O QAnon silenciou, mas há um público à espera da próxima paranoia

O fascinante livro 'The Storm Is Upon Us' examina em detalhes as conspirações virtuais que levaram ao ataque 

(Ilustração: Pilar Velloso)

(Ilustração: Pilar Velloso)

Cultura,Mundo,Sociedade

por Tim Adams

Em 7 de janeiro, um dia após a turba invadir o Capitólio em Washington, um diálogo curioso aconteceu no submundo da conspiração global. Alex Jones, o megafone enrouquecido das fake news da última década, conversou com o mais visível líder dos eventos da véspera, Jacob ­Chansley, o autodenominado “Q Shaman”, que saiu nas primeiras páginas do mundo todo com chifres de búfalo, peles de animais e o rosto pintado.

Jones, em sua plataforma de notícias falsas Infowars, com mais de 1 milhão de usuários, havia sido durante anos o arauto de histórias desconexas que incluíam a crença de que Hillary Clinton era o anticristo, que Michelle Obama era um homem, que o Pentágono e ­George Soros tinham detonado uma “bomba homossexual” que transformou até sapos em gays, que o 11 de Setembro foi uma operação de “bandeira falsa” e que os assassinatos na escola Sandy Hook, onde 20 crianças e seis professores morreram, foram encenados por atores para promover o controle de armas.

Jones estava entre os que se dirigiram à multidão inquieta na marcha “Stop the Steal” (Parem o Roubo) de Donald Trump e pediu aos apoiadores para “entrarem em pé de guerra” na defesa do presidente. Dois dias depois, quando confrontado com a retórica de Chansley, que ele convidou ao seu programa para explicar a rebelião, parecia que mesmo ele, o conspirador-chefe da América, finalmente não aguentava mais as mentiras.

Seita. Jacob Chansley, o “Q Shaman”, e vários outros “patriotas” que tentaram impedir a posse de Biden acreditavam lutar contra um Estado profundo liberal, liderado por pedófilos e satanistas. (FOTO: Jeff Kowalsky/AFP e Saul Loeb/AFP )

Enquanto Q Shaman justificava a violência da turba, fazendo referências a supostas revelações da QAnon de que o Partido Democrata era a fachada de um círculo satânico pedófilo que Trump estava destinado a destruir, Jones repetidamente o interrompeu. Quando Chansley perguntou pesaroso por que ele não o escutava, Jones o cortou. “Porque você é cheio de merda”, gritou. “Toda maldita coisa que sai da boca de vocês não parece verdade. Eu sabia o que vocês eram no primeiro dia e sei o que vocês são hoje, estou de saco cheio. Estou farto de todas essas bruxas e feiticeiros.”

Essa aparente mudança de rumo, desmentindo uma teia de inverdades que ele mesmo propagou, foi surpresa para os seus espectadores. Uma leitura dessa mudança abrupta sugere que Jones, que ganhou milhões de dólares vendendo “pílulas de potência”, compreendeu que o jogo tinha terminado. No último ano, ele perdeu uma série de apelações jurídicas contra o direito dos pais de Sandy Hook de processá-lo por difamação e pelo assédio imperdoável de trolls que acreditaram nas mentiras do Infowars (o canal enviou “investigadores” à escola para tentar desenterrar os corpos de seus filhos assassinados e postou fotos que pretendiam mostrá-los vivos).

As conspirações de extrema-direita cresceram sem controle nos anos Trump

O processo ameaça arruinar Jones financeiramente. Depois de esgotar todas as outras defesas, sua última linha de argumentação parece ser a de que ele – e seus milhões de seguidores – acreditavam o tempo todo que era apenas uma piada. Outra leitura, bem mais otimista, é de que as forças destrutivas da conspiração alt-right (direita alternativa) estão finalmente recuando. É difícil imaginar a ascensão de Trump sem o ambiente de absurda falsidade que o precedeu. Se a Fox News ofereceu apoio para aquela guerra à realidade, Jones foi uma grande parte de sua milícia.

