Mundo

assine e leia

O som ao redor

Países sul-americanos abrem as portas às ações militares dos EUA e deixam o Brasil cercado

O som ao redor
O som ao redor
Há denúncias de violações na operação conjunta entre EUA e Equador – Imagem: Sgt. Caleb Sooter/Guarda Nacional
Apoie Siga-nos no

Em novembro de 2025, os Estados Unidos publicaram um documento de apenas 29 páginas, no qual anunciavam de maneira claríssima muitas das atitudes do governo ­Donald Trump em relação à América Latina desde então, da pressão eleitoral sobre o Brasil à deposição de Nicolás Maduro, do arrocho galopante sobre Cuba ao desembarque de agentes da CIA no México e na Colômbia, e de tropas militares na Venezuela e no Equador. Não há ação recente que não possa ser compreendida por quem se dá ao trabalho de ler a última edição dessa Estratégia de Segurança Nacional.

Em relação especificamente à América Latina e ao Caribe, a doutrina se resume a afastar a influência chinesa a qualquer custo, restabelecendo a proe­minência norte-americana. Onde for possível fazê-lo por meio apenas das relações diplomáticas e comerciais, será feito. Onde não for, outros meios serão encontrados, desde que prevaleça a reeditada Doutrina Monroe, política imperialista norte-americana do século XIX citada nominalmente quatro vezes ao longo do documento.

De forma clara, o texto diz que “algumas prioridades” de segurança doméstica “transcendem as fronteiras”. Uma delas: “a atividade terrorista em uma área de menor importância pode exigir nossa atenção urgente”. Quem leu o documento assim que ele saiu, no fim do ano passado, não pode ter se surpreendido, portanto, com o fato de que os Estados Unidos vieram, desde então, classificando cartéis de drogas e facções criminosas, como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, no Brasil, como organizações terroristas internacionais.

A “atenção urgente” a esses grupos tem sido dada por meio de parcerias com diversos governos latino-americanos, cujos presidentes são politicamente alinhados a Trump. Para isso, foram criadas duas iniciativas: o Escudo das Américas e, em seu interior, a Coalizão das Américas Contra Cartéis, ou A3C. O Brasil não participa de nenhuma delas, e teme que tudo isso não passe de pretexto para justificar uma intervenção estrangeira indevida em assuntos nacionais, como disse o assessor especial da Presidência, Celso Amorim, em discurso na Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados em 12 de agosto.

Na semana seguinte àquela que ­Amorim discursava em Brasília, o ministro da Defesa do Equador, Gian Carlo ­Loffredo, celebrou a chegada de dois navios de guerra e dois helicópteros Black Hawk dos Estados Unidos à cidade portuária de Manta. O governo equatoriano decidiu permitir que agentes norte-americanos permaneçam no país por 180 dias renováveis, outorgando a eles um amplo conjunto de imunidades diplomáticas. Perto dali, na província de Esmeraldas, o governador Juan Jamarillo anunciou: “Estamos com o sétimo grupo do Exército dos Estados Unidos trabalhando em conjunto contra o narcoterrorismo”.

Agentes norte-americanos, oficiais ou mercenários, recebem salvo-conduto nas nações que aceitaram integrar o Escudo das Américas

Desde março, a Human Rights Watch vinha documentando casos de “tortura e detenções arbitrárias” cometidas por “operações conjuntas entre Estados Unidos e Equador”. O jornal The New York Times compilou um caso no qual pescadores equatorianos relatam terem sido alvos de ataques feitos por agentes não uniformizados, mas que falavam inglês, sugerindo que, além de militares, integrantes de empresas privadas de segurança dos Estados Unidos atuem na região.

Apenas sete meses antes da assinatura desses convênios com o governo do presidente equatoriano, Daniel ­Noboa, forças norte-americanas tinham desembarcado em outro país sul-americano, a Venezuela, onde Nicolás ­Maduro foi sequestrado e sua guarda presidencial, assassinada. A operação foi antecedida por inúmeros ataques aéreos contra embarcações no Mar do Caribe.

