OEA descarta ‘irregularidades graves’ na eleição peruana, que segue sem vencedor

O partido de Keiko Fujimori apresentou pedidos de anulação dos resultados de mais de 800 seções. Resultado oficial ainda não saiu

(Foto: ERNESTO BENAVIDES / AFP)

(Foto: ERNESTO BENAVIDES / AFP)

Mundo

O segundo turno das eleições presidenciais peruanas foi “um processo eleitoral positivo”, no qual não foram detectadas “irregularidades graves”, declarou nesta sexta-feira a Missão de Observação Eleitoral da Organização de Estados Americanos (OEA).

“A Missão não detectou irregularidades graves”, ressalta o relatório preliminar do grupo, encabeçado pelo ex-chanceler paraguaio Rubén Ramírez, que apoia o trabalho dos órgãos eleitorais peruanos, questionados por Keiko Fujimori ao denunciar “indícios de fraude” e pedir a anulação de cerca de 200.000 votos.

“A Missão destaca a coincidência de ambas as candidaturas de não se proclamar vencedores até que tenham se resolvido todas as impugnações”, acrescenta o informe, divulgado cinco dias após a votação, cuja apuração avança a conta-gotas.

Embora não haja um resultado oficial, líderes da esquerda latina saudaram a vitória do professor rural. Já o presidente interino, Francisco Sagasti, tenta acalmar os ânimos no país polarizado, onde se aguarda desde domingo a definição da disputa, que entrou em uma fase ainda mais complexa nesta sexta-feira.

A tensão aumentou hoje, quando o Júri Nacional de Eleições (JNE), que deve proclamar o vencedor, decidiu de forma inesperada estender em 48 horas o prazo para a impugnação dos votos, o que favorecia Keiko, e, depois, voltou atrás. “É inconstitucional, seria uma fraude consumada”, disse a advogada Dina Boluarte, candidata a vice de Castillo.

 

 

 

Saudações de Dilma e Correa

Embora ainda não haja um vencedor oficial, Castillo continua a receber os parabéns dos líderes regionais. Os ex-presidentes do Brasil e do Equador, Dilma Rousseff e Rafael Correa, o saudaram como “presidente eleito”.

Durante a semana, os ex-presidentes da Bolívia Evo Morales, Luiz Inácio “Lula” da Silva, a primeira-dama da Nicarágua, Rosario Murillo e os atuais chefes de Estado da Bolívia, Luis Arce, e da Argentina, Alberto Fernández, enviaram seus parabéns.

Diante dessas expressões, o governo peruano “se viu obrigado a entregar uma nota de protesto aos embaixadores desses países no Peru, indicando que os resultados finais das Eleições Gerais de 2021 ainda não foram oficialmente anunciados pelas autoridades eleitorais”, informou a chancelaria em comunicado.

Castillo tem uma vantagem de 60.000 votos, com 99,5% das mesas apuradas, mas o JNE ainda não resolveu os pedidos de impugnação de milhares de votos apresentados por ambos os candidatos, especialmente por Keiko Fujimori.

O prazo para contestação venceu na quarta-feira, e Keiko conseguiu apresentar apenas parte dos que pretendia que fossem anulados, segundo a imprensa local. Líderes indígenas advertiram hoje que marcharão até Lima se necessário para defender seus votos em Castillo, em resposta ao pedido de Keiko para que sejam anuladas 802 atas de mesas rurais.

A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) condenou a perseguição ao jornal “La República” e a seu diretor, Gustavo Mohme, por apoiadores de Keiko, e responsabilizou a candidata “por uma possível escalada da violência”.

 

Keiko Fujimori acusa apuração de fraude (Photo by ERNESTO BENAVIDES / AFP)

 

‘Que a calma impere’

O presidente Sagasti conversou com pessoas vinculadas aos dois candidatos para pedir que se acalmem, independentemente do vencedor, revelou em mensagem no Twitter.

Com o objetivo de promover a calma num momento “complexo”, Sagasti disse ter comunicado “com várias pessoas”, entre elas Mario Vargas Llosa” observou Sagasti. O premiado escritor, 85, tem apoiado ativamente Keiko Fujimori da Espanha, onde reside, embora tenha sido um crítico antifujimorista no passado.

“O presidente Sagasti não deve interferir no meu legítimo direito de defender nossos votos”, reagiu Keiko no Twitter.

 

‘Nada a ver com a Venezuela’

As mudanças no modelo econômico promovidas por Pedro Castillo, temidas por empresários e investidores, “não têm nada a ver com a proposta da Venezuela”, afirmou em entrevista à AFP seu principal assessor, Pedro Francke. “Não faremos expropriações ou estatizações, não faremos controle de preços generalizados, não faremos um controle do câmbio”, afirmou.

Um promotor pediu ontem a prisão preventiva de Keiko por suspeita de violação das regras de sua liberdade condicional no caso das contribuições ilegais da construtora brasileira Odebrecht, pelo qual esteve em prisão preventiva por 16 meses. O pedido deve ser resolvido por um tribunal.

Keiko denunciou “evidências de fraude” na segunda-feira e dois dias depois pediu a anulação de 200.000 votos, acentuando o clima de incerteza no país após anos de convulsão política.

A impugnação de votos levaria mais de uma semana para ser decidida no JNE, motivo pelo qual a disputa segue em aberto, com queda da Bolsa de Lima durante a semana e o dólar se aproximando da cotação recorde de 3,9 soles.

 

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