Quando Trump anunciou pela primeira vez que era candidato à Presidência, ele apareceu no Infowars. “Sua reputação é incrível. Não vou decepcioná-lo”, disse, endossando a mensagem do anfitrião de que havia uma cabala secreta do Estado liberal profundo que controlava o mundo. Nos meses de campanha que se seguiram, quando Trump gritava “prendam-na” para a adversária Hillary Clinton, ele sabia que estava pregando para os convertidos do Infowars. Na manhã após sua posse, Jones foi uma das primeiras pessoas­ que Trump contatou para agradecer.

Pandemia. Os seguidores do QAnon estavam entre os que alardeavam teses antivacina e a teoria das antenas 5G. (Foto: Joseph Prezioso/AFP)

O fascinante livro The Storm Is Upon Us (A Tempestade Está Sobre Nós), recém-publicado pelo jornalista Mike Rothschild, da Califórnia, examina as conspirações na internet que levaram ao ataque ao Capitólio em detalhes forenses, particularmente a história do movimento QAnon, a série obscura de “profecias” anônimas que se tornaram a filosofia declarada de muitos dos que viajaram pelos EUA decididos a impedir a posse de Biden.

O livro de Rothschild mostra como as mensagens anônimas do QAnon, que diz ser um membro graduado do Pentágono, passaram a ser vistas como evangelhos proféticos por milhares de americanos descontentes. Houve precedentes de tais frenesis cultuais, é claro, especialmente nos EUA, mas nenhum recebeu o tipo de amplificação e sanção oficial do QAnon, que se tornou uma “filosofia” em que cabe tudo para explicar os males do mundo.

Esse código foi ampliado por apoiadores de Trump, que iam de Jones ao ex-assessor de segurança nacional ­Michael Flynn. Havia ainda o confidente presidencial Roger Stone, que chegou a pedir a Trump para declarar a lei marcial antes da eleição de 2020. Os filhos de Trump, Donald Jr. e Eric, se apresentaram para um público do QAnon, enquanto quase cem candidatos republicanos se declararam crentes do QAnon. Vários deles venceram, como a ­deputada federal Marjorie Taylor Greene.

Como Rothschild detalha, o grosso dos seguidores do Q tinha pouco histórico de extremismo, mas muitos passaram a se ver como “pesquisadores patrió­ticos”, capazes de destilar fragmentos de verdade das “gotas” de informações codificadas. Alguns se descreviam como “autistas”, insinuando padrões fora do alcance dos não esclarecidos, padrões que lhes permitiam compreender, por exemplo, “que, quando (o chefe da CIA) James Comey tuitou sobre a morte de seu cachorro Benji, em novembro de 2018, ele estava na verdade sinalizando ao mundo que George H. W. Bush seria executado duas semanas depois – porque os autistas sabem que fotos de cães enviadas por membros do Estado profundo são mensagens cifradas de execução.

Tão sedutoras eram as tocas de coelho na internet em que eles desciam que em certos casos famílias eram abandonadas e tramas eram criadas, incluindo ameaças de bomba, tentativas de sequestro e planos para destruir um navio-hospital do Coronavírus. O livro examina todas as teorias sobre a identidade original do QAnon, sem chegar a nenhuma conclusão. Entre as mais plausíveis está a de que era uma espécie de experiência maliciosa sobre a credulidade humana. O QAnon compreendeu o poder dos contos e das parábolas. “As primeiras gotas foram escritas com muita habilidade”, diz ele, “quase como os primeiros capítulos de um romance de Tom Clancy… e era uma história que muita gente comprou, porque queriam que fosse verdadeira.”

Os primeiros discípulos estavam mais que dispostos a acreditar que o dia do julgamento se aproximava para os integrantes do Estado profundo: Obama, George Soros, os ­Clinton. A história encontrou terreno fértil entre um público que passava muitas horas procurando a próxima excitação ­online, algo para chocar seus seguidores, um ímã para likes. De certa maneira, a única coisa que impediu uma catástrofe maior em janeiro foi a situação demográfica dos crentes do ­QAnon. Um estudo de 2019 de pesquisadores das Universidades Princeton e de ­Nova York mostrou que os usuários do Facebook com mais de 65 anos tinham até sete vezes maior probabilidade de compartilhar histórias de fake news, e isso valia para o QAnon. Felizmente, diz ­Rothschild, “não eram os paramilitares da era da República de ­Weimar. Eram pessoas de 40, 50, 60 anos”.