Ações semelhantes devem começar a acontecer na Colômbia, sob o recém-empossado governo de Abelardo de La Espriella. “Quem entra no Escudo das Américas aceita que forças militares dos Estados Unidos atuem em seus territórios nacionais para empreender campanhas conjuntas”, afirma a colombiana Melissa Cabrera, da ONG Artigo 19. Segundo ela, a perseguição dos Estados Unidos contra o Tribunal Penal Internacional e a pressão sobre os aliados latino-americanos para que eles façam o mesmo é parte de um plano que busca evitar a responsabilização dos envolvidos nesta guerra às drogas 2.0.

Mais ao sul do hemisfério, três outros governos começam a estreitar laços militares com os Estados Unidos de Trump: o Chile firmou um acordo de cooperação no setor, a Argentina realizou um exercício conjunto com forças norte-americanas e o Paraguai aceitou dar imunidade aos militares dos Estados Unidos em seu próprio território, além de concordar com o livre trânsito e a instalação de redes próprias de telecomunicação, independentes do sistema nacional. Nada disso é inédito em si mesmo, tampouco indica, por si só, um ânimo interventor sem precedentes. É a soma dos fatores, aliada aos ditames da renovada Doutrina Monroe e a equiparação das facções com grupos como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico que acende o alerta.

“A designação como Organização Terrorista Estrangeira abre espaço jurídico para sanções extraterritoriais e, no limite, para ações unilaterais dos EUA”, diz Lucas de Souza Martins, doutorando da Temple Univsersity com especialização nas relações dos Estados Unidos com a América Latina. Apesar disso, acredita Martins, “o Brasil mantém margem diplomática para calibrar essa cooperação, estabelecendo trocas técnicas de inteligência sem ceder soberania jurisdicional”. O especialista considera “uma ação de força direta contra o Brasil pouco provável e de custo político altíssimo para Washington”. Ainda assim, nota que “o acúmulo de operações na região sinaliza uma disposição norte-americana de usar instrumentos coercitivos com mais frequência do que no passado”. •

Publicado na edição n° 1428 de CartaCapital, em 02 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O som ao redor’

Em novembro de 2025, os Estados Unidos publicaram um documento de apenas 29 páginas, no qual anunciavam de maneira claríssima muitas das atitudes do governo ­Donald Trump em relação à América Latina desde então, da pressão eleitoral sobre o Brasil à deposição de Nicolás Maduro, do arrocho galopante sobre Cuba ao desembarque de agentes da CIA no México e na Colômbia, e de tropas militares na Venezuela e no Equador. Não há ação recente que não possa ser compreendida por quem se dá ao trabalho de ler a última edição dessa Estratégia de Segurança Nacional.

Em relação especificamente à América Latina e ao Caribe, a doutrina se resume a afastar a influência chinesa a qualquer custo, restabelecendo a proe­minência norte-americana. Onde for possível fazê-lo por meio apenas das relações diplomáticas e comerciais, será feito. Onde não for, outros meios serão encontrados, desde que prevaleça a reeditada Doutrina Monroe, política imperialista norte-americana do século XIX citada nominalmente quatro vezes ao longo do documento.

De forma clara, o texto diz que “algumas prioridades” de segurança doméstica “transcendem as fronteiras”. Uma delas: “a atividade terrorista em uma área de menor importância pode exigir nossa atenção urgente”. Quem leu o documento assim que ele saiu, no fim do ano passado, não pode ter se surpreendido, portanto, com o fato de que os Estados Unidos vieram, desde então, classificando cartéis de drogas e facções criminosas, como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, no Brasil, como organizações terroristas internacionais.

A “atenção urgente” a esses grupos tem sido dada por meio de parcerias com diversos governos latino-americanos, cujos presidentes são politicamente alinhados a Trump. Para isso, foram criadas duas iniciativas: o Escudo das Américas e, em seu interior, a Coalizão das Américas Contra Cartéis, ou A3C. O Brasil não participa de nenhuma delas, e teme que tudo isso não passe de pretexto para justificar uma intervenção estrangeira indevida em assuntos nacionais, como disse o assessor especial da Presidência, Celso Amorim, em discurso na Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados em 12 de agosto.

