autônomos e que se identificam com o discurso do empreendedorismo. “A maioria é autônomo, atua no mercado online e assume o discurso ‘eu sou meu próprio chefe e não preciso do Estado’, o que não é uma coincidência.” Não quer dizer, porém, que o papel do Estado

Durante o comício, outro rapaz de 23 anos parecia simbolizar os anseios dessa geração. “Minha família é toda peronista e sou o único que votará no Javier [Milei]. É uma pessoa que transmite credibilidade; não sei explicar muito bem o porquê.” Ele não chancela, contudo, todas as propostas de Milei.

“Sou a favor da legalização da maconha e das armas, mas não concordo, por exemplo, que os programas sociais sejam suspensos imediatamente. Também não sou a favor da privatização de serviços básicos como saúde e educação; talvez esse seja meu lado peronista da família”, diz o jovem, rindo, que atende pelo apelido de Russo e apesar não ter dito o nome, contou ser estudante de direito e trabalhar com o setor imobiliário.

Apesar de seduzidos pelo individualismo, os apoiadores de Milei mostram intolerância às liberdades reprodutivas e de gênero

Para atrair jovens como Russo, que acreditam na ascensão individual e no combate à violência por meio do indivíduo, mas não abrem mão do Estado, Milei tem moderado aos poucos seu discurso. Com uma equipe que envolve cineastas, influenciadores digitais e youtubers, a campanha do candidato de extrema-direita investe cada vez mais em uma linguagem cinematográfica, com efeitos especiais, a narrativa do heroísmo e a lógica do Eu (Milei) contra os outros (esquerda, estado, peronismo, macrismo).

Questão de gênero

Apesar de seduzidos pelo discurso de Estado mínimo e a promessa individualista de liberdade, os apoiadores de Milei mostraram intolerância às liberdades reprodutivas e de gênero. “Ao invés de a escola ensinar meus filhos sobre matemática e geografia, ensina sobre os direitos das mulheres e como travestir um bebê, o que é uma barbaridade”, afirma Valvez, namorado de Stephani e padrasto de Lautaro Zamora, adolescente de 14 anos que votará pela primeira vez em 2023.

“Eu ainda não tenho certeza em quem vou votar, mas acho que será em Milei. Na verdade, o que eu não gosto é do modo como a escola ensina”, disse o garoto, na frente da mãe.  “Conta para ela aquela vez que você se sentiu oprimido na sala de aula por expressar sua opinião”, pede Stephani ao filho: “Ah, sim. Teve um dia na minha escola que estavam discutindo violência e diziam que apenas as mulheres sofriam violência e que os homens eram os violentos. Eu não concordo com isso. Não é verdade que as mulheres são vítimas, mas preferi não dizer nada porque seria excluído”, comenta. A mãe aponta: “Desde que chegou Cristina no poder temos que engolir políticas sem sentido, como a lei de aborto”.

Valvez foi enfático ao recordar porque começou a dar ouvidos à extrema-direita: “Sou bailarino de folclore e fiquei incrédulo com o nível de paranoia que as mulheres chegaram. Não podia nem dançar mais com elas. Eu tinha medo de ser acusado de assédio. E esse governo (peronista) estimula isso.”

Amanda Cotrim
Repórter freelancer em Buenos Aires

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