Mundo
O Tremembé de Nova York
Nicolás Maduro, El Chapo e Sam Bankman-Fried são alguns dos famosos encarcerados no MDC, no Brooklyn
O que um presidente deposto, um bilionário fraudador das criptomoedas, uma antiga parceira de Jeffrey Epstein e um suspeito de assassinar um executivo de um plano de saúde têm em comum? A estada no mesmo endereço em Nova York, o Metropolitan Detention Center, no Brooklyn. Ali, na prisão federal mais famosa e problemática da cidade, Nicolás Maduro, sequestrado pelo governo Trump, aguarda julgamento ao lado de outros réus de alto perfil. É onde a vitrine do poder mundial se encontra com o dia a dia precário do sistema penal dos Estados Unidos. Segundo o Departamento Penitenciário do país, o MDC, um dos maiores complexos norte-americanos, tem capacidade para mil detentos, mas atualmente abriga mais de 1,3 mil, entre homens e mulheres. O prédio, que lembra uma fábrica, com vista para a baía de Nova York e, ironicamente, para a Estátua da Liberdade, é usado como “geladeira” temporária do sistema federal.
Maduro foi levado para lá há pouco mais de um mês e aguarda julgamento ao lado da esposa, Cilia Flores, também mantida no MDC. Presos como eles são geralmente abrigados na Unidade de Alojamento Especial, em confinamento e sob condições restritas: cada um recebe um cobertor de lã e fica deitado em um colchão muito fino sobre uma cama de metal. São acordados às 6 da manhã e passam até 23 horas por dia trancados nas celas.
Embora receber detentos notórios e com casos de grande repercussão seja uma especialidade do MDC, o centro é recorrentemente descrito como o “inferno na terra”, um lugar com condições “desrespeitosas à dignidade humana”, na avaliação de diversos juízes. Construído na década de 1990 para lidar com a superlotação nas prisões da cidade, o MDC acumula episódios de esfaqueamentos e mortes violentas, denúncias de comida estragada e falta de pessoal. As celas são escuras, superlotadas e barulhentas. Há denúncias de saneamento precário, cortes de energia, serviços médicos inadequados e falta de aquecimento durante o inverno. Em 2019, o complexo penitenciário ficou sem energia por uma semana, enquanto os termômetros na Big Apple registravam um frio quase polar.
Por conta de tantas denúncias de maus-tratos, em agosto de 2024, o juiz federal Gary Brown condenou Daniel Colucci, empresário de 74 anos acusado de desviar mais de 1 milhão de dólares em impostos retidos dos salários dos funcionários, a nove meses de prisão por fraude fiscal. Brown incluiu, no entanto, na condenação uma cláusula inédita: se o Departamento Penitenciário dos EUA designasse o MDC Brooklyn como o local de cumprimento da pena, a sentença seria anulada e convertida em domiciliar, devido às “perigosas e bárbaras condições que existem há algum tempo no Metropolitan Detention Center”. Na decisão, o magistrado acrescentou: “Nas circunstâncias atuais, cumprir pena no MDC é inaceitável”. A decisão abriu um precedente e, desde então, o Departamento Penitenciário parou de aceitar condenados para cumprir pena no local, reservando-o apenas a presos à espera de julgamento.
O presídio é descrito como um “inferno na terra”
A mudança não resolveu os problemas estruturais, apenas expôs a seletividade do sistema. Enquanto detentos famosos ganham alas especiais e cobertura internacional, a maioria dos encarcerados – negros e latinos de baixa renda acusados de crimes menores de drogas ou imigração) – continua exposta à precariedade que custou ao menos 17 vidas desde 2020, segundo dados do próprio governo. Um cotidiano brutal que reforça as críticas ao modelo penal norte-americano. O país tem a maior população carcerária absoluta do mundo, 2 milhões de presos, e a maior taxa per capita entre as democracias.
Antes de Maduro, passaram pelo MDC o ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández, extraditado em 2022 por narcotráfico e conivência com o Cartel de Sinaloa e perdoado por Trump em dezembro passado, o narcotraficante mexicano Joaquín El Chapo Guzmán, líder do Cartel de Sinaloa, antes de ser enviado a um presídio de segurança máxima no Colorado, Ghislaine Maxwell, ex-parceira de Jeffrey Epstein condenada por tráfico sexual de menores, e Sam Bankman-Fried, fundador da FTX condenado por fraude bilionária e lavagem de dinheiro após colapso da corretora de criptomoedas.
Outros “moradores” ilustres foram Sean Diddy Combs, magnata do rap sentenciado a mais de quatro anos por transporte para prostituição, o cantor R. Kelly, condenado por abusos sexuais e tráfico de menores, o empresário Martin Shkreli, conhecido como “Pharma Bro”, condenado por fraude de valores mobiliários, e o reverendo Al Sharpton, ativista dos direitos civis, detido por 90 dias, em 2001, durante protestos contra os bombardeios da Marinha dos EUA na ilha de Vieques, em Porto Rico. Hoje, além de Maduro e Cilia Flores, o presídio abriga o suposto líder de cartel Ismael El Mayo Zambada García e Luigi Mangione, jovem de 27 anos acusado de assassinar, em 2024, Brian Thompson, então CEO da UnitedHealthcare.
Por causa desse último caso, aliás, o MDC voltou aos holofotes. Em 28 de janeiro, Mark Anderson foi preso ao tentar libertar Mangione “disfarçado” de agente do FBI. Anderson alegou ser o portador de uma ordem judicial assinada por um juiz para soltar o detento. Mostrou a carteira de motorista e disse estar armado, mas, durante a revista, os agentes encontraram um cortador de pizza, um garfo de churrasco e documentos aleatórios. Anderson, que trabalhava em uma pizzaria e foi acusado de falsidade ideológica, não logrou intento, mas expôs as falhas de segurança do presídio.
A defesa de Maduro, liderada por Barry Pollack, ex-advogado de Julian Assange, fundador do WikiLeaks, pediu a transferência do ex-presidente venezuelano por questões de segurança. Não há resposta até o momento. O julgamento está marcado para 17 de março. •
Publicado na edição n° 1399 de CartaCapital, em 11 de fevereiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O Tremembé de Nova York’
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