Os “empresários da conspiração” faturaram sobre a “infantaria digital”, seduzida por eles

Essa insurreição bizarra forçou as plataformas de rede social a policiar conteúdos radicais e deliberadamente falsos. No início da pandemia, quando parecia que as fake news poderiam superar as mensagens de saúde pública, o Facebook, o Twitter, o YouTube e os demais finalmente se mexeram para retirar conteú­dos ameaçadores, enquanto os corpos se empilhavam nos necrotérios de ­Nova York. Jones estava entre os que alardearam as linhas antivacina e a conspiração das torres de 5G. “Esse é o plano, pessoal”, resmungou Jones desde o início. “Eles já fluorizaram vocês, vacinaram vocês, confundiram e hipnotizaram vocês com a tevê e puseram vocês em transe”. O antídoto para o vírus estava em seus próprios produtos de “bem-estar”: dentifrício branqueador Super Silver e gargarejo ABL Nano Silver, que, segundo ele, “mata a família sars-corona à queima-roupa”. O único efeito comprovado do ingrediente ativo dos produtos, a prata coloidal, é deixar a pele azulada.

O fato de que as gigantes das redes sociais tinham cancelado contas do ­Infowars impediu a maior disseminação desse absurdo letal. Nos meses após os tumultos de janeiro, as plataformas atacaram de maneira semelhante o conteúdo do QAnon. Uma reportagem publicada pelo laboratório de pesquisa forense digital do Conselho Atlântico concluiu que a “conversa” relacionada ao QAnon cresceu enormemente no início da pandemia e aumentou às vésperas do tumulto no Capitólio, mas foi reduzida a um murmúrio após a eleição de Biden.
É difícil ler o livro de Rothschild sem chegar à conclusão de que o apetite pela conspiração dificilmente diminuiu – alguns seguidores do QAnon ainda afirmam que a recontagem dos votos no Arizona será decisiva para restaurar Trump no poder. Enquanto isso, a poderosa combinação de política tribal e os poderes de amplificação das redes sociais continuam exercendo atração. ­Rothschild reserva sua raiva no livro para os “empresários da conspiração”, incluindo Jones e o círculo próximo de Trump, que promoviam essas teorias para ter ganhos políticos ou financeiros, mais que a “infantaria digital”, seduzida por eles.

Jones. Eis o conspirador do Infowars. (FOTO: Drew Angerer/Getty Images/AFP)

A pandemia criou a placa de ensaio perfeita para essa radicalização, forçando as pessoas ao isolamento e a passar mais tempo na internet. Uma das qualidades sedutoras do QAnon nesse sentido é que, em vez de apresentar aos convertidos uma carga de teorias desenvolvidas, ele fazia um convite: “Faça sua própria pesquisa”. Os “autistas” tornaram-se participantes ativos na criação de conspirações, compartilhando e criando pistas, como estudiosos medievais da Bíblia. Basta olhar fóruns como o “QAnon ­Casualties” (Baixas do QAnon) nas plataformas do Reddit, uma conversa de desradicalização e autoajuda para cultuadores e suas famílias desfeitas, para ver como as ideias podem se apoderar das pessoas.

Embora o QAnon esteja silencioso há seis meses, e milhares de contas tenham sido apagadas, “ainda há um grupo grande de pessoas maleáveis. E não demora para que alguém venda o que elas querem escutar”. Se há uma lição dos últimos cinco anos é a facilidade como essas mentiras podem se espalhar. O ­QAnon está em suas últimas forças, diz ­Rothschild, mas há o perigo de surgir algo ainda mais poderoso. “Minha esperança é de que possamos reconhecê-lo e levá-lo a sério. Não entrar em pânico. Mas compreendê-lo, tentar ajudar a derrubá-lo antes que chegue ao ponto em que chegou o QAnon. Esses movimentos não demoram a crescer em violência.”

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.

Publicado na edição nº 1164 de CartaCapital, em 1º de julho de 2021.

 

 

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