Na semana seguinte àquela que ­Amorim discursava em Brasília, o ministro da Defesa do Equador, Gian Carlo ­Loffredo, celebrou a chegada de dois navios de guerra e dois helicópteros Black Hawk dos Estados Unidos à cidade portuária de Manta. O governo equatoriano decidiu permitir que agentes norte-americanos permaneçam no país por 180 dias renováveis, outorgando a eles um amplo conjunto de imunidades diplomáticas. Perto dali, na província de Esmeraldas, o governador Juan Jamarillo anunciou: “Estamos com o sétimo grupo do Exército dos Estados Unidos trabalhando em conjunto contra o narcoterrorismo”.

Agentes norte-americanos, oficiais ou mercenários, recebem salvo-conduto nas nações que aceitaram integrar o Escudo das Américas

Desde março, a Human Rights Watch vinha documentando casos de “tortura e detenções arbitrárias” cometidas por “operações conjuntas entre Estados Unidos e Equador”. O jornal The New York Times compilou um caso no qual pescadores equatorianos relatam terem sido alvos de ataques feitos por agentes não uniformizados, mas que falavam inglês, sugerindo que, além de militares, integrantes de empresas privadas de segurança dos Estados Unidos atuem na região.

Apenas sete meses antes da assinatura desses convênios com o governo do presidente equatoriano, Daniel ­Noboa, forças norte-americanas tinham desembarcado em outro país sul-americano, a Venezuela, onde Nicolás ­Maduro foi sequestrado e sua guarda presidencial, assassinada. A operação foi antecedida por inúmeros ataques aéreos contra embarcações no Mar do Caribe.

Ações semelhantes devem começar a acontecer na Colômbia, sob o recém-empossado governo de Abelardo de La Espriella. “Quem entra no Escudo das Américas aceita que forças militares dos Estados Unidos atuem em seus territórios nacionais para empreender campanhas conjuntas”, afirma a colombiana Melissa Cabrera, da ONG Artigo 19. Segundo ela, a perseguição dos Estados Unidos contra o Tribunal Penal Internacional e a pressão sobre os aliados latino-americanos para que eles façam o mesmo é parte de um plano que busca evitar a responsabilização dos envolvidos nesta guerra às drogas 2.0.

Mais ao sul do hemisfério, três outros governos começam a estreitar laços militares com os Estados Unidos de Trump: o Chile firmou um acordo de cooperação no setor, a Argentina realizou um exercício conjunto com forças norte-americanas e o Paraguai aceitou dar imunidade aos militares dos Estados Unidos em seu próprio território, além de concordar com o livre trânsito e a instalação de redes próprias de telecomunicação, independentes do sistema nacional. Nada disso é inédito em si mesmo, tampouco indica, por si só, um ânimo interventor sem precedentes. É a soma dos fatores, aliada aos ditames da renovada Doutrina Monroe e a equiparação das facções com grupos como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico que acende o alerta.

“A designação como Organização Terrorista Estrangeira abre espaço jurídico para sanções extraterritoriais e, no limite, para ações unilaterais dos EUA”, diz Lucas de Souza Martins, doutorando da Temple Univsersity com especialização nas relações dos Estados Unidos com a América Latina. Apesar disso, acredita Martins, “o Brasil mantém margem diplomática para calibrar essa cooperação, estabelecendo trocas técnicas de inteligência sem ceder soberania jurisdicional”. O especialista considera “uma ação de força direta contra o Brasil pouco provável e de custo político altíssimo para Washington”. Ainda assim, nota que “o acúmulo de operações na região sinaliza uma disposição norte-americana de usar instrumentos coercitivos com mais frequência do que no passado”. •

Publicado na edição n° 1428 de CartaCapital, em 02 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O som ao redor’

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

2026 já começou

Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.

Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.

Assine ou contribua com o quanto puder.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo